Kadafi tenta manter controle da capital da Líbia

Há informações de que oposição controla região oriental do país e avança sobre o oeste; soldados desertam em apoio à população

iG São Paulo |

Em meio ao aumento de pressão internacional e de deserções dentro do regime de Muamar Kadafi, no poder desde 1969, forças de segurança da Líbia tentam manter o controle da capital, Trípoli, e áreas no oeste do país em meio a informações de que a oposição controle a região oriental do país.

O ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil, que renunciou ao cargo na segunda-feira, afirmou nesta quarta que a parte oriental "foi totalmente libertada do controle" de Kadafi, enquanto oficiais do Exército de Al-Jabal al Akhdar, no nordeste, anunciaram que se uniram aos manifestantes.

"Nós, os oficiais e os soldados das Forças Armadas na direção da região de Al-Jabal al Akhdar anunciamos nossa união total à revolução popular", disse nesta quarta-feira um porta-voz militar em um vídeo divulgado pelas emissoras "Al-Jazeera" e "Al-Arabiya". Em mais um sinal de deserção e da perda de força de Kadafi, pilotos da Força Aérea líbia se recusaram a bombardear Benghazi, a segunda maior cidade do país que está sob controle da oposição, e se ejetaram do caça que pilotavam .

Nesta quarta-feira, moradores de cidades do leste da Líbia celebraram a vitória sobre as forças de segurança, hasteando bandeiras da época da monarquia, derrubada pelo golpe que levou Kadafi ao poder.

A Al-Jazeera exibiu imagens de moradores de Benghazi que celebravam com canções e fogos de artifício o que chamavam de libertação da cidade dos seguidores do regime de Kadafi e dos mercenários. Segundo a emissora do Catar, os revolucionários dirigem as emissoras de rádio de Benghazi, Al-Bayda e de outras cidades do leste do país, e transmitem comunicados a favor da revolta e instruções aos jovens para que protejam as instituições públicas.

"A Província de Cyrenaica (nordeste) não está mais sob controle do governo líbio e há confrontos e violência em todo o país", declarou o ministro italiano das Relações Exteriores, Franco Frattini, que pediu o fim imediato do "horrível banho de sangue" por parte do governo Kadafi.

Ativistas e testemunhas confirmaram à emissora catariana que o nordeste da Líbia "foi libertado" e está em poder "dos revolucionários", formando-se comitês populares para proteger e governar as cidades.

Há relatos de que a oposição tomou o controle de Misrata, que se tornaria a primeira grande cidade do oeste da Líbia a sair das mãos do governo. Testemunhas disseram que a população estava comemorando com um buzinaço. Ao iG , a Liga Líbia de Direitos Humanos, que é parte da Federação Internacional pelos Direitos Humanos, disse que apenas a capital Trípoli e Sirte estariam sob controle das forças do governo.

Enquanto no leste do país os manifestantes comemoravam a tomada de controle da região, em Trípoli, porém, o clima era de tensão: moradores temem deixar suas casas alegando que forças pró-Kadafi estão atirando aleatoriamente nas ruas.

A companhia de transporte marítimo francesa CMA CGM relatou nesta quarta-feira que todos os portos da Líbia estão "temporariamente fechados" como consequência dos distúrbios. "Por conta da insurreição em certas cidades líbias, todos os portos e terminais estão temporariamente fechados", relatou o grupo em comunicado.

Pressão internacional

A condenação internacional à repressão aos manifestantes também aumentou após um discurso de Kadafi na terça-feira , no qual convocou seus partidários a lutar contra os opositores. "Vocês homens e mulheres que amam Kadafi... saiam de suas casas e lotem as ruas", disse. "Saiam de suas casas e os (os opositores) ataquem em suas tocas."

Nesta quarta-feira, o Departamento de Estado dos EUA informou que os EUA estão considerando uma série de respostas à violenta crise política, incluindo a possibilidade de sanções e congelamento de bens .

De acordo com os primeiros dados oficiais apresentados pelo regime de Kadafi desde o início dos protestos, a violência no país deixou 300 mortos , incluindo 58 militares. Mas há informações não confirmadas de que o número de vítimas fatais poderia ser muito maior.

Segundo a Federação Internacional para os Direitos Humanos (FIDH), pelo menos 640 morreram, número que representa mais que o dobro do balanço oficial do governo líbio. A FIDH indica que houve 275 mortos em Trípoli e 230 na cidade de Benghazi, epicentro dos protestos.

