Ministro do Interior líbio anuncia deserção, diz TV Al Jazeera

Canal árabe exibe imagens de vídeo amador em que Abidi exorta Exército a se juntar ao povo e suas 'demandas legítimas'

iG São Paulo |

Reuters
Em Tobruk, opositores seguram placa que diz: "A Líbia será livre e Kadafi estará fora"
O ministro do Interior líbio, Abdel Fattah Younes al Abidi, anunciou sua deserção e o apoio à "Revolução 17 de fevereiro", informou a TV Al-Jazeera na terça-feira. O canal exibiu imagens de um vídeo amador que mostrou Abidi em seu gabinete lendo um comunicado, que também exortou o Exército líbio a se juntar ao povo e às suas "demandas legítimas".

A renúncia aconteceu em meio ao sexto dia de confrontos entre manifestantes e forças de segurança durante protestos pela renúncia do líder Muamar Kadafi, há 42 anos no poder. Em tom de desafio, Kadafi afirmou em um pronunciamento nesta terça-feira que não deixará o cargo, conclamando seus partidários a irem às ruas para pôr fim aos protestos .

Depois do discurso, segundo a rede Al-Jazeera, houve uma intensa troca de tiros no centro da capital, Trípoli. O canal acrescentou que os enfrentamentos e os disparos ocorreram no bairro de Bin Ashur e na avenida al-Jumhuriya, no centro da capital.

Em Benghazi, segunda maior cidade do país localizada a mil quilômetros a leste de Trípoli e foco da insurreição, o discurso de Kadafi na rede de televisão estatal causou revolta entre os manifestantes. Segundo testemunhos à "Al Jazeera", além de gritarem, os opositores lançaram sapatos contra a imagem do líder, um gesto de desprezo no mundo árabe.

De acordo com os primeiros dados oficiais apresentados pelo regime de Kadafi desde o início dos protestos, a violência no país deixou 300 mortos , incluindo 58 militares. Cerca de metade das mortes ocorreu em Benghazi.

Apesar das violentas manifestações, Kadafi afirmou em seu discurso desta terça que está "disposto a morrer na Líbia" e a combater "os ratos que promovem os distúrbios" até a "última gota" de seu sangue.

Renúncias de diplomatas 

O embaixador da Líbia nos Estados Unidos, Ali Aujali, renunciou ao cargo nesta terça-feira , em protesto contra a violenta resposta do governo de Kadafi às manifestações. Os embaixadores líbios na Indonésia, Índia, China, Austrália e diplomatas do país na Liga Árabe e na ONU também deixaram o governo.

A Embaixada da Líbia no Brasil funciona normalmente, sem alterações de rotina nem orientações. Em Brasília há quase quatro anos, o embaixador líbio, Salem Ezubedi, manteve inalteradas suas atividades sinalizando fidelidade ao governo.

Nos Estados Unidos, porém, o diplomata líbio fez duras críticas ao regime de Kadafi. "Como posso apoiar um goveno que mata nosso povo?", questionou Aujali, em entrevista à agência Associated Press. "O que vejo diante de meus olhos é inaceitável."

Aujali trabalhou para o governo da Líbia nos últimos 40 anos e era embaixador do país nos EUA desde 2009. Ele fez um apelo para que Kadafi, no cargo desde 1969, deixe o poder. "Não há outra solução. Ele deve renunciar e dar ao povo a oportunidade de decidir seu futuro", afirmou.

O embaixador líbio na Indonésia, Salaheddin M. El Bishari, também anunciou sua renúncia nesta terça-feira. "Os soldados estão matando civis desarmados sem perdão. Estão usando armamento pesado, jatos e mercenários contra a própria população", afirmou, em entrevista ao jornal "Jakarta Post". "Cansei, não vou mais tolerar isso."

Na Malásia, os diplomatas não renunciaram a seus cargos, mas manifestaram apoio aos protestos. "Condenamos fortemente esse massacre criminoso e bárbaro de civis inocentes", afirmou a embaixada líbia, em comunicado.

Os embaixadores líbios na Austrália, Índia e China já haviam anunciado sua renúncia, assim como o embaixador da Líbia junto à Liga Árabe, Abdel Moneim al-Honi, e o ministro da Justiça Mustafá Abdel Yalil.

A delegação da Líbia na ONU anunciou a ruptura com o regime e fez um apelo pela renúncia de Kadafi, sem deixar claro se o embaixador líbio na organização, Abdurrahman Shalgham, concordou com a decisão. Shalgham não é visto desde sexta-feira.

*Com Reuters, AP, AFP, EFE, Agência Brasil e BBC

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