Líder da Síria faz rara aparição em comício pró-regime em Damasco

A milhares, Assad promete vencer 'conspiradores'; um dia após ONU denunciar 400 mortes desde dia 26, monitor da Liga abandona país

iG São Paulo |

O presidente sírio, Bashar al-Assad, que enfrenta protestos há dez meses contra seu governo, saudou nesta quarta-feira milhares de simpatizantes entusiasmados em uma praça da capital, Damasco, apenas um dia após fazer um pronunciamento público rompendo seis meses de silêncio .

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A multidão gritava "Shabiha para sempre, para seus olhos, Assad", em referência às milícias leais ao governo que conquistaram reputação por serem temíveis ao reprimir os protestos contra Assad.

A mulher de Assad, Asma, e os dois filhos se juntaram a ele em uma aparição-surpresa na praça central de Umayyad. "Eu pertenço a esta rua", disse Assad, acrescentando que a Síria enfrentava conspiradores estrangeiros. "Daremos um fim a eles e aos seus planos. Venceremos, sem qualquer dúvida."

Em seu pronunciamento de terça, Assad anunciou um referendo sobre a Constituição do país, após culpar uma “conspiração estrangeira” pelos dez meses de protestos. Em discurso transmitido pela TV, ele descartou renunciar e disse que responderá às ameaças com “mão de ferro”.

“A conspiração está clara para todos”, afirmou. “Nossa prioridade é retomar a segurança e isso só pode acontecer se acertarmos os terroristas com mão de ferro. Não vamos ser lenientes com aqueles que trabalham com os estrangeiros."

O presidente da Síria afirmou que um referendo sobre a Constituição será realizado na primeira semana de março. “Essa consulta poderá ser seguida por eleições gerais em maio, já com a nova Carta em vigor”, acrescentou.

Em seu discurso, Assad criticou a Liga Árabe, que suspendeu a Síria e enviou uma equipe de observadores ao país para verificar a implantação de um plano de paz que busca encerrar a crise.
“Durante seis décadas a Liga Árabe falhou ao proteger os interesses árabes. Não é surpresa que tenha falhado novamente (com a Síria)”, afirmou.

No domingo, a Liga Árabe decidiu solicitar ajuda política, financeira e logística à ONU para apoiar a missão de observadores na Síria.

Aumento das mortes após observadores

De acordo com a embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, o subsecretário-geral de assuntos políticos das Nações Unidas, Lynn Pascoe, informou ao Conselho de Segurança da organização que a Síria acelerou o assassinato de manifestantes pró-democracia após a chegada dos observadores da Liga Árabe.

"O subsecretário-geral afirmou que, desde a chegada da missão de monitoramento da Liga Árabe, estima-se um aumento de 400 mortes, uma média de 40 por dia, mais alta do que era antes do envio dos monitores", disse Rice na terça-feira.

Pascoe fez a revelação perante as 15 nações do Conselho de Segurança durante um encontro a portas fechadas sobre a Síria e outras grandes crises. De acordo com a embaixadora americana, o número não inclui os mortos em um atentado suicida em Damasco na sexta-feira .

"Essa é uma indicação clara de que o governo da Síria, em vez de usar a oportunidade para pôr fim à violência e cumprir todos seus compromissos (com a Liga Árabe), está intensificando a violência", disse. O embaixador sírio na ONU, Bashar Ja'afari, negou as alegações da diplomata, dizendo que a violência no país é causada por "terroristas" e "grupos armados" que recebem apoio de países estrangeiros.

Nesta quarta-feira, o argelino Anwar Malek, que compunha a equipe de monitores da Liga Árabe, deixou a Síria dizendo ter testemunhado "cenas de horror" e que a delegação enviada pela entidade ao país não atuava de modo independente.

"Me retirei porque me encontrei na situação de estar servindo ao regime (sírio)", disse Malek à emissora de TV árabe Al-Jazeera, ainda vestindo o colete laranja usado pelos monitores da Liga Árabe. "Como servia ao regime? Dando-lhe uma oportunidade maior de continuar sua matança sem que eu pudesse evitar", declarou Malek em entrevista na sede da emissora, no Catar.

Com 165 integrantes, a missão começou a operar em 26 de dezembro. Segundo a ONU, mais de 5 mil foram mortos desde o começo das manifestações.

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Partidário de presidente da Síria, Bashar al-Assad, beija seu retrato durante manifestação pró-regime na praça central de Damasco
Quando questionado por que havia deixado a delegação, Malek respondeu: "A coisa mais importante é ter sentimentos humanos, de humanidade. Passei mais de 15 dias em Homs. Vi cenas de horror, corpos queimados. Não posso deixar minha humanidade para trás nesse tipo de situação."

Malek criticou o líder da missão da Liga Árabe, o general sudanês Mohammed al-Dabi, cuja adequação ao cargo vem sendo questionada por entidades de defesa dos direitos humanos preocupadas com seu papel no passado no conflito de Darfur, no Sudão.

"O chefe da missão queria mudar o curso (do trabalho) para não irritar as autoridades sírias ou qualquer outra parte", disse Malek, que já havia chamado a atenção por comentários críticos postados no Facebook enquanto estava na Síria.

*Com Reuters, AFP e EFE

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