Militares egípcios querem entregar o poder dentro de 6 meses

Conselho Supremo também dá prazo de dez dias para comitê concluir reforma constitucional; Irmandade Muçulmana quer criar partido

iG São Paulo |

O conselho militar que está governando o Egito anunciou nesta terça-feira que pretende transferir o poder para os civis, incluindo um presidente eleito, dentro de seis meses.

"O Supremo Conselho Militar expressou a esperança de entregar o poder dentro de seis meses para uma autoridade civil e um presidente eleito, de um modo livre e pacífico que expresse a visão do povo", disse a agência estatal de notícias Mena. "O Conselho afirma que não busca o poder, que a situação atual foi imposta às Forças Armadas e elas têm a confiança do povo", acrescentou a nota.

Além disso, o conselho deu prazo de dez dias para que o comitê de reformas constitucionais instalado nesta terça-feira conclua seus trabalhos, informaram fontes oficiais. O prazo figura em um decreto da junta militar divulgado pela "Mena" em que também se informa a nomeação do ex-vice-presidente do Conselho do Estado Tareq al Bishri como presidente do comitê de reforma constitucional.

AFP
Egípcios celebram em praia de Alexandria, no norte do Egito, o sucesso da revolta popular que forçou a renúncia do ex-presidente egípcio Hosni Mubarak
No domingo, o Conselho suspendeu a Constituição e dissolveu o Parlamento, prometendo eleições democráticas nos próximos meses. O Exército nomeou uma comissão de juristas para revisar a Constituição. "Vamos revisar a Constituição para retirar todas as restrições e obstáculos e para responder às aspirações da revolução e do povo", declarou um dos membros da comissão, Sobhi Saleh, advogado e ex-deputado da Irmandade Muçulmana.

A comissão está encarregada de alterar cinco artigos, incluindo aqueles que tratam das condições muito restritivas de candidatura às eleições presidenciais e o modo de supervisão da votação.

Na segunda-feira, jovens ativistas envolvidos nos 18 dias de protestos que derrubaram Hosni Mubarak disseram que o conselho militar espera que as emendas à Constituição sejam levadas a referendo dentro de dois meses , abrindo caminho para a convocação de eleições.

Preocupado com a crise econômica que o Egito enfrenta, o Exército advertiu também que novas greves serão desastrosas para o país. "O conselho está consciente das condições sociais e econômicas que a sociedade enfrenta, mas esses problemas não podem ser resolvidos até que as greves e os protestos acabem", afirmaram os militares, segundo a MENA.

No auge da revolta, a economia egípcia perdia ao menos US$ 310 milhões por dia, segundo uma nota divulgada recentemente pelo Crédit Agricole, que reviu para baixo as previsões de crescimento do Egito para 2011 de 5,3% para 3,7%.

Os movimentos sociais foram suspensos nesta terça-feira no Egito por causa do feriado que marca o aniversário de nascimento do profeta Maomé. Apesar disso, muitos manifestantes ameaçavam retomar as greves em vários setores-chave.

Greves trabalhistas e manifestações paralisaram nos últimos dias os setores de transporte, bancário, petroleiro, têxtil e até alguns meios de comunicação oficiais e algumas entidades governamentais. Os grevistas reivindicam aumento de salários e melhores condições de trabalho. A Bolsa do Cairo, fechada desde 27 de janeiro, anunciou nesta terça-feira que continuaria sem atividades "até que o trabalho retomasse no setor bancário".

Partido da Irmandade Muçulmana

O grupo islâmico de oposição egípcio, a Irmandade Muçulmana , anunciou que criará um partido político assim que sejam removidas as restrições impostas pelo ex-presidente Hosni Mubarak para o registro de organizações políticas.

Em um comunicado, a Irmandade disse que muitos anos atrás havia declarado seu desejo de criar um partido, mas não pôde fazê-lo por causa da legislação específica do país - uma das muitas que restringiram a atividade política durante o governo Mubarak.

"Quando a demanda popular de liberdade para a formação de partidos for atendida, o grupo fundará um partido político", diz o comunicado colocado no website do grupo com data de 14 de fevereiro.

A Irmandade foi fundada nos anos 1920 e tem profundas raízes na sociedade muçulmana conservadora do Egito. Embora Mubarak tenha mantido a proibição formal às atividades do grupo, seu governo o tolerava desde que não desafiasse seu poder.

No sábado, a Irmandade afirmou que não disputará a presidência nem buscará obter maioria parlamentar nas eleições prometidas pelo novo governo militar do Egito.

Elbaradei

Em declarações ao britânico Financial Times, Mohamed ElBaradei, vencedor do Nobel da Paz em 2005 e ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, disse que os responsáveis pela transição no Egito após a renúncia de Mubarak deveriam formar um conselho presidencial que incluísse civis e militares junto a um governo de união nacional.

"O Exército não deve se apressar em convocar eleições, que são apenas um elemento da formação de um Estado democrático", avaliou ElBaradei. "Quero ver uma transição de um ano: é preciso abolir a lei marcial, instituir a liberdade de imprensa. (E, além disso), como vai se apresentar ao povo eleições sem partidos?", indagou.

ElBaradei também avaliou que o marechal Mohamed Hussein Tantaui, que encabeça o governo de transição, deveria explicar seus planos pela televisão em vez de fazer com que um porta-voz "leia seus austeros boletins militares".

O diplomata egípcio não duvida das "boas intenções" do conselho supremo das Forças Armadas, mas indica que os militares fazem parte do regime do ex-presidente e passar por uma "mudança de mentalidade".

ElBaradei disse que os generais não entraram em contato com ele e assegurou que não está interessado em apresentar sua candidatura à presidência egípcia, mas que gostaria de assessorar os militares.

O Nobel da Paz reconheceu que, após a euforia pela renúncia de Mubarak, o caminho é complicado. "O povo é livre e não sabe o que fazer com essa liberdade. Impera a confusão. A oposição (legal) não está organizada, está fragmentada e não tem seguidores".

Congelamento de bens

A França pediu nesta terça-feira aos operadores financeiros que indiquem qualquer movimento suspeito em torno dos bens egípcios depois da queda de Mubarak, segundo um comunicado da Tracfin, a célula antilavagem do Ministério das Finanças francês.

Essa medida afeta altos funcionários e responsáveis políticos egípcios, incluindo o ex-presidente egípcio, segundo fontes próximas ao caso. Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha e França informaram na segunda-feira que o novo governo do Egito pediu o congelamento dos ativos de ex-funcionários egípcios .

*Com Reuters, EFE e AFP

    Leia tudo sobre: egitoelbaradeiirmandade muçulmanahosni mubarak

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG