Menino morto se torna símbolo para manifestantes na Síria

Opositores acusam forças de segurança de matar Hamza al-Khatib, de 13 anos; vídeo no YouTube mostra seu corpo ensanguentado

iG São Paulo |

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Reprodução de vídeo sem data mostra manifestante com foto de Hamza al-Khatib, que virou símbolo de protestos na Síria
Um menino sírio, que ativistas dizem ter sido torturado e morto por forças de segurança do governo, tornou-se um poderoso símbolo para os manifestantes que enfrentam uma repressão sangrenta nos protestos contra o presidente Bashar Al-Assad.

Uma foto de infância de Hamza al-Khatib, de 13 anos, foi estampada nos cartazes dos manifestantes em toda a Síria, depois que um vídeo no YouTube mostrando o corpo dele ensanguentado provocou indignação internacional. Autoridades sírias negam que o menino tenha sido torturado, afirmando que ele foi morto em uma manifestação na qual gangues armadas dispararam contra as forças de segurança.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse estar "muito preocupada" com o caso de Khatib. "Acho que isso simboliza para muitos sírios um colapso total de qualquer esforço por parte do governo sírio de escutar e colaborar com seu próprio povo", disse Hillary. "Só posso esperar que essa criança não tenha morrido em vão..."

Khatib, assim como o vendedor de frutas Mohamed Bouazizi , que ateou fogo ao próprio corpo na Tunísia, e Neda Agha Soltan , cujos últimos momentos de vida foram gravados e divulgados na internet, tornou-se um poderoso símbolo para os manifestantes que exigiam maior liberdade em seus países.

Algumas autoridades para os direitos humanos acreditam que o caso do menino dará um impulso aos protestos na Síria.

O vídeo mostrou o corpo inchado do menino, com feridas de tiros em seus braços, abdome e peito, além de hematomas no rosto e nas pernas. Dois homens, aparentemente examinadores médicos, então dizem que o pênis de Khatib foi cortado. Essa imagem está com falhas.

Khatib desapareceu durante os protestos de 29 de abril e seu corpo foi devolvido à família cerca de um mês depois. O ministro do Interior sírio ordenou uma investigação sobre a morte do garoto, cujos pais foram recebidos na quarta-feira pelo presidente Assad.

Grupos defensores dos direitos humanos afirmam que mais de 10 mil foram detidos em 10 semanas de protestos em toda a Síria. Mais de 1,1 mil civis foram mortos nos confrontos, segundo ativistas dos direitos humanos, o que levou os Estados Unidos e a União Europeia a impor sanções contra Assad.

Crianças mortas

De acordo com o Unicef, 30 crianças morreram vítimas de disparos das forças de segurança do regime de Assad, que na terça-feira anunciou uma anistia recebida com descrença pela oposição e pelo Ocidente. Nesta quarta-feira, o governo iniciou a libertação dos presos políticos e anunciou a criação de órgão para promover um "diálogo nacional" no país .

"A utilização de munições de verdade contra os manifestantes provocou a morte de pelo menos 30 crianças", informou o Fundo Mundial das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em um comunicado que reconhece a própria incapacidade de verificar as circunstâncias exatas das mortes.

O Unicef destacou que existem muitos relatos indicando que várias crianças sírias estão feridas, presas, desabrigadas, desaparecidas, torturadas e até mortas por causa da repressão às manifestações contra o governo.

AP
Imagem de vídeo amador de 24/04/2011 postado no YouTube mostra homens com mulher ferida em Deraa, Síria
"Pedimos ao governo que investigue minuciosamente essas informações, identifique e julgue os autores dos atos horríveis", afirmou o documento da organização.

A organização Human Rights Watch (HRW) denunciou nesta quarta-feira "crimes contra a Humanidade" cometidos na região de Deraa, num informe chamado "Nunca vimos tamanho horror".Cerca de 50 testemunhos feitos à HRW descrevem matanças sistemáticas, espancamentos, torturas com aparelhos elétricos e prisão de feridos submetidos a tratamentos médicos.

"Há meses as autoridades sírias matam e torturam os cidadãos impunemente", afirmou Sara Leah Whitson, responsável da entidade no Oriente Médio.

No âmbito político, mais de 300 opositores, na maioria exilados, iniciaram na quarta-feira em Antalya, Turquia, uma reunião de três dias com a finalidade de propor um "mapa do caminho" para uma transição democrática e pacífica.

Os opositores julgam "insuficiente" e "tardia" a anistia geral anunciada na terça-feira por Assad, que beneficia os presos políticos. O anúncio também foi recebido de forma cética pelos países do ocidente. O ministro francês de Relações Exteriores, Alain Juppé, disse "temer que seja tarde demais".

"Mais de mil morreram. A mudança de direção das autoridades sírias deve ser muito mais clara, mais ambiciosa do que uma simples anistia", afirmou Juppé.

*Com Reuters e AFP

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