Junta militar do Egito indica ex-premiê para formar novo governo

Segundo militares, conselho pediu a Kamal Ganzouri que ocupe o cargo deixado por Essam Sharaf em meio aos protestos no país

iG São Paulo |

O conselho militar do Egito indicou Kamal Ganzouri ao cargo de primeiro-ministro, com a incumbência de formar um novo governo, informou a mídia estatal do país nesta quinta-feira.  Segundo a CNN, que ouviu militares próximos à questão, Ganzouri já aceitou a indicação, o que não foi confirmado até o momento por outras fontes.

Reuters
Mohamed Hussein Tantawi, líder do Conselho Supremo das Forças Armadas se reuniu com o ex-premiê Kamal Ganzouri no Cairo


Se a nomeação for confirmada, essa não será a primeira vez que Ganzouri ocupará o posto. Entre 1996 e 1999 ele liderou o gabinete e introduziu algumas medidas de liberalização econômica. Durante o mandato de Ganzouri nos anos 1990, o país estava sob o controle de Hosni Mubarak , líder que governou o Egito por mais de 30 anos e que renunciou após revoltas populares em fevereiro , no contexto da Primavera Árabe .

O antigo gabinete de Essam Sharaf, nomeado anteriormente pela junta militar - que lidera o país desde a deposição de Mubarak - pediu sua renúncia no começo da semana, por conta dos violentos protestos no Cairo e em outras cidades do Egito que deixaram dezenas de mortos. Os manifestantes reivindicam a saída das Forças Armadas do governo, pois, segundo eles, os militares tentam se perpetuar no poder da mesma forma que Mubarak o fez anteriormente.

Leia também: Junta militar do Egito promete acelerar transição para governo civil

A TV estatal afirmou que o conselho militar havia se reunido com Ganzouri mais cedo nesta quinta-feira. O general Mokhtar al-Mullah disse em coletiva que o Exército esperava formar um novo governo antes das eleições parlamentares, mantidas para segunda-feira.

Reações na praça

Na praça Tahrir, a notícia da indicação de Ganzouri dividiu os manifestantes. Alguns viam sua idade - ele é quase octogenário - como um problema. "Ganzouri não é bom para este período de transição, que precisa de líderes jovens, não de avós", disse o estudante Maha Abdullah.

O taxista Metwali Atta, de 55 anos, discordava. "Eu queria ver Ganzouri como primeiro-ministro. O homem tem um caráter forte, ao contrário de Essam Sharaf, que era facilmente comandado pelo conselho militar."

Em nota, os manifestantes convocaram uma manifestação gigantesca na "sexta-feira da última chance", exigindo a nomeação de um governo de salvação nacional que faça uma rápida transição para o regime civil.

Mas muitos egípcios já estão cansados da prolongada fase de turbulência política, e simpatizantes dos militares convocaram uma contramanifestação para apoiá-los. A junta militar, no entanto, fez pelo Facebook um apelo para que esse grupo cancele sua manifestação, a fim de não acirrar as divisões.

Pedido de desculpas

A junta militar, que está no poder há nove meses, pediu desculpas pela morte de civis durante protestos pró-democracia no país e admitiu que a polícia cometeu violações de direitos humanos. Um cessar-fogo entre policiais e manifestantes entrou em vigor às 6h (horário local), suspendendo a violência após cinco dias de intensos choques que deixaram ao menos 37 mortos, de acordo com o Ministério da Saúde. Fontes da oposição falam em até 40 vítimas.

Leia também: Chefe de direitos humanos da ONU cobra investigação no Egito

Em pronunciamento na TV, dois dos generais que comandam o país prometeram punir os responsáveis pela violência, em uma nova tentativa de acalmar os manifestantes.

Os generais ofereceram “seus pêsames a toda a população do Egito”. Muhammad al-Assar expressou “o arrependimento e as desculpas das Forças Armadas pela tragédia”. “Nossos corações sangram pelo que aconteceu. Esperamos que essa crise acabe e que, se Deus quiser, não se repita”, acrescentou.

Posteriormente, o general Mohammed Mokhtar el-Mulla afirmou em coletiva que será garantida a segurança da eleição legislativa que começa na segunda-feira, admitindo as violações pela polícia. "A princípio, pessoas que atacaram o Ministério do Interior foram perseguidas com gás lacrimogêneo e cassetetes, mas depois os policiais foram para a Praça Tahrir, e isso foi uma violação", admitiu, expressando a esperança de que os manifestantes permitam que a votação ocorra com sucesso.

Ao mesmo tempo, porém, ele negou que a polícia tenha usado munição real contra os manifestantes, apesar de o Ministério da Saúde ter confirmado na quarta-feira que algumas das mortes foram causadas por disparos.



Agressões sexuais

Uma colunista dos EUA nascida no Egito afirmou que apanhou, foi agredida sexualmente e teve os olhos vendados pelos agentes locais depois de ser detida nesta quinta-feira na praça Tahrir durante os confrontos. Seu braço esquerdo e sua mão direita estão engessados, pois foram quebrados na agressão.

Mona Eltahawy mora em Nova York, é uma defensora dos direitos humanos e ex-repórter da Reuters. Ela se descreve como uma muçulmana liberal que falou publicamente nos EUA e em outros países contra grupos islâmicos violentos, particularmente durante o episódio do 11 de Setembro.

Ela chegou ao país na noite de quarta-feira e foi direto à praça Tahrir, se aproximando das linhas de frente dos confrontos entre manifestantes e a polícia, nas mediações do prédio do Ministério do Interior. Mona foi detida na região no início da manhã de quinta, e libertada apenas 12 horas depois.

"Eles me bateram com pedaços de madeira nos meus braços e na minha cabeça. Eles me agrediram sexualmente, tateando meus seios e colocando as mãos entre minhas pernas", disse. "Por um momento eu pensei: 'É isso. Ninguém está por aqui. Eu já era'." Enquanto ela se debatia e gritava: "Não, Não", seus agressores arrastaram-na pelos cabelos até a rua onde foi capturada.

"A minha experiência é só a ponta do iceberg da brutalidade que os egípcios enfrentam todos os dias", disse, considerando-se sortuda por sua dupla nacionalidade que, em sua opinião, evitou abusos piores.

Elthawy é uma porta-vos da revolução egípcia e visitou o país pelo menos duas vezes desde janeiro. Conhecida pelas críticas ácidas do regime de Hosni Mubarak, Mona continuou a denunciar a presença dos militares no governo. Ela fez discursos alertando que um Mubarak seria substituído por outros "1,8 mil", em referência ao conselho militar.

"Eu não estou preocupada com a revolução egípcia, porque os egípcios que têm lutado estão determinados a obterem sucesso", disse. "Eu estou preocupada que os militares não saibam o que estão fazendo com a polícia e que a brutalidade não tenha mudado."

Os policiais militares pediram desculpas pelo ocorrido e prometeram uma investigação. Ela não acusou os policiais militaers de nenhum tipo de abuso sexual e insistiu que um funcionário militar se ofereceu para gravar seu testemunho.

O grupo Repórteres Sem Fronteiras divulgou uma nota alertando aos canais de notícias que suspendam momentaneamente o envio de mulheres ao Egito, devido a duas notificações de abusos sexuais sofridos por jornalista. Além de Mona, uma repórter francesa foi atacada por um homem à paisana enquanto trabalhava no Cairo. Em fevereiro, Lara Logan, uma correspondente da CBS, foi agredida sexualmente por uma multidão frenética.

Com Reuters, BBC e CNN

    Leia tudo sobre: egitopremiêgovernomundo árabe

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG