Mobilização anti-Mubarak revoluciona costumes e relações no Egito

Mulheres param de ser assediadas, ressentimentos alimentados pelo governo são postos de lado e egípcios recuperam orgulho nacional

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Vestindo luvas cirúrgicas sujas de chorume, Farida Abboud, 20, segura um saco plástico azul no qual recolhe lixo desde cedo na praça Tahrir (da Libertação) do Cairo, centro simbólico das manifestações que exigem a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak, há 30 anos no poder. Um dia depois de frustrar as expectativas ao descartar deixar o poder, Mubarak partiu da capital egípcia para Sharm el-Sheik com sua família nesta sexta-feira.

Raphael Gomide
A muçulmana egípcia Farida Abboud é elogiada por ajudar na limpeza da praça Tahrir, centro dos protestos contra o presidente Hosni Mubarak, no Cairo
No início da terça-feira 8 de fevereiro, ela e mais cinco jovens faziam o trabalho; à tarde, eram 35. Desde 25 de janeiro, primeiro dia dos protestos, Farida, muçulmana que não usa véu e estuda na Universidade Americana do Cairo, anda pelas ruas do Cairo sem ouvir gracejos machistas, antes uma repetitiva rotina diária. Também pode fumar um cigarro na rua e vestir-se como quiser, sem ser recriminada. Ao contrário, a todo momento, alguém se aproxima e lhe faz um agradecimento respeitoso por ajudar na limpeza.

Embora ainda sem um desfecho político definido, o movimento contra o regime autoritário do país operou uma silenciosa revolução nos costumes e nas relações entre as classes sociais na sociedade egípcia, ainda invisível aos olhos de muitos estrangeiros.

Numa sociedade claramente estratificada – ou mesmo “segregada”, na visão de muitos ouvidos pelo iG –, as manifestações uniram o povo egípcio em um novo projeto de país.

Na opinião de dezenas de entrevistados pela reportagem, as enormes disparidades socioeconômicas, o discurso desagregador do regime e a falta de liberdade levaram a população à apatia, frustração, raiva e incentivavam o ressentimento entre os diferentes grupos sociais e religiosos. Era um habilidoso método de dividir para imperar.

A “revolução”, como a chamam os seus integrantes, trouxe de volta a autoestima, o orgulho nacional – milhares portam bandeiras do Egito – e o sentimento de que o país lhes pertence.

“É a primeira vez que me sinto pisando em meu solo. Renasci, sou dona das ruas, que eram de Mubarak. A única coisa boa que Mubarak fez foi unir todos contra ele. Sinto-me como se tivesse 18 anos”, disse ao iG Nema Khalija, que vive de US$ 45 de pensão.

Para a cientista política Salma, que omitiu o sobrenome por trabalhar no gabinete de um ministro, o movimento teve um impacto social muito positivo na interação das pessoas e na liberdade das mulheres egípcias.

“É impressionante, as mulheres eram praticamente tratadas como propriedade pública. Mas aqui não há nenhum assédio, nada de assovios ou cantadas grosseiras, nada. Faça o que quiser, vista o que quiser, as pessoas não vão te olhar torto. Os mais velhos nos dizem: ‘Vocês nos trouxeram esperança.’ Antes, as pessoas odiavam o país e assim, não cuidavam. Estavam frustradas, ressentidas, não eram elas mesmas. Agora todos dividem água, alimentos... Nunca vi isso, todos se preocupam em ser gentis, e há diálogo entre as classes. Há um senso de responsabilidade social, e estamos orgulhosos disso. Socialmente, é uma enorme conquista, é grandioso”, afirmou Salma, que antes andava com spray de pimenta na bolsa.

A antropóloga Noha Roushdy, 27, concorda. “Mulheres nunca fumariam aqui antes. Não há nenhum assédio, as pessoas pedem desculpas dez vezes se esbarram em você.”

