Militares egípcios falam em transferir poder para civis

Conselho militar do país prometeu respeitar tratados internacionais e diz preparar caminho para 'autoridade civil eleita'

iG São Paulo |

O Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito, que assumiu o poder depois da renúncia do presidente Hosni Mubarak, afirmou neste sábado que respeitará todos os tratados internacionais firmados anteriormente pelo país. O anúncio foi lido por um porta-voz do militares na TV estatal egípcia.

O comunicado, embora não faça referências explícitas a nenhum acordo, dá margem para o entendimento de que o tratado de paz entre Egito e Israel ficará intacto. "A República Árabe do Egito está comprometida com todas as suas obrigações e tratados regionais e internacionais", afirmou o porta-voz.

Os militares afirmaram o compromisso com uma "transição pacífica do poder", que "prepare o caminho para que uma autoridade civil eleita construa um Estado democrático". O governo egípcio permanecerá no poder provisoriamente para administrar os assuntos correntes até a formação de um novo governo, segundo os militares.

O toque de recolher também foi reduzido no país. A medida em vigor no Egito começará quatro horas mais tarde, à meia-noite local (20h de Brasília), e não mais às 20h local (16h de Brasília). O toque continuará a expirar às 6h local (2h de Brasília).

Volta à rotina

No dia seguinte à renúncia do presidente Hosni Mubarak, a vida na capital egípcia, Cairo, começa a voltar ao normal, enquanto o futuro político do país começa a ser discutido, depois de quase 20 dias de protestos e violência.

Na praça Tahrir, ponto principal de concentração dos protestos iniciados em 25 de janeiro, centenas de pessoas continuavam acampadas neste sábado. Milhares de manifestantes passaram a noite no local, comemorando a saída do presidente.

O Exército egípcio começou neste sábado a retirar as barricadas dos acessos à praça, removendo carros queimados que serviam de barreiras. As Forças Armadas mantêm tanques e veículos blindados nas ruas, principalmente em frente aos prédios do governo e de outras instalações importantes.

O clima ainda é de comemoração por parte dos cidadãos. Muitas bandeiras do Egito pode ser vistas nas janelas dos prédios e penduradas em árvores. O comércio voltou a abrir normalmente e o policiamento foi retomado, com a circulação de viaturas nas ruas do Cairo.

As emissoras de TV locais já realizam debates discutindo o futuro político do Egito, assim como as reformas que o Conselho das Forças Armadas - que assumiu o controle do país após a saída de Mubarak - pode realizar.

Diversos grupos já propõem mudanças na Constituição, nos artigos referentes ao processo político e às liberdades civis. A forma de governo do país - com a definição entre presidencialismo e parlamentarismo - também deve entrar em discussão.

Futuro de Mubarak

Mubarak continua com sua família em seu palácio no resort de Sharm el-Sheikh, no Mar Vermelho, sob forte esquema de segurança montado pelo Exército. Ainda não se sabe se o ex-presidente permanecerá no Egito. Também é incerto o futuro do vice-presidente, Omar Suleiman, e de outros civis que mantiveram seus cargos do governo anterior.

Depois da renúncia de Mubarak, nessa sexta-feira, os poderes presidenciais ficaram com o Conselho das Forças Armadas, liderado pelo ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi. O Alto Conselho militar afirmou que está preparado para suprir as “demandas legítimas” do povo egípcio.

Por enquanto, não se sabe quais serão os próximos passos do novo governo. Os militares também disseram que encerrariam o estado de emergência que vigora no país há 30 anos. “Estamos cientes da magnitude da situação e da gravidade das demandas do povo em implementar mudanças radicais. O conselho está estudando esse tema com a ajuda de Deus em um esforço de alcançar as aspirações de nosso povo”, disse o porta-voz das Forças Armadas.

O porta-voz agradeceu a Mubarak “pelo que ele nos deu durante seu tempo, em guerra e paz, e por sua decisão de colocar os interesses do país em primeiro lugar”.

nullImprensa

A mudança no poder egípcio também se reflete na mídia do país. Diários que antes defendiam Mubarak agora saúdam a mobilização popular e a saída do presidente. A manchete deste sábado do jornal Al Ahram, o principal do país e anteriormente tido como pró-Mubarak, era: "O sangue dos mártires deram à luz um novo Egito". Na foto principal, aparece uma mulher emocionada, vestindo um "hijab" branco.

A mídia de outros países árabes, principalmente os jornais mais radicais, também saudaram a saída do presidente. O diário pan-árabe Al-Quds Al-Arabi, editado em Londres, dizia simplesmente: "Obrigado, povo egípcio".

O editor do jornal, Abdel Bari Atwan, foi além e saudou o "colapso do eixo de moderação" no Oriente Médio, além do "fim da dominância de Israel, que fez os regimes árabes se ajoelharem perante as suas autoridades".

Na Jordânia, a agência oficial de notícias afirma que o governo do país respeita a escolha feita pelo povo egípcio, afirmando que existe grande confiança de que as Forças Armadas garantirão a estabilidade do país.

Já a imprensa estatal do Iêmen, que também registrou protestos populares em favor de reformas democráticas, disse que o governo do presidente Ali Abdallah Saleh diz esperar que os militares egípcios consigam garantir tranquilidade no país.

Bens congelados

Apenas meia hora depois do anúncio da renúncia, a Suíça informou que vai instruir seus bancos a congelar eventuais bens de Mubarak e sua família . Medida semelhante havia sido tomada pelo governo suíço com relação aos bens do ex-presidente tunisiano Zine Al-Abidine Ben Ali e do marfinense Laurent Gbagbo, que tenta permanecer no poder na Costa do Marfim.

Não se sabe quanto dinheiro Mubarak tem no exterior, mas especula-se que a quantia transferida pelo ex-presidente para fora do Egito chegue a bilhões de dólares, e parte disso estaria guardada na Suíça. O porta-voz do Ministério do Relações Exterior do país, Lars Knuchel, disse que a ordem para bloquear qualquer conta bancária entra em vigor imediatamente, mas não deu nenhum detalhes sobre os bens da família.

Questionado no início desta semana pela TV nacional suíça SF se Mubarak ou parentes tinham dinheiro no país, a ministro das Finanças Widmer-Schlumpf respondeu: "Não temos qualquer indicação clara de que haja algo aqui, mas claro estamos no processo de esclarecer isso e agiremos de forma apropriada", disse.

* Com informações da BBC Brasil, AFP e EFE

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