Milícias da Líbia cometem crimes de guerra, denuncia Anistia Internacional

Segundo relatório, os grupos armados que derrubaram o regime de Kadafi torturam prisioneiros e deixam cidades inteiras no exílio

iG São Paulo |

As milícias armadas que agora controlam grande parte da Líbia estão torturando prisioneiros considerados leais ao regime deposto de Muamar Kadafi , e estão deixando bairros e cidades inteiras em condição de exílio, informou a Anistia Internacional.

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Reuters
Membros da força militar líbia do CNT agitam bandeiras nacionais em uma marcha em Trípoli, nas semanas de comemoração do primeiro aniversário da revolta

A Anistia Internacional cita detentos que disseram ter ficado "contorcidos e suspensos; apanhado por horas com chicotes, cabos, mangueiras plásticas, correntes de metal, barras e bastões de madeira e tomado choques elétricos com fios desencapados e armas de eletrochoque".

Ao menos 12 detidos foram mortos desde setembro após forte tortura, informou a Anistia em relatório divulgado na noite de quarta-feira intitulado "As milícias ameaçam as esperanças de uma nova Líbia". "Seus corpos estavam cobertos de queimaduras, feridas e cortes e alguns tiveram suas unhas arrancadas", informa o grupo.

O relatório representa um novo golpe para o novo governo líbio, o Conselho Nacional de Transição (CNT), que colaborou com a revolta anti-Kadafi que estourou no país no ano passado e se tornou uma violenta guerra civil que durou oito meses.

Desde o fim da guerra, com a captura e a morte de Kadafi em outubro , o CNT vem lutando para aumentar seu controle sobre o vasto território da Líbia. O CNT fracassou em centralizar seu poder sobre as centenas de frentes que lutaram na guerra, e muitas delas controlam seus próprios centros de detenção onde estão presos os acusados de ter ligação com o regime de Kadafi.

A Anistia afirmou que visitou 11 prisões no centro e oeste da Líbia em janeiro e fevereiro, e encontrou evidências de tortura e abusos. "Ninguém está controlando essas milícias", disse Donatella Rovera, conelheira sênior de respostas para crises na Anistia.

A autoridade máxima em direitos humanos da ONU e a Anistia Internacional pediram ao governo líbio para que controlasse as prisões para prevenir mais atrocidades contra os detidos. "Há tortura, execuções extrajudiciais, estupro de mulheres e homens", disse a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos Navi Pillay, em 27 de janeiro.

Cerca de 2,4 mil detentos permanecem em centros controlados pelo novo governo da Líbia, mas as milícias controlam outras centenas de prisioneiros, informou a Anistia. A maioria está dentro de Trípoli e Misrata e nos seus arredores.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha registrou que de março a dezembro de 2011 visitou cerca de 8,5 mil prisioneiros e cerca de 60 cadeias. A delegação da Anistia Internacional testemunhou prisioneiros apanhando e sendo ameaçados de morte em uma prisão no centro de Misrata.

Em um centro de detenção em Trípoli, eles encontraram vários detidos torturados cujos interrogadores tentaram esconder, reportou o grupo. A Anistia conversou com os detentos presos em Trípoli, Gharyan, Misrata, Sirte e Zawiya.

O grupo humanitário Médicos Sem Fronteiras suspendeu seu trabalho nas prisões em Misrata no final de janeiro, justificando que a tortura estava em núveis tão elevados, que alguns detidos eram trazidos para cuidados médicos, somente para que eles tivessem condições novamente de passar por mais interrogatórios e abusos.

Rovera acusou o governo nacional de Trópoli de "falta de vontade política. Eles não querem reconhecer o nível do problema. Está além, muito além de casos individuais. É uma atitude irresponsável", disse.

As milícias eram uma das chaves da revolta que tirou de cena o regime de Kadafi, que durou 42 anos , mas elas estão mantendo sua independência do Conselho Nacional de Transição.

Algumas das represálias das milícias se voltam contra os líbios negros e trabalhadores africanos, pois estes últimos foram trazidos por Kadafi para que trabalhassem em diversas áreas desde construção civil até a segurança e controle de protestos, levando a ataques contra os chamados "mercenários" a revolta.

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"Migrantes africanos e refugiados também estão sendo alvos e ataques de vingança têm tomado lugar", disse a Anistia. "Comunidades interias foram forçadas a se retirar e autoridades não têm feito nada para investigar os abusos e prender os responsáveis."

A Anistia disse que as milícias de Mistrata "tiraram a população inteira de Tawagha, cerca de 30 mil, saqueando e incendiandou suas casas, pois, segundo eles, alguns moradores cometeram crimes durante o conflito".

"Centenas de membros da tribo Mashashya foram forçados a sair de sua vila pelas milívias de Zintan, nas Montanhas Nafusa. Essas e outras comunidades têm sido deslocadas para acampamentos improvisados no país", disse a Anistia. A Anistia pede também por uma pressão ocidental contra o governo líbio e as milícias.

Com AP e EFE

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