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A antropóloga egípcia Noha Roushdy (à dir.) diz que relações sociais melhoraram desde mobilização popular pela queda de Hosni Mubarak
Para a estudante Farida El-Gueretly, 20, os egípcios eram “muito egoístas, voltados para si”. “Ninguém fazia nada pelo outro, não havia conexão. A sociedade era tão dividida, e agora existe uma integração como nunca houve antes. As pessoas se sentam juntas, e antes ninguém ouvia ninguém. Não sei o que está acontecendo, mas isso é muito bom”, disse.

Para a maioria dos cidadãos, há apenas três semanas era impossível imaginar que tudo isso pudesse acontecer. Os protestos raramente reuniam mais de 300 e eram controlados por policiais em quantidades ao menos dez vezes superiores. A marcha que começou com jovens de classe média em um bairro rico do Cairo, porém, espalhou-se e agora junta milhões.

“Roubaram nossos sonhos e nos deram raiva, frustração. Como fomos tão idiotas de parar a vida, de viver assim (sem liberdade)? Espero isso desde meus 20 anos. Jovens, vocês nos orgulham tanto! Esta é uma verdadeira revolução. Se morrer aqui, morrerei com dignidade. O amor está aqui. Estava morando na África do Sul e não pude acreditar no que vi na TV. Chorei. Somos uma nação de engenheiros, médicos, pessoas com PhD, mas não havia futuro, não havia nação, os pobres achavam que os ricos lhes tiram o dinheiro”, afirmou Wahba Said, 40.

Uma canção entoada na Tahrir ilustra as diferenças religiosas tradicionalmente existentes que se procuram dissipar no discurso de um “novo Egito”, unido pela nacionalidade: “Olhe aí os egipcios! Não são os muçulmanos, não são os cristãos, são os egípcios!”

Todos os dias na praça, é possível observar conversas entre religiosos, como os da Irmandade Muçulmana, e muçulmanos, seculares ou até cristãos. “Eles vão mudar, e nós também mudaremos”, disse o arquiteto Tamer Elp-Shayal.

“Quem atacou as igrejas (no início do ano, houve uma onda de ataques a igrejas no Egito, e ele insinua que foi o governo)? Desde o começo das manifestações não há ataques, e as igrejas são protegidas por muçulmanos”, disse o farmacêutico Hamdy Tawfik, 45.

Para o professor Khaled Mahmoud, o tempo está a favor dos revolucionários. “Teremos um novo Egito. Estamos nos redescobrindo e pensando: Por que não fizemos isso antes? Desconhecíamos o nosso poder. Teríamos poupado tanto tempo...”

Na maioria dos dias de protestos, é possível ver idosos, crianças e até bebês, levados pelos pais. A professora Abwayda Al Demerdash acompanhava a filha e a nora na tarde da sexta-feira 4 de fevereiro, dia seguinte ao fim da batalha entre partidários e opositores de Mubarak na Tahrir.

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Na maioria dos dias dos protestos no Egito, é possível ver idosos, crianças e até bebês, levados pelos pais
Ela admitiu ter medo, mas considera que valia a pena o risco. “Este é o meu país e precisamos pagar o preço pelos nossos filhos, devemos isso a eles. Meu filho de 21 anos veio aqui todos os dias e jogou pedras. Eu apoio. A vitória não se conquista facilmente”, disse.

Na opinião de Haysam Nour, 30, que faz o PhD na Itália e chegou ao Cairo três dias antes do início dos protestos, “esta é uma revolução de todos os egípcios”. “É a nossa batalha e estou pronto para trazer toda a minha família aqui, meus filhos pequenos”, afirmou.

Para a estudante de Ciência de Computação Habiba Mahmoud, 19, o movimento abriu todas as possibilidades para a afirmação de uma nova geração de egípcios. “É a minha revolução, agora sabemos que podemos fazer qualquer coisa. Estamos exigindo os nossos direitos. Estamos nos explorando. Não temos medo de nada”, disse Habiba.

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