Manifestantes do Egito querem Exército fora do poder

Suposta tortura e morte de prisioneiro de 23 anos inflamou os protestos desta sexta-feira na praça Tahrir, no Cairo

iG São Paulo |

Milhares de manifestantes egípcios se reuniram nesta sexta-feira na praça Tahrir, no Cairo, para pressionar os militares no governo a acelerar a transferência de poder para os civis, e um líder islâmico afirmou que seus seguidores iriam realizar uma manifestação se o Exército não respondesse.

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Manifestante egípcio agita bandeira durante protesto na praça Tahrir, no Cairo, contra o conselho militar

O Exército egípcio assumiu o controle do país depois que uma revolta popular derrubou o presidente Hosni Mubarak em 11 de fevereiro, prometendo transferir o poder para um governo civil eleito dentro de seis meses

Mas os principais generais dizem agora que eles poderiam permanecer no poder até que eleições presidenciais sejam realizadas no final de 2012 ou início de 2013, citando um calendário prolongado das eleições parlamentares e um período de seis meses para escrever a nova Constituição.

Manifestantes levaram cartazes acusando o líder do conselho militar no governo, o marechal Mohamed Hussein Tantawi, de tentar se manter no poder. "O povo exige a queda do Marechal em Campo" e "Seja no uniforme ou em cuecas, não queremos um governo militar", gritavam os presentes, a maioria deles salafistas que seguem rigorosos ensinamentos islâmicos, e egípcios comuns.

O xeique Hazem Abu Ismail, um líder salafista que disse que iria concorrer à presidência, pediu aos seus seguidores que realizassem uma manifestação se o Exército não atendesse às demandas dos manifestantes. "Nós rejeitamos o prolongamento do regime militar", disse Ismail Abu a manifestantes por meio de alto-falantes, instando-os a permanecer na praça até que o conselho militar divulgue um comunicado nesta sexta-feira.

Aludindo aos pedidos do conselho militar para que os protestos parassem sob argumento de que eles prejudicam a economia, ele disse que "o que dificulta a produção é que o conselho militar, de repente, anunciou que vai permanecer no poder por mais dois anos". Os manifestantes responderam com gritos de "Não vamos sair, o conselho deve sair".

As eleições para a Câmara Baixa do Parlamento serão realizadas em três etapas, com a primeira em 28 de novembro. A votação para a Câmara Alta, também em três etapas, terá início em 29 de janeiro.

Os manifestantes também exigiram que o conselho militar usasse uma lei sobre traição para barrar aliados do presidente deposto Hosni Mubarak da política e mantê-los fora do novo parlamento.

O Exército, inicialmente saudado pelos egípcios por se aliar com a revolta popular, está sob crescentes críticas de políticos, ativistas de direitos humanos e grupos de jovens, que o acusam de abusos dos direitos humanos e mau gerenciamento do governo interino. "Nove meses se passaram desde a revolta e não vimos nem um governo efetivo nem sinais evidentes de que os capangas de Mubarak estarão fora do novo parlamento", afirmou Salem Mesbah, de 35 anos.

A Irmandade Muçulmana, grupo egípcio mais organizado e influente da oposição na era Mubarak, não participou no protesto desta sexta-feira.

Tortura

Ativistas dos direitos humanos no Egito acusaram guardas de uma prisão no Cairo de matar um prisioneiro, enchendo seu corpo de água com mangueiras. O caso, segundo esses ativistas, mostram o contínuo uso da tortura pelas forças de segurança, apesar da saída de Mubarak do poder.

A ira da população em relação ao uso da tortura foi fundamental para os levantes que culminaram com o fim do regime. Ativistas dizem que a morte de Essam Atta, 23 anos, em um hospital de Cairo na última quinta, indica que os novos governantes do país fizeram pouco esforço para mudar esse quadro.

Malik Adly, advogada da família, disse que Atta tinha ligado para seus pais antes de sua morte, para que eles soubessem que a polícia tinha injetado água em seu corpo pela sua boca e ânus.

Outros prisioneiros depois informaram à advogada que o jovem tinha vomitado sangue e, depois, morreu sob tortura. Um guarda da prisão levou o corpo de Atta para o hospital no final de quinta-feira, onde sua morte foi documentada como sendo por "envenenamento desconhecido".

Atta foi preso enquanto assistia a uma briga de rua em fevereiro, considerado culpado por "banditismo" em um julgamento militar e setenciado a dois anos de prisão. "Nós acusamos os guardas da prisão de Tora de estar por trás da morte da vítima", disse Adly. O Centro Nadim para Vítimas de Tortura, sediado em Cairo, também acusou os funcionários pela morte de Atta.

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Em luto, manifestantes caregam caixão de Essam Atta, 23 anos, na praça Tahrir, no Cairo

Uma fonte oficial da segurança egípcia negou as alegações, afirmando que médicos descobriram que Atta usava drogas e seu corpo estava exaurido. Quando suas condições pioraram, ele foi levado ao hospital onde morreu. Atta foi preso em 2004 por posse de drogas, e em 2010 por posse ilegal de armas, segundo o oficial.

Alguns egípcios enxergaram paralelos entre a morte de Atta e a de Khaled Said , 28 anos, que morreu depois de apanhar de policiais em junho de 2010. Fotos do rosto ensanguentado de Said circularam amplamente na internet, e ativistas mais tarde usaram uma página no Facebbok intitulada "Todos somos Khaled Said" para ajudar a organizar os levantes contra Mubarak.

Muitos notaram que as autoridades egípcias também retrataram Said como um traficante de drogas, afirmando que ele morreu de overdose depois de engolir um papelote de droga para escondê-lo da polícia.

Um comitê forense independente depois descobriu que o papelote foi colocado dentro de sua boca depois de sua morte, e dois policiais foram setenciados a sete anos de prisão.

Horas depois da morte de Atta, uma página foi publicada no Facebook com o título "Todos somos Essam Atta", contendo fotos de seu corpo. A autencidade das fotografias, entretanto, não pôde ser verificada.

Com Reuters e AP

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