Líder francês pede sanções enquanto refugiados deixam a Líbia

União Europeia estuda nesta quarta se sanciona país; ONU faz apelo para que nações vizinhas à Líbia recebam deslocados

iG São Paulo |

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, pediu que a União Europeia corte seus laços econômicos com a Líbia por causa da repressão violenta dos protestos contra o governo do líder líbio, Muamar Kadafi. O apelo foi feito enquanto a ONU conclamou os países vizinhos da Líbia a aceitar aqueles que tentam cruzar a fronteira para fugir do caos e da violência. Há informações de que os opositores tomaram o controle da região oriental do país e avançam sobre o oeste .

Sarkozy afirmou que a comunidade internacional não pode continuar apenas como espectadora do que chamou de grande violação dos direitos humanos. O presidente francês disse também que sanções urgentes contra a Líbia mostrariam que os perpetradores da violência no país serão responsabilizados. O ministro francês dos Relações Europeias, Laurent Wauquiez, afirmou que o presidente "condena de forma inequívoca o que está acontecendo na Líbia".

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Mulher que recentemente fugiu da Líbia caminha com sua bagagem do lado tunísio da fronteira em Jdir
"Ele nos pediu, todos os ministros encarregados das relações exteriores e europeias, que trabalhemos com nossos colegas europeus para elaborar sanções imediatas contra a Líbia. Ele também quer que a França suspenda todo o comércio, relações econômicas e financeiras com a Líbia", disse o ministro.

O apelo de Sarkozy foi feito no dia em que a União Europeia (UE) estudará se impõe sanções ao regime líbio. A Alta Representante da UE, Catherine Ashton, convocou uma reunião do Comitê Político e de Segurança da UE (COPS) - no qual participam embaixadores dos 27 - que analisará os próximos passos da UE na crise. "Isso inclui possíveis medidas restritivas", disse a porta-voz de Ashton, Maja Kocijancic.

De acordo com os primeiros dados oficiais apresentados pelo regime de Kadafi desde o início dos protestos, a violência no país deixou 300 mortos, incluindo 58 militares. Mas há informações não confirmadas de que o número de vítimas fatais poderia ser muito maior.

Segundo a Federação Internacional para os Direitos Humanos (FIDH), pelo menos 640 morreram, número que representa mais que o dobro do balanço oficial do governo líbio. A FIDH indica que houve 275 mortos em Trípoli e 230 na cidade de Benghazi, epicentro dos protestos. Já o chanceler italiano, Franco Frattini, afirmou que é "verossímil" estimar que o número de mortos nos sete dias de protestos possa chegar a mil, enquanto o líbio Sayed al-Shanuka, que integra o Tribunal Penal Internacional, disse que o número de mortos poderia ser até de 10 mil.

Êxodo em massa

A Comissão Europeia (órgão executivo da União Europeia) anunciou nesta quarta-feira que enviará nas próximas horas vários analistas às fronteiras da Líbia com Tunísia e Egito, assim como a capital do país, Trípoli, para comprovar se há uma saída em massa de habitantes da Líbia aos países vizinhos.

Segundo o porta-voz de Cooperação e Ajuda Humanitária, Raphael Brigandi, a Cruz Vermelha e outras organizações na região afirmaram que mais de 5 mil cruzaram da Líbia em direção à Tunísia nos últimos dias, fazendo a ressalva de que é preciso ser "cauteloso" com os números de deslocados por causa das dificuldades de comunicação com a região.

De acordo com a Cruz Vermelha, há um risco catastrófico de êxodo em massa de líbios para a Tunísia. "Depois do que Kadhfi disse ontem (terça-feira), existe um risco de êxodo catastrófico", afirmou Hadi Nadri, do Crescente Vermelho na região de Ben Guerdan, a cidade tunisiana mais próxima da fronteira com a Líbia. "Acreditamos que milhares de refugiados líbios entrarão em Túnis. Esperamos o pior", afirmou.

Em tom de desafio, Kadafi afirmou em um pronunciamento na terça-feira que não deixará o cargo, conclamando seus partidários a irem às ruas para pôr fim aos protestos . Em seu discurso, Kadafi afirmou que está "disposto a morrer na Líbia" e a combater "os ratos que promovem os distúrbios" até a "última gota" de seu sangue.

Imigração para a Europa

O ministro de Relações Exteriores italiano, Franco Frattini, teme que uma eventual queda do regime líbio cause uma onda migratória até 300 mil pessoas para Europa.

Frattini fez as declarações em entrevista publicada nesta quarta-feira no jornal italiano "Corriere della Sera", em que indicou que uma onda dessa magnitude seria dez vezes superior à crise registrada em 1997 com os refugiados chegados da Albânia ao litoral italiano.

"Na Líbia, um terço da população não é originária do país, mas subsaariana. Estamos falando de 2,5 milhões que, no caso da queda do sistema do país, escaparão porque ficarão sem trabalho. Nem todos (virão) à Itália. Grécia está muito mais perto de algumas cidades líbias", disse.

Os países da UE do entorno do Mar Mediterrâneo pediram nesta quarta-feira a seus parceiros do bloco a criação de um "fundo especial de solidariedade" para enfrentar crises de imigração como a registrada na Itália, que vem recebendo imigrantes da Tunísia e Egito.

Trata-se da "instituição de um fundo especial de solidariedade para enfrentar a crise humanitária. Um fundo humanitário de solidariedade a cargo de toda Europa que permita a nossos países assumir o primeiro impacto da chegada (de imigrantes ilegais)", disse o ministro do Interior italiano, Roberto Maroni.

O ministro disse ainda que na quinta-feira solicitarão a seus parceiros da UE que se crie "um sistema europeu de asilo comum sustentável" para os imigrantes irregulares que chegarem às costas de países da Europa.

*Com BBC, EFE e AFP

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