Liga Árabe apoia zona de exclusão aérea na Líbia

Reino Unido e França também apoiam medida enquanto aumentam bombardeios de Kadafi contra rebeldes; EUA hesitam sobre plano

iG São Paulo |

A Liga Árabe é favorável a uma zona de exclusão aérea na Líbia, anunciou nesta segunda-feira o ministério francês das Relações Exteriores, um dia depois do encontro no Egito entre o secretário-geral da organização, Amr Musa, e o chefe da diplomacia de Paris, Alain Juppé.

"O secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, confirmou seu apoio à criação de uma zona de exclusão aérea", afirmou o porta-voz do ministério francês das Relações Exteriores, Bernard Valero.

Segundo o porta-voz, existem "trabalhos preliminares" que estudam "todas as opções para enfrentar a evolução da situação no terreno". "Desejamos pôr tudo em andamento para contribuir para a saída da crise na Líbia. Levamos esses trabalhos em estreita coordenação com todas nossos parceiros, os países envolvidos e o conjunto das instâncias internacionais e regionais", disse.

França e Grã-Bretanha tentam obter a aprovação do Conselho de Segurança da ONU para estabelecer uma proibição de sobrevoar o espaço aéreo líbio.

Os EUA, porém, estão cautelosos em estabelecer a medida , que poderia levar semanas para ser organizada. No início da semana passada, o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, afirmou que a medida requereria um ataque para enfraquecer a defesa aérea líbia. "Um zona de exclusão aérea começa com um ataque à Líbia para destruir suas defesas aéreas. Dessa forma é possível sobrevoar o país e não se preocupar com a possibilidade de nossos soldados serem abatidos", disse.

Gates afirmou que uma zona de exclusão aérea na Líbia "também requer mais aviões do que se podem encontrar em apenas um porta-aviões, portanto, é uma grande operação em um país grande".

Segundo a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, os EUA estão longe de uma decisão sobre a questão. "Há muita prudência em relação às ações que poderíamos empreender em âmbitos distintos do apoio a missões humanitárias", acrescentou.

O chanceler britânico, William Hague, disse no domingo que a zona de exclusão aérea sobre a Líbia ainda está no estágio inicial de planejamento e descartou o uso de forças terrestres.

Opções militares dos EUA

Os analistas de defesa dos Estados Unidos estão preparando uma série de opções militares para a Líbia no caso de Washington e seus aliados decidirem intervir no país, informou o jornal New York Times.

O jornal, que cita fontes anônimas do governo, uma das opções em análise seria a simples interferência nos sinais de aviões no espaço aéreo internacional, o que confundiria as comunicações do governo líbio com as unidades militares.

A mais recente força americana a se aproximar, apesar de com uma certa distância, de Trípoli, capital do país do norte da África, é a 26ª Unidade Expedicionária da Marinha, a bordo de dois navios anfíbios, o Kearsarge e o Ponce, segundo o NYT.

A unidade tem uma força completa por ar, mar e terra que pode avançar rapidamente por centenas de quilômetros. Segundo o jornal, outra tática seria fornecer armas e outros materiais aos rebeldes líbios. Outras opções incluem a inserção de pequenas equipes especiais de operações para auxiliar os rebeldes, como aconteceu no Afeganistão para derrubar a milícia islâmica do Taleban em 2001.

Essas equipes são treinadas para melhorar a eficiência dos combatentes com muita rapidez, com treinamento, equipamento e liderança, completou o New York Times.

Combates em terra

As discussões sobre a intervenção internacional e o estabelecimento da zona de exclusão aérea acontecem enquanto se intensificam os confrontos na Líbia, com os rebeldes anti-Kadafi afirmando que tentam se reagrupar após uma ofensiva aérea e terrestre lançada por forças leais ao líder líbio.

Nesta segunda-feira, aviões militares de Kadafi bombardearam Ras Lanouf, no leste do país, um estratégico enclave petrolífero controlado pelos rebeldes desde sexta-feira. As duas bombas, porém, não deixaram vítimas ao atingir uma zona desértica. Um dia antes, uma forte ofensiva governista paralisou o avanço rebelde para Sirte, cidade natal e reduto de Kadafi localizado a 200 quilômetros de Ras Lanouf.

Em Bin Jawad, também no leste do país e a cerca de 160 quilômetros de Sirte, confrontos deixaram pelo menos 12 mortos e 50 feridos, segundo afirmou a France Presse citando o hospital de Ajdabiyah. Já em Misrata, a 150 km ao leste de Trípoli, pelo menos 21 morreram no domingo em confrontos e bombardeios, também segundo a AFP.

Mohamad Samir, um coronel do Exército que luta ao lado dos opositores, disse à Associated Press que suas forças precisam de reforços do leste depois do revés de domingo. "As ordens são para ficar aqui e guardar a refinaria, porque o petróleo é o que faz o mundo andar", disse o guerrilheiro rebelde Ali Suleiman, falando de um dos postos de controle estabelecidos nos arredores de Ras Lanouf.

Os confrontos de domingo pareceram indicar o início de uma nova fase no conflito, com o regime de kadafi recorrendo a seu poder aéreo contra rebeldes que tentam pôr fim a seu governo de quase 42 anos. O pesado uso de bombardeios expõe a preocupação do regime de que é necessário supervisionar o avanço rebelde em direção a Sirte.

As forças anti-Kadafi teriam um impulso moral se capturassem a cidade, e isso tiraria do caminho um grande obstáculo na marcha para Trípoli. O levante contra Kadafi, que começou em 15 de fevereiro, vem sendo mais sangrento do que as revoltas relativamente rápidas que depuseram os líderes autoritários dos vizinhos Egito e Tunísia .

A Líbia parece se encaminhar para uma guerra civil que pode durar por semanas ou até mesmo meses. Ambos os lados parecem ser relativamente fracos e mal treinados, apesar de as forças de Kadafi ter a vantagem em número de membros e em equipamentos.

Centenas, se não milhares, morreram desde o início da turbulência - as fortes restrições à imprensa tornam quase impossível conseguir um total preciso. Mais de 200 mil deixaram o país, sendo a maioria trabalhadores estrangeiros. O êxodo está criando uma crise humanitária através da fronteira com a Tunísia - outro país do norte da África em tumulto depois da mobilização que levou à renúncia de Zine El Abidine Ben Ali.

Se os rebeldes continuarem a avançar, mesmo que lentamente, a grande dependência de Kadafi no poder aéreo poderia estimular o Ocidente a impor a zona de exclusão aérea sobre o país. A ONU já impôs sanções contra a Líbia, e os EUA moveram suas forças militares para mais perto da área costeira do país enquanto exige a renúncia de Kadafi.

*Com AP, AFP e EFE

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