Mundo árabe luta para dar forma a uma nova ordem

Eleições, protestos, mudanças de governo e confrontos mostram que luta por democracia na região está mais viva do que nunca

The New York Times |

Por meio de eleições, protestos, novos governos e luta armada, na semana passada os países árabes estiveram mais envolvidos do que nunca na tentativa não apenas de derrubar líderes, mas, também, de formar de maneira decisiva a nova ordem da região.

O centro dessa luta foi mais uma vez o Cairo, no marco que se tornou a Praça Tahrir , onde um movimento de protesto foi reavivado e dezenas de pessoas foram mortas em meio à violência. Alguns saudaram os acontecimentos como uma nova revolução ou a abertura de uma nova frente. Mas eles poderiam ser melhor chamados de “o fim do começo”, já que dentro do espaço de apenas uma semana eventos que eclodiram no Egito e em toda a região pareciam tão inspiradores como qualquer outro desde a explosão de otimismo das revoltas que nasceram 11 meses atrás.

Veja o especial do iG sobre as revoltas populares no mundo árabe

Reuters
Soldados desertores cumprimentam manifestantes durante protesto por julgamento do presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh

"A revolta de janeiro foi contra a ditadura e a de agora é uma revolta contra o que resta da ditadura", disse Noureddine Sateh, um colunista do jornal esquerdista libanês Al Safir. "A queda dos regimes não foi a revolução, mas apenas uma maneira de estabelecer as bases para a Primavera Árabe. A liberdade e a democracia levam tempo."

Ninguém esperava que as revoltas árabes fossem uma simples marcha adiante, mas raramente as coisas pareciam tão em fluxo, com mais potencial para o derramamento de sangue, a fragmentação e a desordem. Enquanto muitos analistas descrevem o tumulto como um acerto de contas inevitável com o legado da ditadura, outros se preocupam com a possibilidade de a região enfrentar anos de agitação antes que novos sistemas apareçam para substituir a estagnada ordem apoiada pelos Estados Unidos, que dominou por tanto tempo.

Temores de caos estão sendo expressados, assim como a esperança de se fazer verdadeiras revoluções. A batalha tornou-se tão arrojada em lugares como o Egito que as forças de reação - ou seja, os militares - parecem mais determinadas do que nunca a manter o poder.

"O que estamos vendo no mundo árabe agora é um estado de pânico", escreveu Fadel Shallak, colunista libanês, neste sábado. "Os governantes têm medo de seu povo, a elite tem medo dos pobres, a classe média tem medo da classe mais baixa e das pessoas comuns."

"Será que isso vai levar a acordos aqui e ali?", perguntou Shallak, um ex-ministro do governo. "Ou vamos continuar vendo um estado de pânico e pressão? Não sabemos. "

A eleição realizada na Tunísia em outubro, saudada como modelo, foi notável pela sua civilidade. Mas o processo se provou uma exceção diante da semana tumultuada observada na região.

O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, concordou em renunciar e o vice-presidente pediu uma nova eleição para 21 de fevereiro, mas as forças de combate na luta permanecem entrincheiradas. Ao mesmo tempo, ex-rebeldes da Líbia formaram um governo, mas enfrentam o desafio de conciliar regiões que funcionam como cidades-Estados e têm suas próprias milícias. Um relatório ansiosamente aguardado sobre a repressão aos protestos em um Bahrein predominantemente xiita foi finalmente divulgado . E a Síria se viu diante de seu maior isolamento até o momento por causa da repressão à revolta, com relatos de que pode estar perdendo o controle do interior do país e com a Liga Árabe se reunindo no sábado para discutir sanções , um ato que antes teria sido visto como impensável.

No Egito, a primeira rodada de votação para um novo parlamento começou nesta segunda-feira. Mas a disputa entre manifestantes e as forças armadas que eles veem como parte do antigo regime do presidente Hosni Mubarak tem ofuscado o processo.

"O conselho militar é corrupto e não muito diferente de Mubarak", disse Mohamed Sharawy, um motorista de 45 anos de idade, em um comício ferozmente nacionalista realizado na sexta-feira para apoiar os governantes militares do país. "Mas eles são tudo o que temos agora."

A autoridade de Mubarak terminou em fevereiro. Em seu lugar, foi implementado um regime militar, liderado por um conselho de 20 generais, acusados de atrasar as eleições presidenciais, monopolizar o poder e tolerar e até mesmo perpetuar a tortura e os abusos do antigo governo. Retoricamente, o regime militar tem implantado as mesmas ferramentas de seu antecessor, alimentando sentimentos xenófobos e apelando para o velho mantra da segurança e estabilidade.

Embora alguns na Tunísia, especialmente os islamitas, temam um Estado sombra, em nenhum lugar ele é tão pronunciado como no Egito, onde os militares têm colocado suas apostas sobre o que acreditam ser uma maioria silenciosa cansada da incerteza prolongada sobre a situação de país.

