Repórteres da Rádio Nacional e da TV Brasil só foram liberados após assinarem documento dizendo que deixariam o país imediatamente

Fotógrafos (um deles da agência AP) se protegem durante confrontos no centro do Cairo
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Fotógrafos (um deles da agência AP) se protegem durante confrontos no centro do Cairo

Enviados ao Cairo para a cobertura dos protestos no Egito , o repórter Corban Costa, da Rádio Nacional, e o repórter cinematográfico Gilvan Rocha, da TV Brasil, foram detidos, vendados e tiveram passaportes e equipamentos apreendidos na quarta-feira. Outros jornalistas estrangeiros também foram agredidos e detidos nos arredores da praça Tahrir, onde manifestantes pró e contra o presidente Hosni Mubarak se enfrentam pelo segundo dia.

De acordo com a Agência Brasil, os dois repórteres brasileiros passaram a madrugada desta quinta-feira trancados em uma delegacia do Cairo, em uma sala sem janelas e com apenas duas cadeiras e uma mesa.

“É uma sensação horrível. Não se sabe o que vai acontecer. Em um primeiro momento, achei que seríamos fuzilados porque nos colocaram de frente para um paredão, mas, graças a Deus, isso não aconteceu”, afirmou Corban, que juntamente com Gilvan volta para o Brasil na sexta-feira. "Eu passei 18 horas em uma sala escura e sem janela. Achava que ia ser executado a qualquer momento”, afirmou o jornalista à Rádio Bandeirantes.

Para serem liberados, os repórteres disseram ter sido obrigados a assinar um depoimento em árabe, no qual, segundo a tradução do policial, ambos confirmavam a disposição de deixar imediatamente o Egito rumo ao Brasil. “Tivemos que confiar no que ele [o policial] dizia e assinar o documento”, contou Corban.

No caminho da delegacia para o aeroporto do Cairo, Corban disse que todos os automóveis eram parados em fiscalizações policiais e os documentos dos passageiros, revistados. Os estrangeiros são obrigados a prestar esclarecimentos. De acordo com o repórter, o taxista sugeriu que ele omitisse a informação de que era jornalista.

Outro jornalista brasileiro, Luiz Antônio Araujo, contou ter sido atacado e roubado por um grupo de 50 partidários do presidente Mubarak. Enviado especial do jornal "Zero Hora" e da rede RBS ao Egito, Araujo disse ter sido cercado por um grupo de pessoas munidas de pedras e facas, que roubaram sua câmera digital e sua carteira.

De acordo com o jornalista, o ataque aconteceu nesta quinta-feira, quando ele tentava entrar na praça Tahrir. Araujo contou que soldados do Exército egípcio viram o roubo, mas não esboçaram qualquer reação.

No hotel onde o repórter do iG está hospedado, Ramsés Hilton, a situação não é menos tensa. Os jornalistas estão impedidos de filmar, dos seus quartos, a praça Tahrir, sob a alegação de isso pode pôr a segurança do hotel em risco.

Nesta manhã, inúmeras vezes guardas do estabelecimento subiram às pressas para os quartos de onde havia câmeras operando. Eles também tentaram confiscar a câmera de vídeo de um cinegrafista inglês e pediram que esse tipo de equipamento fosse deixado na recepção para quem fica nos quartos diante da praça.

Na quarta-feira, homens de terno entraram nos quartos de outros três repórteres brasileiros, da "Folha de S.Paulo", "O Globo" e "O Estado de S.Paulo", em busca de equipamento fotográfico com imagens do confronto. A direção do hotel informou que vai expulsar os hóspedes que insistirem em filmar.

Censura e intimidação

O enviado especial da BBC ao Egito Rupert Wingfield-Hayes contou que na quarta-feira foi detido pela polícia secreta egípcia, algemado e vendado. Os policiais prenderam-no por três horas, interrogaram-no e depois o soltaram.

A emissora Reuters Television relatou que integrantes de sua equipe foram agredidos nesta quinta-feira perto da Praça Tahrir, enquanto registravam imagens para uma reportagem sobre bancos e lojas que foram obrigadas a fechar durante os confrontos entre as duas facções. Eles teriam sido agredidos, ameaçados e xingados. Sua câmera, microfone e tripé foram destruídos.

Na quarta-feira, a veterana jornalista Christiane Amanpour, da rede ABC News, contou ter sido cercada por militantes quando tentava entrevistar um ativista pró-Mubarak, e eles teriam gritado: ''vá para o inferno'' e ''nós odiamos os Estados Unidos''.

O repórter da rede CNN, Anderson Cooper, disse que, ao entrar na praça, ele, um produtor e um cinegrafista foram cercados por uma multidão, que começou a socá-los e a tentar e tomar suas câmeras. A rede de TV americana CBS informou que integrantes de sua equipe foram forçados a abandonar a praça Tahrir não sem antes entregar suas câmeras sob a mira de armas por supostos militantes pró-governo.

De acordo com a entidade não-governamental Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), com sede em Nova York, essas agressões estariam diretamente ligadas à tentativas do governo egípcio de intimidar ou censurar jornalistas.

"'O governo egípcio está empregando uma estratégia de eliminar testemunhas de suas ações'', afirmou à agência de notícias Reuters o coordenador de Oriente Médio e África da organização, Mohamed Abdel Dayem. Segundo ele, as ações constituem ''ataques deliberados contra jornalistas realizados por hordas pró-governo''.

Com Agência Brasil, BBC e reportagem de Raphael Gomide, enviado ao Cairo

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