O chanceler italiano, porém, afirmou que é "verossímil" estimar que o número de mortos nos sete dias de protestos possa chegar a mil, enquanto o líbio Sayed al-Shanuka, que integra o Tribunal Penal Internacional, disse que o número de mortos poderia ser até de 10 mil. Já o médico francês Gérard Buffet, que acaba de voltar de Benghazi, estimou que os confrontos na cidade fizeram "mais de 2 mil mortos".

Nesta quarta-feira, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, pediu que a Europa suspenda todos os laços econômicos com a Líbia e adote sanções contra o país . O apelo foi feito enquanto a ONU conclamou os países vizinhos da Líbia a aceitar aqueles que tentam cruzar a fronteira para fugir do caos e da violência.

"Peço ao ministro de Relações Exteriores que faça uma proposta aos nossos parceiros europeus pedindo a adoção de sanções rápidas e concretas para que todos os envolvidos na violência saibam que terão de assumir as consequências de suas ações", disse Sarkozy, em comunicado.

Getty Images
Mulher que recentemente fugiu da Líbia caminha com sua bagagem do lado tunísio da fronteira em Jdir
O pedido de sanções foi feito no dia em que a União Europeia decidiu avançar na imposição de sanções ao regime de Muammar Kadafi ao encarregar seus especialistas de apresentar uma série de medidas concretas para esse fim.

Na terça-feira, o Conselho de Segurança da ONU condenou o uso de violência contra manifestantes e pediu que os autores de ataques contra civis sejam responsabilizados. Em uma declaração divulgada após uma reunião de emergência, em Nova York, os 15 países membros do Conselho – cuja presidência rotativa está a cargo do Brasil neste mês – pediram o fim imediato da violência e que as autoridades líbias atendam às demandas da população.

Horas antes, a Liga Árabe suspendeu a Líbia de futuras reuniões da organização, até que as demandas do povo líbio sejam atendidas.

Renúncias

A violenta repressão aos protestos provocou a renúncia de diversas autoridades do governo, como o ministro do Interior, Abdel Fattah Younes al Abidi , e da Justiça, Mustafá Abdel Yalil. Além disso, pelo menos oito embaixadores e diplomatas de alta hierarquia renunciaram a seus cargos em protesto pela violenta repressão aos protestos.

Os embaixadores que deixaram seus postos são os chefes das missões líbias na Austrália, Bangladesh, China, EUA, Índia, Indonésia, Malásia, Polônia. Diplomatas do país na Liga Árabe e na ONU também deixaram o governo .

O embaixador da Líbia no Brasil, Salem Ezubedi, não vai à representação diplomática em Brasília nesta quarta-feira, informou uma assessora ao iG . Segundo ela, Ezubedi "está sofrendo muito com tudo isso. É o povo dele que está morrendo ".

A Embaixada da Líbia na Áustria emitiu um comunicado nesta quarta-feira dizendo que "condena a violência excessiva contra manifestantes pacíficos" e afirmou que está representando "o povo líbio".

Negação de pouso

O Líbano negou a permissão de pouso de um avião privado líbio no qual viajava a esposa de origem libanesa de Hannibal Kadafi, um dos filhos do dirigente líbio, afirmou nesta quarta-feira à AFP uma fonte dos serviços de segurança.

"O aeroporto de Beirute recebeu na madrugada de segunda-feira um pedido das autoridades líbias para receber um avião da família de Kadafi com várias pessoas a bordo, entre elas Aline Skaff, a esposa de Hannibal Kadafi, de origem libanesa", indicou a fonte. "O Líbano negou o pedido", acrescentou.

Hannibal foi preso em julho de 2008 em Genebra por uma denúncia de duas empregadas domésticas que o acusaram de maus-tratos, provocando um conflito diplomático entre a Líbia e Suíça.

No Líbano, o coronel Muamar Kadafi é odiado principalmente pela comunidade xiita pelo desaparecimento do carismático imã xiita libanês Musa Sadr durante uma visita à Líbia em 1978. O líder líbio foi indiciado e alvo de um pedido de prisão por parte da justiça libanesa por esse desaparecimento.

Com AP, EFE, AFP, Reuters e BBC

    Leia tudo sobre: líbiaprotestoskadafimundo árabe

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG