Líder egípcio frustra expectativas e descarta renúncia

Presidente egípcio delega mais autoridade ao vice, Omar Suleiman, mas se recusa a deixar o poder

iG São Paulo |

AP
Em meio a rumores de renúncia, Hosni Mubarak discursou em rede nacional na noite desta quinta-feira

O presidente do Egito, Hosni Mubarak, anunciou nesta quinta-feira que delegará mais autoridade a seu vice-presidente, Omar Suleiman, mas descartou renunciar, surpreendendo e frustrando centenas de milhares de manifestantes que se reuniram para celebrar sua partida da cena política após 30 anos no poder.

No discurso à nação, iniciado com 47 minutos de atraso do horário previsto das 22h locais (18h de Brasília), Mubarak reiterou que permanecerá no poder até setembro, quando estão previstas as próximas eleições. "Satisfeito com o que ofereci à nação em mais de 60 anos", afirmou Mubarak, em referência a todo o seu período na vida pública, "anuncio que vou continuar nesse cargo e assumir minhas responsabilidades."

"Esses tempos difíceis não são sobre mim, mas sobre o Egito, sobre o futuro. Todos estamos no mesmo barco", afirmou Mubarak, que reiterou que não tentará a reeleição. "Expresso meu comprometimento em seguir e proteger nossa Constituição e o povo, e transferir o poder para quem quer que seja eleito em setembro em eleições livres e transparentes", afirmou.

Depois do anúncio de Mubarak, o porta-voz do Parlamento egípcio, Ahmed Fathi Srour, explicou que os poderes delegados ao vice preveem supervisionar a polícia e negociar com a oposição. Srour disse que a Constituição egípcia proíbe o presidente de delegar poderes-chave ao vice-presidente. Como resultado, o poder de dissolver o Parlamento ou o gabinete governamental, assim como fazer mudanças na Constituição, permanece nas mãos de Mubarak.

Segundo a Associated Press, a melhor tradução para o que Mubarak disse em árabe sobre a transferência de poder foi: "Achei apropriado delegar as autoridades de presidente ao vice-presidente, como previsto na Constituição", afirmou. A Carta egípcia permite ao presidente transferir seus poderes se for incapaz de realizar suas tarefas "por causa de qualquer obstáculo temporário", mas isso não significa que ele renunciou.

De acordo com o embaixador americano no Egito, Sameh Shoukry, Mubarak transferiu todos os poderes ao vice Omar Suleiman, que agora seria o "presidente de facto" do Egito.

O líder acrescentou que não aceitará qualquer tipo de intervenção internacional. "Passei a maior parte da minha vida defendendo nossa terra", afirmou Mubarak. "Nunca sucumbi à pressão internacional. Minha dignidade está intacta".

Na tentativa de aparentar que está acatando exigências da oposição, Mubarak disse ter pedido emendas de seis artigos da Constituição, prometeu punir os responsáveis pelos episódios violentos e suspender a lei de estado de emergência que vigora no país há 30 anos "quando as condições de segurança permitirem".

No entanto, na praça Tahrir os manifestantes nem esperaram o discurso acabar para gritar palavras de ordem pedindo sua saída. Centenas de egípcios tiraram os sapatos e os agitaram em frente aos telões pelos quais assistiam ao discurso de Mubarak, um insulto em sociedades árabes, enquanto outros gritavam: "Abaixo Mubarak, saia, saia!"

Outros pediram a convocação de uma greve geral e dirigindo-se ao Exército, que mobilizou grande número de tropas no local do protesto, exigiu: "Exército egípcio, o momento da escolha é agora: o regime ou o povo!".

Pouco depois de Mubarak, enquanto a multidão gritava enfurecida, o vice-presidente fez um pronunciamento no qual pediu "união" aos egípcios.

"Peço aos jovens, esses heróis do Egito, que voltem para casa e ao trabalho", afirmou Suleiman. "Nossa nação precisa trabalhar. Vamos construir juntos, desenvolver juntos, ser criativos juntos. Vamos trabalhar todos juntos, sair da crise e enfrentar os desafios."

