Líder interino pede que Otan permaneça na Líbia até o fim do ano

Pedido de presidente Mustafa Abdel Jalil sugere temor de que forças leais a ex-ditador possam se reagrupar

iG São Paulo |

AP
Presidente do CNT, Mustafa Abdel Jalil, recebe bandeira da Líbia de veteranos em Benghazi (24/10)
O presidente do Conselho Nacional de Transição (CNT) líbio, Mustafa Abdel Jalil, pediu nesta quarta-feira à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que continue sua operação na Líbia até o final deste ano, informou a agência de notícias catariana QNA. Pedido sugere temor de que forças leais a ex-ditador possam se reagrupar.

No mesmo dia em que a Aliança Atlântica optou por adiar sua decisão final sobre a permanência da missão no país africano, prevista para até 31 de outubro, Abdel Jalil se reuniu no Catar com a denominada Conferência de Amigos da Líbia para pedir o apoio de seus aliados militares.

"Conseguimos a vitória e talvez a Otan pense em suspender suas operações na Líbia, mas nós, como povo líbio, queremos que seu trabalho prossiga ao menos até o fim do ano", disse o líder do governo interino. "Ainda precisamos da ajuda de nossos amigos para garantir nossa segurança e a de nossos vizinhos do sul da Europa", afirmou.

Abdel Jalil também pediu o apoio da Otan para evitar a circulação de armas e a imigração clandestina na Líbia, assim como o retorno dos responsáveis do antigo regime que fugiram para outros países. A mulher do líder deposto, assim como três de seus filhos - Aisha, Muhammad e Hannibal - fugiram para a Argélia em agosto. Saadi, outro filho de Kadafi, abrigou-se em setembro no Níger . A Interpol emitiu um mandado de prisão contra ele a pedido do CNT.

A Otan iniciou suas operações em março , encarregando-se de todas as ações militares internacionais na Líbia, onde os revolucionários se levantaram contra o regime em meados de fevereiro e, oito meses mais tarde, anunciaram a libertação do país após a morte do ditador Muamar Kadafi .

Posteriormente ao pedido, diplomatas do Conselho de Segurança da ONU anunciaram que o órgão planeja encerrar sua autorização para uma zona de exclusão aérea e intervenção da Otan na Líbia nesta semana.

Eles disseram que as questões levantadas pelo CNT de que gostaria que a Otan os ajudasse, como na segurança das fronteiras, estão fora do mandato da ONU para proteger os civis e impor uma zona de exclusão aérea. "O trabalho era proteger os civis e do ponto de vista da Otan a missão foi cumprida", disse um diplomata à Reuters sob condição de anonimato. "Não há nenhum ponto em retardar o fim do mandato."

O principal general do Catar disse nesta quarta que os países ocidentais propuseram a criação de uma nova aliança liderada pelo Catar para apoiar a Líbia depois da retirada da Otan.

"Depois que ficou claro que a Otan tem uma visão para se retirar em um determinado ponto, os países ocidentais amigos da Líbia propuseram essa ideia de criar uma nova aliança para continuar a apoiar a Líbia", disse o chefe do Estado-Maior do Catar, general Hamad bin Ali al-Attiyah, em comentários transmitidos pela televisão Al Jazeera. "E eles pediram que ela seja dirigida pelo Catar, porque o Catar é um amigo deles e um amigo próximo da Líbia", acrescentou sem dar mais detalhes.

Attiyah disse também que centenas de soldados do Catar estavam no terreno na Líbia ajudando os combatentes que derrubaram Kadafi.

Em Paris, a chancelaria francesa disse que uma proposta de extensão da missão da Otan seria estudada. "Vamos levar em consideração com nossos parceiros este pedido. A França continua a apoiar e ajudar o CNT. Nós saudamos a libertação da Líbia e o fato de que a operação, militarmente falando, está em seu fim", disse um porta-voz do ministério do Exterior.

Questionado se uma missão liderada pela Catar seria possível, o porta-voz disse: "Tomamos conhecimento desta notícia, mas é muito cedo para comentar sobre isso e não faria de forma unilateral".

