Jornalistas passam de observadores bem-vindos a alvos de violência no Cairo

Repórter francesa foi sequestrada, âncora da CNN levou socos. Desde ontem, muitos são intimidados e agredidos, especialmente por manifestantes pró-Mubarak

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Jornalistas da imprensa internacional passaram de observadores a alvos da violência que tomou o Cairo desde quarta-feira, o primeiro dia em que partidários do presidente do Egito, Hosni Mubarak, fizeram uma manifestação em grande escala nas ruas da cidade. Segundo o Ministério da Saúde, os choques deixaram ao menos cinco mortos e mais de 800 feridos.

Nesta quinta-feira, as ruas da cidade estão um caos, com inúmeras barricadas feitas por populares armados de facões, porretes e barras de ferro. O Exército, que na véspera assistiu de braços cruzados os tumultos, tenta impedir novos confrontos .

Na quarta-feira, o encontro entre os dois grupos resultou em violentos conflitos na praça Tahrir (da Libertação), sem a intervenção do Exército, que apenas mantinha sua posição nas entradas do local.

Inicialmente bem-vindos entre os manifestantes que querem a queda de Mubarak, inúmeros repórteres, fotógrafos e cinegrafistas passaram a ser intimidados e agredidos por militantes favoráveis ao governante, que carregavam cartazes com mensagens de apoio. A suposta justificativa para as agressões era de que a imprensa internacional estaria fazendo uma cobertura a favor dos manifestantes que querem a queda do chefe do executivo egípcio.

Nesta quinta-feira, ao menos quatro jornalistas - duas espanholas, um holandês e uma libanesa - foram retirados à força de táxis onde estavam e ameaçados por hordas de homens, e até crianças, armados de facões sujos de sangue.

Pela manhã, o holandês e a libanesa foram parados em um bloqueio popular. Um homem quebrou a janela traseira do carro e apontou o facão ameaçadoramente contra ele. Outro manifestante parado em frente ao carro fazia com um facão o gesto de degola para os dois. Eles foram retirados do carro e, finalmente, resgatados por militares do Exército.

No início da tarde, duas repórteres espanholas chegaram ao hotel em uma ambulância, com as sirenes ligadas. Elas foram sacadas do táxi e obrigadas a apresentar o passaporte, em meio a ameaças. “Está uma insegurança absoluta. Tem uma barreira a cada dez metros. Havia crianças segurando facões de um metro”, contou Beatriz Mesa, que trabalha para uma rádio.

Uma jornalista francesa de TV que pediu para não ser identificada foi alvo de um sequestro relâmpago por um grupo que ela afirmou ser formado por ao menos um policial à paisana. Seu passaporte e sua credencial de repórter foram retidos quando as apresentou para passar por uma das inúmeras barreiras montadas por manifestantes pró-regime. Sem a polícia nas ruas desde o fim da semana passada, a população assumiu o controle da circulação de pessoas.

Depois de ouvir pedidos por dinheiro, ela foi chutada e empurrada, antes de ser posta à força em um carro, espremida entre dois homens, na parte de trás. O veículo partiu em alta velocidade, derrubando barreiras até ser atacado por um outro grupo. Finalmente ela teve os documentos devolvidos.

O jornalista da CNN Anderson Cooper e sua equipe levaram socos e chutes ao atravessar um grupo de partidários de Mubarak. Um jornalista britânico da Sky News recebeu socos e pontapés ao tentar evitar que um homem fosse agredido por manifestantes contra o governo. Um repórter da TV Al Arabyia também foi violentamente agredido e estaria na unidade de tratamento intensivo de um hospital egípcio, de acordo com a CNN, assim como outros jornalistas da BBC e de outros meios.

Assim como os militantes, muitos jornalistas foram atingidos por pedradas lançadas de um lado ao outro da batalha na praça e, nesta quinta-feira, estão com curativos na cabeça.

Na manhã desta quinta-feira, jornalistas estão indo para as ruas com cautela e em grupos, evitando algumas zonas mais perigosas. Há informações de que policiais do serviço de inteligência, à paisana, estão circulando pela cidade e até apreendendo câmeras, a fim de evitar a divulgação de imagens dos conflitos.

No hotel onde o repórter iG está hospedado, Ramsés Hilton, a situação não é menos tensa. Os jornalistas estão impedidos de filmar, dos seus quartos, a praça Tahrir, que concentra os protestos, sob a alegação de isso pode pôr a segurança do hotel em risco.

Nesta manhã, inúmeras vezes guardas do estabelecimento subiram às pressas para os quartos de onde havia câmeras operando. Eles também tentaram confiscar a câmera de vídeo de um cinegrafista inglês e pediram que esse tipo de equipamento fosse deixado na recepção para quem fica nos quartos diante da praça.

Na quarta-feira, homens de terno entraram nos quartos de outros três repórteres brasileiros, da "Folha de S.Paulo", "O Globo" e "O Estado de S.Paulo", em busca de equipamento fotográfico com imagens do confronto. A direção do hotel informou que vai expulsar os hóspedes que insistirem em filmar.

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