"A palavra 'estabilidade' é uma palavra justa, mas usada para fins ilícitos", escreveu um colunista no jornal egípcio Al Yawm al Saba na sexta-feira. "Essa estabilidade não foi alcançada nos últimos meses. Por que ela seria alcançada nos próximos meses?"

Na Praça Tahrir, a mais memorável das arenas das revoltas árabes, Sharif Ibrahim, um professor do ensino médio, observou a chegada de uma nova multidão com a promessa de revolução. Do outro lado havia destroços dos dias de batalha entre a polícia e os manifestantes, um vislumbre do fracasso dessas promessas. "Há um ponto de interrogação sobre todas as nossas cabeças", disse Ibrahim.

O medo ainda é o cálculo em muitas das transições. Um relatório do International Crisis Group alertou na semana passada que a crise na Síria, sem dúvida, "entrou na sua fase mais perigosa". O governo tem incansavelmente usado o medo de uma solução sangrenta para justificar seu domínio, mesmo que suas próprias políticas tenham começado a degradar as instituições do Estado, presidido uma crise econômica e perigosamente exacerbado as tensões sectárias.

Em uma desconexão surpreendente, Al Dounya, um canal de televisão semioficial do país, deu início a um telejornal do meio-dia na semana passada dizendo: "Que sua manhã seja tão brilhante como os jasmins em Damasco."

"O medo é evidente na cidade e você o vê nos olhos das pessoas", disse Makarem, 30, um empresário que informou apenas seu primeiro nome. "Mais pessoas estão se voltando contra o regime a cada dia, mas mesmo elas têm medo do que vai acontecer a seguir."

Na Líbia, a promessa da revolução foi executada com esforços instáveis - por clãs, cidades e várias forças militares que formaram uma coalizão para derrubar Muamar Kadafi - para a criação de um governo interino. O novo premiê nomeou líderes de milícias em Zintan e Misrata, duas cidades que se revelaram cruciais na derrubada de Kadafi, como ministros da Defesa e do Interior em uma medida que parecia destinada tanto a refrear sua obstinação quanto a equilibrar o poder que cada uma representa.

Combatentes de Zintan se recusaram a se retirar da capital e homens jovens portando armas de fogo continuam a ser um desafio. "Estou esperançoso, mas um pouco em pânico sobre todos os desafios que temos", disse Idris Al Fasi, um conselheiro sênior da companhia estatal de eletricidade.

No Iêmen, um país há muito visto como o mais provável a implodir, Saleh assinou um acordo para deixar o poder após 33 anos no cargo. Mas as manifestações não pararam, com os manifestantes protestando contra o acordo lhe concede imunidade. A oposição defendeu o documento, dizendo que ele seria a única maneira de evitar uma guerra civil.

Na Praça de Mudança de Sanaa, capital do Iêmen, uma base da revolta local, os manifestantes disseram ter aprendido uma lição com o Egito: a saída do governante não significa que a revolução está completa.

"Hosni Mubarak partiu e eles voltaram para suas casas antes de seus objetivos terem sido alcançados ", disse Ali Mohammed al-Hadda, um funcionário público sentado em uma das centenas de barracas que pareciam permanentes.

A celebração universal das revoltas no Egito e na Tunísia deram lugar a um quadro mais complicado. Estados do Golfo e o canal Al-Jazeera, do Catar, apoiaram levantes predominantemente sunitas em lugares como a Síria. Enquanto isso, o Irã e seu aliado no Líbano, o Hezbollah, ambos muçulmanos xiitas, ofereceram apoio para o movimento de oposição liderado pelos xiitas no Bahrein, um importante aliado dos Estados Unidos.

Autoridades americanas esperavam que o recente relatório, amplamente crítico da repressão realizada no Bahrein, pudesse oferecer um caminho para a reconciliação, mas o país parece tão polarizado e a monarquia sunita tão resistente a reformas políticas significativas que a instabilidade deve continuar.

Em uma nova rusga, a Arábia Saudita, que interveio em abril nos protestos do Bahrein, teve suas próprias manifestações na semana passada entre sua minoria rebeldes xiita, na rica região oriental de Qatif. Quatro xiitas foram mortos na violência pela qual o governo - ecoando as acusações de líderes do Egito - culparam pessoas que agiam por "ordens estrangeiras".

Os eleitores foram às urnas no Marrocos na sexta-feira nas primeiras eleições parlamentares desde a aprovação de uma nova Constituição em junho. Um grupo islâmico moderado, o Partido Justiça e Desenvolvimento, ganhou a maioria dos assentos, mas líderes do protesto haviam pedido um boicote, dizendo que a nova Constituição só reforça a autoridade máxima do rei.

E o medo, tão familiar, foi declarado novamente.

"Não precisamos de caos, como no Egito ou o Iêmen", disse Ahmad Mzrouk, proprietário de um pequeno restaurante em Casablanca. Ele protestou contra os líderes das manifestações. "O que eles estão fazendo para tornar o país melhor?", perguntou ele. "Parem de gritar, isso é ruim para a economia."

Por Anthony Shadid

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