Paradeiro desconhecido

O pedido foi feito no mesmo dia em que informações não confirmadas da Líbia indicavam que Saif al-Islam, filho apontado como herdeiro político de Kadafi e ainda foragido, estaria procurando render-se em um local não revelado. Mas uma pessoa próxima da família do líder deposto disse não ter nenhuma pista sobre o paradeiro de Saif, acrescentando que sua rendição é extremamente improvável nesse momento. Na terça-feira, uma autoridade do Níger afirmou que Saif se dirigia ao país .

Nesta quarta-feira, porém, quem foi apontado como estando no Níger foi Abdullah al Senusi, cunhado de Kadafi e seu chefe de inteligência durante o regime, que, assim como Saif, é procurado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). De acordo com um conselheiro presidencial, Senussi conseguiu chegar ao deserto do Níger e se esconde nas dunas perto da fronteira com a Argélia.

Um tenente líbio que acompanhou Saif na tentativa de fuga da semana passada da cidade de Bani Walid, disse nesta quarta-feira à Reuters que o filho de Kadafi telefonava com frequência para o pai e temia ser atingido por um morteiro. "Ele estava nervoso. Tinha um telefone por satélite e ligava para o pai várias vezes", disse Al-Senussi Sharif al-Senussi, que integrou a equipe de segurança de Saif até que Bani Walid foi tomada pelas forças do novo governo, em 17 de outubro. Ele não tem parentesco com o poderoso ex-chefe de inteligência.

Leia também: Em seus últimos dias, Kadafi cansou da vida de fugitivo

Senussi falou à Reuters numa prisão improvisada no aeroporto de Bani Walid, aonde foi levado após ser detido pelas forças do CNT. A identidade de Al-Senussi foi confirmada por Omar al-Mukhtar, comandante das forças anti-Kadafi no norte da cidade e chefe da brigada responsável pela prisão e pelo aeroporto.

Saif estudou em Londres, fala inglês fluentemente e durante muito tempo foi considerado a voz do regime líbio mais simpática ao Ocidente. Ele é o único filho de Kadafi que não está morto ou preso. "Quando o comboio dele saiu de Bani Walid, foi atingido por um bombardeio aéreo, mas ele escapou com vida", disse Senussi.

Processo contra a Otan

À AFP, o advogado francês Marcel Ceccaldi disse que a família Kadafi estuda processar a Otan por "crime de guerra" no TPI pela morte em Sirte do ex-dirigente líbio. Segundo ele, sua execução por milicianos em circunstâncias ainda confusas foi possível após um bombardeio da Otan contra seu comboio.

Ceccaldi não informou quando apresentará exatamente a ação. "O homicídio de Kadafi mostra que os Estados-membros (da Aliança) não tinham a intenção de proteger a população, e sim derrubar o regime", disse. Kadafi foi enterrado na noite de segunda-feira em um local secreto, mas a morte ainda provoca polêmicas.

O Conselho Nacional de Transição (CNT) afirma que o ex-ditador morreu com um tiro na cabeça durante um tiroteio. Mas testemunhas e vídeos gravados no momento da detenção levantam as suspeitas de uma execução sumária. Organizações internacionais, incluindo a ONU, pediram uma investigação . O CNT anunciou a formação de uma comissão para investigar o caso .

Leia também: Saiba os relatos que indicam os últimos momentos de Kadafi

Nesta quarta-feira, a ucraniana Oxana Balínskaya, enfermeira pessoal de Kadafi, mostrou-se comovida  com a violenta morte do ex-ditador, para o qual trabalhou durante vários anos. "Foi um choque. Primeiro, porque não esperava que fosse morrer assim. O fato de o terem destroçado é, certamente, cruel. Mas a morte... isso eu não desejo a ninguém", afirmou Oxana ao canal de televisão NTV.

*Com EFE, AFP, Reuters, AP e New York Times

    Leia tudo sobre: líbiamundo árabekadafimorte de kadafi

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG