Mortos em protestos no Cairo são tratados como mártires

Manifestantes prestam homenagens a egípcios que morreram em combates com a polícia e grupos pró-Mubarak

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Com diferentes trajetórias e de distintas classes sociais, os manifestantes mortos durante os protestos contra o presidente do Egito, Hosni Mubarak, passaram a ser tratados como ídolos por aqueles que defendem a queda do governo.

Neste domingo, bandeiras do Egito cobriam dois adolescentes deitados lado a lado no chão da Praça Tahrir, no centro do Cairo. Ao seu redor, um retângulo de pedras usadas na batalha para manter o domínio do local delimitava o espaço de homenagem aos mortos nos protestos. Descalços e de olhos fechados, os jovens homenageavam "os mártires da Revolução", segundo os manifestantes.

“Eles vieram aqui para protestar pacificamente e saíram sem alma, sem vida, mortos. Eles são nossos mártires, morreram pela libertação do Egito”, disse o PhD em química Wahba Said, 40 anos.

Um cartaz dizia: “Pessoas perderam suas vidas por você e pelo Egito”. Por toda parte, manifestantes exibiam páginas de jornal e cartazes com as fotos dos jovens que morreram em ataques da polícia nacional e nos combates com grupos que apoiam o governo.

“Eles são mártires, não do tipo que explode bombas em atentados suicidas, mas no sentido de que morreram por uma causa: o Egito livre”, afirmou o urbanista Amr Fayez, 36, que trabalha na Embaixada da França no Cairo.

Na entrada de uma mesquita próxima, uma página de jornal com fotos de manifestantes mortos está colada à parede. Durante todo o domingo, um pequeno grupo de pessoas se reuniu no local para ler breves biografias de suas vidas.

A Organização das Nações Unidas estima que os protestos no Egito tenham causado 300 mortes desde 25 de janeiro.

Protestos continuam

A reabertura dos bancos, comércio e de empresas, a redução dos bloqueios e o retorno da polícia para as ruas do Cairo não resultaram em diminuição do número de pessoas na praça Tahrir. A medida do governo pretendia fazer as pessoas voltarem à rotina e esvaziar o movimento que pede a renúncia de Mubarak.

Os manifestantes são unânimes em afirmar que não deixarão a praça até Mubarak sair do poder. “Eles [o governo] querem fazer parecer que está tudo normal. ‘Gritem o quanto queiram, mas está tudo bem’, dizem. Mas estamos determinados a ficar”, disse uma desenhista gráfica de 28 anos que, por temor de represálias, identificou-se apenas como Dalia. “Só vamos embora quando ele deixar o poder”, dizia um cartaz, em inglês.

Com o casaco e o colarinho da camisa imundos por causa dos sete dias sem deixar o local, Mohamed Kotba, 33, disse que o presidente “não tem escolha”. “Nós podemos ficar aqui um mês, dois meses, até ele sair”, afirmou.

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