Líder egípcio usa guerra psicológica para permanecer no poder

Órgãos de comunicação estatais forjam depoimentos, acusam estrangeiros e manipulam números e fotos para tirar força de protestos

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Raphael Gomide
Manifestante mostra título de jornal afirmando que apenas 3 mil manifestantes - todos da proscrita Irmanda Muçulmana - estiveram na praça Tahrir, no Cairo, na véspera
Por meio dos órgãos de comunicação estatais, o governo do presidente egípcio, Hosni Mubarak, tem usado de guerra psicológica e propaganda política para convencer a população de que os protestos que pedem sua renúncia há 14 dias são obra de um pequeno grupo, liderado por estrangeiros e pela Irmandade Muçulmana, organização religiosa banida da política pelo regime.

A guerra psicológica, como é chamada no meio militar, é o emprego planejado da propaganda e de outras ações para influenciar opiniões, emoções, atitudes e comportamento de grupos adversos ou neutros, a fim de atingir seus objetivos - no caso, a permanência de Mubarak no poder. A mentira é frequentemente usada nesses casos.

Entre os estrangeiros por trás dessa tentativa de golpe, de acordo com o discurso oficial, estariam o Irã e o grupo xiita libanês Hezbollah, apoiado por Teerã; o Hamas, grupo islâmico que controla a Faixa de Gaza; e os EUA. O objetivo do governo é despertar, ao mesmo tempo, os sentimentos de medo e nacionalismo dos egípcios.

Oficial-general da Aeronáutica e veterano de guerras, Mubarak se apresenta, ao mesmo tempo, como um “pai” do povo e a opção da estabilidade. “ Se eu sair, será o caos ”, disse, em entrevista à rede de TV americana ABC.

Os canais de televisão e de jornais estatais apresentam versões falsas das manifestações, usando imagens de arquivo para mostrar a praça Tahrir, centro dos protestos, vazia. Um dos canais mostrou uma mulher de costas afirmando ter recebido um treinamento intensivo nos EUA de como se derrubar um regime. A TV também veicula que participantes do movimento receberam US$ 50 e lanches para estar nos protestos.

Na sua edição de domingo, o jornal da imprensa oficial Lalakhbar (A Notícia) – o de segunda maior tiragem no país – tinha como título de uma página a afirmação de que havia apenas 3 mil manifestantes todas ligadas à Irmandade Muçulmana, na praça Tahrir na véspera.

Na quinta-feira, no mesmo diário, a legenda de uma foto aérea da praça com manifestantes anti-Mubarak informava que a população se reunia para pedir a permanência do presidente no cargo.

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