Milhares se reúnem no centro do Cairo para 'Dia da Partida'

Após violentos confrontos, clima é de tranquilidade no 11º dia de manifestações pela renúncia do presidente Hosni Mubarak

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Reuters
Milhares de egípcios se reúnem na prala Tahrir, no centro do Cairo, para reivindicar a renúncia do presidente Hosni Mubarak
Com sinais de divisão na elite governista do Egito, mlhares de egípcios estão reunidos na praça Tahrir, no centro do Cairo, nesta sexta-feira batizada de "Dia da Partida", pressionando pela renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Em Alexandria, segunda maior cidade do país, milhares também participavam de manifestaçõe em frente da mesquita Qaed Ibrahim, no centro da cidade, aos gritos de "Abaixo Mubarak! Abaixo o regime!".

O clima, porém, é de tranquilidade, ao contrário dos dois últimos dias, em que confrontos entre manifestantes pró e contra Mubarak deixaram pelo menos oito mortos e mais de 800 feridos , de acordo com o Ministério da Saúde egípcio.

Depois dos violentos confrontos de quarta e quinta-feira, os efetivos do Exército foram reforçados nos arredores da praça do Cairo para o "Dia da Partida".

Usando capacetes com viseiras, semelhantes aos da polícia de choque, os militares formaram um cordão defensivo em volta da praça. Além de o número de soldados ser maior, eles também montaram mais postos de controle, onde realizam revistas pessoais antes de permitir a entrada dos manifestantes. Por isso, houve filas nos pontos de acesso ao local.

Apesar de na praça Tahrir não haver confrontos, testemunhas disseram à rede de TV CNN que manifestantes pró e contra Mubarak entraram em choque perto da praça Talaat Harb, localizada a 0,5 km da Tahrir. Ainda não há confirmação dos relatos.

Para se preparar para eventuais novos confrontos, alguns manifestantes na Tahrir usam capacetes de obras . Outros construíram barricadas com arames farpados e estocaram pedras.

Em geral, porém, os manifestantes anti-Mubarak parecem animados, otimistas e confiantes de que a expectativa para o "Dia da Partida" será confirmada e o líder deixará o poder nesta sexta-feira. Jovens, crianças, muçulmanos, mulheres com e sem véu, todos cantam ao mesmo tempo uma música que pede a renúncia do presidente. "Mubarak, vai embora, 'game over' (fim de jogo)", diz a canção. "Não há mais espaço para você no Egito e ninguém vai embora até você sair (do governo)", diz outro trecho.

Em entrevista ao iG , o manifestante Walid Sausi afirmou que Mubarak deve deixar o poder juntamente com os demais integrantes de seu partido. "Não adianta ele ir embora sozinho. Precisamos mudar o regime para a democracia", afirmou. "Que ele seja o último ditador do Egito. O povo precisa eleger seu presidente democraticamente."

nullA rede de TV estatal egípcia afirmou que o ministro egípcio da Defesa, general Mohamed Hussein Tantawi, visitou a praça nesta sexta-feira, acompanhado por outros chefes militares. A emissora, porém, não informou detalhes sobre a visita. Segundo o jornal americano The New York Times, Amr Moussa, secretário-geral da Liga Árabe e ex-ministro das Relações Exteriores do governo Mubarak, apareceu entre os manifestantes na Praça Tahrir.

Atendimento médico

Em uma rua próxima à praça, uma mesquita foi convertida em hospital onde voluntários atendem os manifestantes feridos. O médico Mohamed Rashad, com o jaleco cheio de sangue e visivelmente exausto no quarto dia de trabalho sem pausa, estima que o número de mortos seja maior do que o divulgado pelo governo. Rashad afirma ter visto 13 mortos na quarta-feira e cinco na quinta-feira, totalizando ao menos 18 mortos. Além disso, ele também viu entre 10 e 12 egípcios baleados, e disse acreditar que os tiros foram disparados por policiais.

Estados Unidos

Segundo o New York Times, nesta sexta-feira a Casa Branca discute com autoridades egípcias uma proposta para que Mubarak renuncie imediatamente e entregue o poder a um governo de transição liderado pelo vice-presidente Omar Suleiman. Mas o premiê Ahmed Shafiq disse nesta sexta-feira que é improvável que Mubarak transfira o cargo para o recém-nomeado vice-presidente do país. "Precisamos do presidente por razões legislativas", disse Shafiq, segundo a Al Arabiya.

Segundo o jornal, funcionários do governo americano e fontes diplomáticas árabes que não quiseram ser identificadas garantiram que Washington e Cairo mantêm conversas para um plano no qual Suleiman assumiria o controle do país.

De acordo com a proposta, Suleiman contaria com o respaldo do chefe das Forças Armadas, Sami Enan, e do ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi. O governo interino incluirira integrantes de diferentes grupos de oposição, incluindo a Irmandade Muçulmana, principal força opositora do Egito, até que eleições fossem convocadas em setembro.

Jornalistas

Após um dia de tensão, em que inúmeros jornalistas foram atacados e intimidados por multidões pró-Mubarak e por autoridades do Estado, quase toda a imprensa internacional deixou a área central dos protestos. Nesta quinta-feira, a rede Al-Jazeera disse que seus escritórios no Cairo foram invadidos e incendiados .

Cerca de 200 jornalistas saíram do hotel Ramsés Hilton, incluindo o repórter do iG , mudando-se para áreas mais afastadas da Praça Tahrir.

O repórter do iG deixou o hotel em um táxi, assim que acabou o toque de recolher, às 7h. A reportagem passou por três barreiras de militares do Exército, uma situada próxima da outra, em que o repórter e o motorista precisaram se identificar e dizer aonde iam.

Em seguida, a cerca de 500 metros, em um viaduto à beira do rio Nilo, nas cercanias da praça Tahrir, havia uma barreira formada por manifestantes antigovernistas. Cerca de 20 homens seguravam porretes e barras de ferro, mas conheciam o motorista e rapidamente liberaram a passagem pela ponte que leva ao bairro Zamalek, onde fica o novo hotel, Marriot.

Curiosamente, o Marriot, onde os jornalistas que cobrem os protestos pela saída de Mubarak agora estão hospedados, foi inaugurado com a presença do presidente egípcio, em 1982. Além de duas placas de bronze – uma escrita em árabe e outra em inglês – na entrada principal, há uma foto colorida do presidente, de cerca de 70 cm por 50 cm, na recepção do hotel.

Com BBC, Reuters e AFP

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