Mesmo bombardeados, rebeldes líbios repelem ofensiva de Kadafi

Ataque em cidade portuária foi a primeira tentativa de líder líbio de retomar leste do país; confrontos deixaram ao menos 6 mortos

iG São Paulo |

Forças leais a Muamar Kadafi bombardearam uma área no leste da Líbia nesta quarta-feira, em uma tentativa do líder líbio de recuperar o controle de uma região que está sob domínio da oposição.

Depois de uma batalha que durou o dia todo, forças rebeldes na estratégica cidade petrolífera de al-Brega teriam conseguido frustrar a ofensiva governista lançada com artilharia e aviões de guerra, segundo testemunhas. Os confrontos deixaram pelo menos seis mortos e 15 feridos, de acordo com os primeiros relatos de um hospital local.

O assalto na cidade portuária foi a primeira grande contraofensiva do regime no leste rebelde do país, onde a população com apoio de unidades desertoras do Exército se rebelaram e expulsaram o poder de Kadafi durante as duas últimas semanas. Na semana passada, as forças pró-Kadafi se concentraram no oeste, assegurando seu reduto na capital do país, Trípoli, e tentando retomar cidades rebeldes próximas com pouco sucesso.

De acordo com a TV CNN, um avião lançou duas bombas em uma área da cidade portuária, localizada no leste do país, que tem importantes instalações de petróleo e gás natural e está sob controle da oposição desde 24 de fevereiro. Posteriormente, uma terceira bomba foi lançada, informou a rede americana.

De acordo com a Associated Press, uma das bombas foi lançada em uma praia próxima de onde oponentes do regime e partidários do governo estavam em confronto no campus de uma universidade da cidade. Segundo testemunhas, os partidários do líder chegaram a controlar a refinaria de petróleo de Brega nesta quarta-feira, mas depois os rebeldes teriam retomado o controle de toda a cidade.

O ataque das forças de Kadafi pareceu ser um esforço mais amplo do governo de assegurar o controle sobre estratégicas instalações de petróleo na região oriental do país, que foi capturada pelos rebeldes durante as duas últimas semanas. A ofensiva levou os rebeldes a pedir ajuda militar estrangeira para "colocar o prego no caixão" de Kadafi, que está no poder desde 1969.

As forças militares entraram em Brega com tanques e artilharia pesada, ocupando um bairro residencial. Segundo testemunhas, houve combates intensos no local e também no porto da cidade. "Eles tentaram retomar o controle de Brega esta manhã, mas fracassaram. A cidade está novamente em mãos dos revolucionários", afirmou um dos opositores. "As forças de Kadafi chegaram a Brega e combateram, mas agora recuam", disse outra testemunha.

Um comandante rebelde disse à BBC acreditar que as forças pró-Kadafi podem ter ficado sem munição e se viram obrigadas a recuar. A TV estatal líbia, porém, contradisse os rebeldes e disse que as forças pró-Kadafi controlam o aeroporto e o porto de Brega.

Ajdabiya, no nordeste da Líbia, também teria sido alvo de ataque nesta quarta-feira. Segundo um líder tribal, jatos das forças de segurança bombardearam um depósito de armas na cidade, que há alguns dias é controlada pelos rebeldes.

Segundo a Al-Jazeera, as forças rebeldes líbias conseguiram derrubaram um avião militar das brigadas leais a Kadafi. Conforme o canal, o avião foi derrubado quando bombardeava a cidade, a 200 quilômetros ao oeste de Benghazi, a segunda maior do país, em poder das forças rebeldes.

A oposição líbia, que controla a região oriental do país, pediu nesta quarta-feira à ONU que autorize bombardeios contra as forças leais de Kadafi, indicou um porta-voz opositor. "Pedimos às Nações Unidas e a todos os organismos internacionais que autorizem ataques aéreos contra posições e redutos de mercenários", declarou o porta-voz dissidente, Abdel Hafiz Ghoqa, em Benghazi.

Ele indicou que os mercenários são provenientes de países como Níger, Mali e Quênia, e foram recrutados por Kadafi para contra-atacar as rebeliões do país. Antes do apelo, o líder líbio advertiu contra uma intervenção externa, afirmando que milhares de líbios morrerão se os Estados Unidos, a Otan ou qualquer potência internacional lançar uma ofensiva no país.

O pedido de intervenção militar é sensível para os países ocidentais, desconfortavelmente cientes de que o Iraque sofreu anos de derramamento de sangue e violência da Al-Qaeda depois da invasão dos EUA e seus aliados, em 2003, para derrubar o ditador Saddam Hussein.

Pressão internacional

O procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), Luis Moreno Ocampo, anunciará na quinta-feira os nomes dos identificados pelo seu escritório como suspeitos de ter cometido crimes de guerra na Líbia.

O anúncio confirma, portanto, que a procuradoria abrirá uma investigação formal sobre crimes de guerra no país depois que o Conselho de Segurança da ONU lhe remeteu o caso no fim de semana passado, segundo um comunicado.

Em 26 de fevereiro, o conselho aprovou uma série de sanções contra o regime Kadhafi e encarregou uma investigação ao TPI, ao considerar que a repressão contra os manifestantes pode constituir um "crime contra a humanidade".

A investigação é mais uma medida de pressão da comunidade internacional contra o regime líbio, que nos últimos dias foi alvo de sanções do Conselho de Segurança da ONU , dos EUA , da União Europeia , de congelamento de bens pela Suíça e por Washington , e expulso do Conselho de Direitos Humanos da ONU . Além disso, o governo americano enviou navios e aviões para perto do país para uma eventual intervenção militar.

Kadafi faz pronunciamento

Em meio às notícias desencontradas sobre os confrontos em Brega, Kadafi fez um pronunciamento em Trípoli, durante uma cerimônia que marca os 34 anos da transferência do poder para o povo. Segundo Kadafi, em 2 de março de 1977, ele e os demais militares que derrubaram a monarquia em 1969 deixaram de exercer o poder.

"Nós colocamos nossos dedos nos olhos daqueles que duvidam que a Líbia seja governada por alguém que não seja o povo", disse ele, sob os aplausos de dezenas de pessoas.

"Não somos um regime presidencial ou uma monarquia. Desafio qualquer pessoa que diz que eu exercito o poder", afirmou. "A autoridade e o poder estão nas mãos do povo, e apenas nas mãos do povo". O líder acrescentou que o sistema líbio "não é compreendido pelo mundo".

Com AP, AFP, Reuters, BBC e New York Times

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