Jornalista francês é morto em Homs, na Síria

TV confirma morte de cinegrafista que fazia viagem autorizada pelo governo; repórter diz que jornalista foi atingido por granada

iG São Paulo |

Um jornalista francês foi morto nesta quarta-feira em Homs, na Síria, durante uma viagem a trabalho autorizada pelo governo. Gilles Jacquier, 43 anos, trabalhava para a emissora France-2 TV como cinegrafista.

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Foto sem data mostra o cinegrafista francês Gilles Jacquier, morto em Homs, na Síria

Segundo um repórter que estava na mesma delegação que Jacquier, um grupo de jornalistas foi atingido por granadas. Ativistas afirmaram que ao menos outros seis civis também foram mortos no ataque, mas esse número não pôde ser confirmado.

"France-2 TV recebeu com muito pesar a notícia da morte do repórter Gilles Jacquier em Homs, na Síria, em circunstânicas que ainda devem ser esclarecidas", informou a emissora em um comunicado.

Um jornalista holandês também foi ferido em Homs, segundo a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Holanda. Ela disse que o homem recebeu tratamento médico em um hospital local e já foi liberado.

As circustâncias da violência desta quarta-feira ainda não foram esclarecidas, mas o repórter Jens Franssen disse que estava entre os 15 jornalistas que foram levados em um tour pela cidade. "A uma certa altura, três ou quatro (granadas) caíram muito perto de nós", afirmou para o canal belga VRT.

O chanceler francês Alain Juppé disse que Jacquier foi morto em "um ataque" em Homs. "Cabe às autoridades sírias garantir a segurança de jornalistas estrangeiros em seu território, e proteger essa liberdade fundamental que é a liberdade de informação", disse em comunicado.

Os EUA lamentaram a morte de Jacquier. Victoria Nuland, porta-voz do Departamento de Estado, disse que o país sentia muito pelo falecimento do jornalista e denunciou o regime sírio por não ter capacidade de oferecer um "ambiente favorável" para o trabalho da imprensa.

Ao longo dos anos, Jacquier fez reportagens em locais violentos, como Afeganistão, Gaza, Congo, Iraque e Iêmen - mais recentemente, para o programa investigativo Enviado Especial.

Thierry Thuillier, diretor de notícias do France Televisions, emissora irmã do France-2, disse que Jacqueir teria sido morto por morteiros ou foguete, lançados em uma série de ataques.

Com a morte do cinegrafista francês, chega em torno de doze o número de jornalistas que perderam a vida nos países árabes desde o início das revoltas populares, em janeiro de 2011, segundo levantamento da agência EFE.

No dia 2 de janeiro, também na Síria, o jornalista Shoukri Ahmed Ratib Abu Bourghoul perdeu a vida após ser baleado em Darya. Além dos dois repórteres, outros dez jornalistas morreram desde o início dos conflitos no mundo árabe: cinco deles na Líbia, dois no Egito, dois no Iêmen e um na Tunísia.

Desde janeiro de 1995, pelo menos 856 jornalistas morreram no mundo, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras.

Violência na Síria

A Síria continua a ter cenas de violência em suas ruas, apesar da presença de uma missão observadora da Liga Árabe, que está em seu território desde o dia 27 de dezembro.

Nesta quarta-feira, segundo o OSDH, quatro civis foram mortos em Kafr Nabouda, na província de Hama, nesta quarta-feira. Enquanto isso, a agência estatal de notícias registrou que quatro soldados foram mortos em um ataque de bomba contra um ônibus do Exército em Yafour.

Na terça-feira, o Conselho de Segurança das Nações Unidas estimou que 400 pessoas foram mortas na Síria desde que a missão da Liga Árabe chegou ao país, o que dá uma média aproximada de 40 mortos por dia.

Susan Rice, embaixadora dos EUA na ONU, disse que a Síria havia acelerado as matanças de manifestantes depois da chegada dos monitores. Rice falou depois que Lynn Pascoe, subsecretária-geral da ONU para questões polítias, relatou ao Conselho de Segurança, em reunião a portas fechadas, qual era a situação do país, além de tratar de outras crises importantes.

Ela disse que os números não incluem as mais de duas dezenas de mortos em um ataque suicida em Damasco na semana passada. "Esse é um indício claro de que o governo da Síria, em vez de aproveitar a oportunidade... para pôr fim à violência e cumprir seu compromisso (com a Liga Árabe), em vez disso está aumentando a violência", disse.

Em entrevista à emissora de TV árabe Al Jazeera, um monitor da Liga Árabe deixou a Síria dizendo ter testemunhado "cenas de horror" que não teve condições de evitar e que a delegação enviada ao país não estava atuando de forma independente.

"Eu me retirei, porque me encontrei na situação de estar servindo ao regime (sírio)", disse o argelino Anwar Malek, ainda vestindo o colete laranja usado pelos monitores da Liga Árabe.

"Como eu estava servindo o regime? Eu estava dando ao regime uma oportunidade maior de continuar sua matança, e eu não podia evitar isso", declarou Malek em entrevista na sede da emissora, no Catar.

A missão de monitoramento da Liga Árabe, com 165 integrantes, começou a operar em 26 de dezembro. Sua tarefa é verificar se a Síria está cumprindo o acordo de pôr fim à repressão aos protestos que já duram dez meses. Segundo a ONU, mais de 5 mil foram mortos desde o começo das manifestações, em março.

Quando lhe perguntaram por que havia deixado a delegação, Malek respondeu: "A coisa mais importante é ter sentimentos humanos, de humanidade. Eu passei mais de 15 dias em Homs... Vi cenas de horror, corpos queimados... Não posso deixar minha humanidade para trás nesse tipo de situação."

Malek criticou o líder da missão da Liga Árabe, o general sudanês Mohammed al-Dabi, cuja adequação ao cargo vem sendo questionada por entidades de defesa dos direitos humanos preocupadas com seu papel no passado no conflito de Darfur, no Sudão

"O chefe da missão queria mudar o curso (do trabalho) para não irritar as autoridades sírias ou qualquer outra parte", disse Malek, que já havia chamado a atenção por comentários críticos postados no Facebook enquanto estava na Síria.

Aparição de Assad

Assad, que enfrenta protestos há dez meses contra seu governo, saudou milhares de simpatizantes entusiasmados em uma praça da capital , Damasco, apenas um dia após fazer um pronunciamento público rompendo seis meses de silêncio.

AP
Presidente da Síria, Bashar al-Assad (C), discursa para partidários em comício na praça central de Damasco

A multidão gritava "Shabiha para sempre, para seus olhos, Assad", em referência às milícias leais ao governo que conquistaram reputação por serem temíveis ao reprimir os protestos contra Assad.

A mulher de Assad, Asma, e os dois filhos se juntaram a ele em uma aparição-surpresa na praça central de Umayyad. "Eu pertenço a esta rua", disse Assad, acrescentando que a Síria enfrentava conspiradores estrangeiros. "Daremos um fim a eles e aos seus planos. Venceremos, sem qualquer dúvida."

Em seu pronunciamento de terça, Assad anunciou um referendo sobre a Constituição do país, após culpar uma “conspiração estrangeira” pelos dez meses de protestos. Em discurso transmitido pela TV, ele descartou renunciar e disse que responderá às ameaças com “mão de ferro”.

“A conspiração está clara para todos”, afirmou. “Nossa prioridade é retomar a segurança e isso só pode acontecer se acertarmos os terroristas com mão de ferro. Não vamos ser lenientes com aqueles que trabalham com os estrangeiros."

Com AP, BBC e Reuters

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