No país desde 27 de janeiro, o oposicionista egípcio e Nobel da Paz Mohammed ElBaradei condenou a posição de Mubarak e alertou para futuros confrontos. “O Egito vai explodir. O Exército deve salvar o país agora”, disse.

Após o discurso de Mubarak, o presidente americano, Barack Obama, retornou à Casa Branca para se reunir com sua equipe de segurança nacional. Segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, Obama, que passou o dia em visita a Michigan, assistiu ao discurso a bordo do avião presidencial Air Force One.

Os rumores de que Mubarak deixaria o poder começaram na tarde de quinta-feira, depois de o Exército ter anunciado que está intervindo nas questões de Estado em uma tentativa de pôr fim à mobilização popular que nesta quinta-feira completou 17 dias .

Em discurso televisionado, o Exército egípcio anunciou que tomou medidas para "salvaguardar o país" e também assegurou aos manifestantes que pedem a renúncia de Mubarak de que suas demandas serão atendidas.

Em Washington, o chefe da CIA (Agência de Inteligência dos EUA), Leon Panetta, chegou a dizer que a probabilidade de Mubarak anunciar sua renúncia era "grande". Pouco antes do discurso de Mubarak, o presidente americano, Barack Obama, disse que os Estados Unidos estão atentos aos protestos e mudanças no Egito. “ Estamos testemunhando a história . Uma transformação está acontecendo porque a população egípcia está pedindo mudança”, afirmou.

17 dias de protestos

No dia 1º de fevereiro, quando a onda de protestos completou uma semana, Mubarak anunciou que não concorreria à reeleição nas eleições presidenciais marcadas para setembro. O anúncio não foi suficiente para encerrar os protestos e milhares de manifestantes continuaram lotando a praça Tahrir, no centro do Cairo, exigindo a renúncia imediata do líder.

Nesses 17 dias de crise, Mubarak anunciou outras medidas: nomeou um vice-presidente pela primeira vez desde que chegou ao poder; pediu que seu gabinete renunciasse e nomeou novos ministros ; criou comissões para propor reformas constitucionais , garantir sua implementação e investigar as mortes nos protestos; e definiu um aumento de 15% nos salários dos servidores públicos.

Nenhuma delas foi considerada suficiente pelos manifestantes. Na terça-feira, os protestos ganharam novo ânimo com um discurso do chefe de mercado do Google para Oriente Médio e África, Wael Ghoneim, um dos líderes do movimento. Nesta quinta-feira, milhares de egípcios continuavam na praça, incluindo médicos que aderiram a uma greve convocada na véspera.

Estados Unidos

O governo de Mubarak também vem enfrentando maior pressão dos Estados Unidos, seu principal aliado. Na noite de terça-feira, o vice-presidente americano, Joe Biden, ligou para Suleiman e fez um apelo para que o país acelerasse o processo de reformas democráticas e suspendesse imediatamente o estado de emergência que vigora há 30 anos.

Durante o telefonema, Biden disse a Suleiman que a transição para um governo mais amplo dever produzir um progresso "imediato e irreversível". O vice-presidente americano telefonou a Suleiman quase diariamente desde o início da crise, em 25 de janeiro, mas o tom desta ligação foi o mais duro até então.

Um dia depois, o ministro do Exterior do Egito, Ahmed Aboul Gheit, rejeitou o que chamou de tentativas do governo americano de impor sua vontade sobre o governo egípcio. Em entrevista à rede de TV americana PBS, Gheit disse ter ficado "atônito" ao saber das declarações de Biden.

"Fiquei realmente atônito, porque neste momento há 17 mil prisioneiros soltos nas ruas após escapar de prisões que foram destruídas. Como podem me pedir para dissolver o estado de emergência enquanto estou em dificuldades?, indagou.

Com BBC

    Leia tudo sobre: egitohosni mubarakprotestos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG