Ministro e diplomatas renunciam na Líbia

Autoridades deixam governo em protesto contra o uso excessivo de força contra opositores do presidente durante manifestações

iG São Paulo |

O ministro da Justiça da Líbia, Mustafá Abdel Yalil, renunciou ao cargo nesta segunda-feira em protesto contra o uso excessivo de força contra os opositores do presidente Muamar Kadafi. Vários diplomatas líbios no exterior também renunciaram, insatisfeitos com a maneira como o governo reagiu à onda de manifestações que começou na quarta-feira.

O embaixador líbio na Índia, Ali al-Issawi, dafirmou que mercenários estrangeiros foram mobilizados para atuar contra cidadãos líbios. O embaixador da Líbia junto à Liga Árabe, Abdel Moneim al-Honi, disse a jornalistas, no Cairo, que está se unindo à revolta popular, enquanto o embaixador líbio na China também renunciou.

Nesta segunda-feira, o governo britânico chamou o embaixador líbio em Londres para uma reunião com o objetivo de expressar "a absoluta condenação" do uso de força contra manifestantes.

Além de perder integrantes do governo, Kadafi também viu a pressão por sua renúncia aumentar durante a madrugada desta segunda-feira, quando os protestos chegaram às ruas de Trípoli, capital do país. Desde a semana passada, opositores realizam manifestações na segunda maior cidade do país, Benghazi, inspirados nos movimentos que levaram à queda de regimes autoritários no Egito e na Tunísia.

Os protestos em Trípoli começaram na noite de domingo. Segundo testemunhas, opositores tomaram a Praça Verde, no centro da cidade, e entraram em choque com forças de segurança e partidários de Kadafi. Manifestantes antigoverno também teriam tomado os prédios de duas emissoras estatais do pais.

Na manhã desta segunda-feira, era possível ver fumaça em pelo menos dois locais de Trípoli, onde estão localizadas uma delegacia de polícia e uma base das forças de segurança. Escolas, prédios do governo e lojas estão fechadas.

Os opositores tomaram o controle de Benghazi, tendo inclusive invadido bases das forças de segurança e roubado armas. Para celebrar sua vitória, manifesfantes fizeram um buzinaço e marcharam gritando palavras de ordem como "longa vida à Líbia". No principal tribunal da cidade, a atual bandeira do país foi substituída pela antiga, da época da monarquia, encerrada em 1969 com o golpe militar que levou Kadafi ao poder.

'Moderação'

O ministro do Exterior britânico, William Hague, também disse ter ligado para o filho do coronel Kadafi no domingo para demonstrar forte insatisfação com o rumo dos acontecimentos no país."A Grã-Bretanha está pedindo hoje o fim da violência e que o regime se comporte com humanidade e moderação."

Hague disse que a Líbia deve permitir a entrada de observadores internacionais no país para conduzir investigações sobre o uso de violência e pediu a abertura da internet no país, o fim da repressão a jornalistas e a proteção de cidadãos estrangeiros.

Um porta-voz do governo francês, François Baroin, disse a rádios francesas que a comunidade internacional precisa trabalhar para impedir que a situação na Líbia se torne ainda mais caótica.

"Estamos muito preocupados e chocados. Condenamos fortemente tudo o que está acontecendo, essa violência inacreditável. Isso pode levar a uma guerra civil extremamente violenta e longa", disse Baroin.

"Precisamos fazer o possível em nível diplomático e coordenar esforços com as posições dos Estados Unidos e da União Europeia para impedir uma crise", afirmou.

Discurso e mortes

Enquanto os confrontos na Praça Verde aconteciam, o filho de Kadafi, Saif el-Islam Kadafi, afirmou que seu pai e as forças de segurança combaterial a revolta popular "até o último tiro".

Na tentativa de acalmar a população, o filho do líder líbio concedeu uma entrevista à TV estatal dizendo que o país está à beirra da guerra civil por causa de um "complô estrangeiro". Ele também prometeu reformas constitucionais para frear os protestos.

De acordo com a organização americana Human Rights Watch, os protestos na Líbia deixaram pelo menos 233 mortos desde 17 de fevereiro. Entre as vítimas, 60 morreram no domingo em Bengazhi.

Mundo árabe

Manifestações pró-democracia vêm se espalhando por diversos países árabes e muçulmanos. Eles tiveram início na Tunísia em dezembro passado e provocaram a deposição do então presidente do país, Zine al-Abidine Ben Ali, no final de janeiro. Em fevereiro, uma série de manifestações provocou a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak.

Nos últimos dias, também ocorreram protestos em países como Bahrein, Argélia, Iêmen, Marrocos e Jordânia.

Com BBC, AP e Reuters

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