Itália teme chegada em massa de imigrantes da aliada Líbia

Desde 2008, a Itália se tonou o principal sócio comercial do país do norte da África, do qual recebe um terço de seu petróleo

iG São Paulo |

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, convocou nesta terça-feira os ministros de seu gabinete para analisar a crise na Líbia, ante a ameaça de uma chegada em massa de imigrantes clandestinos e das repercussões para a economia da Itália pelo enorme volume de negócios da antiga colônia. As crises no Egito e Tunísia também vêm estimulanda onda imigratórias para o país.

A reunião deve ter as presenças dos ministros da Defesa, Relações Exteriores, Interior, Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Emprego, além de secretários Estado. Todos os aspectos da crise líbia serão abordados", afirmou à AFP uma fonte do governo.

AP
Placa contra o governo líbio é vista em frente de corte judicial em Benghazi, Líbia
A Itália, principal sócio comercial da Líbia, teme que "a situação se degenere com consequências para a estabilidade política e para a integridade territorial desse país do norte da África", afirmou a mesma fonte.

O chefe de governo italiano e seus ministros examinarão especialmente os aspectos econômicos da crise, assim como o efeito sobre os fluxos migratórios.

As autoridades italianas temem uma onda de imigrantes procedentes dessa região e aumentaram o nível de alerta nas bases militares. Além disso, enviaram duas fragatas ao sul da Sicília, a 340 quilômetros da Líbia.

Petrodólares

Do UniCredit a Finmeccanica, passando pela ENI e a Juventus de Turim, o regime de Kadafi investiu os "petrodólares" nas empresas da Itália, que obteve em troca petróleo líbio e contratos valiosos no país do norte da África.

Os laços econômicos entre Itália e Líbia foram reforçados desde agosto de 2008 com a assinatura de um acordo histórico com o qual Roma se comprometeu a pagar US$ 5 bilhões em 25 anos como indenização para cicatrizar as feridas do colonialismo italiano (1911-1942). O acordo permitiu à Itália assinar muitos contratos e ser beneficiada por uma "chuva de petrodólares".

O chamado "pacto de amizade" incluiu um pedido de desculpas solene da Itália pelo período da colonização, que deixou 100 mil mortos em uma população de 800 mil no país rico em petróleo. Graças ao acordo, a Líbia, que já investia em empresas italianas e chegou a possuir 10% da Fiat, que depois cedeu, reforçou a presença em grandes grupos italianos.

Segundo o jornal econômico Il Sole 24 Ore, o valor das ações que a Líbia possui na Itália chega 3,6 bilhões de euros (US$ 4,9 bilhões). Um sintoma da relação estreita é a preocupação que a violência na Líbia causa, com a queda de 3,9% da Bolsa de Milão na segunda-feira.

O maior investimento da Líbia na Itália é o UniCredit. No fim de 2008, em plena crise financeira mundial, o Banco Central líbio adquiriu 4% do maior banco italiano, que passava por problemas graves.

Com a entrada da Libyan Investment Authority (LIA) ano passado, a Líbia se tornou o maior acionista do UniCredit (com 7,582%), atualmente um dos maiores bancos da Europa. A LIA controla desde janeiro 2,01% do grupo aeronáutico e de defesa Finmeccanica, controlado pelo Estado italiano.

A Líbia tem quase 0,5% da empresa de petróleo ENI. O governo do coronel Kadafi informou em 2008 que estava interessado em adquirir de 5% a 10% da ENI, mas o negócio não foi concretizado.

Através do Libyan Arab Foreign Investment Company, Trípoli é proprietária de 7,5% do clube de futebol Juventus de Turim, um dos maiores da Itália. A Líbia já anunciou interesse no grupo de energia Enel e na gigante das comunicações Telecom Italia, mas nenhum acordo foi concretizado.

Em troca de tudo isso, a Itália recebe um terço do petróleo da Líbia, onde a ENI é a maior produtora estrangeira. Muitas empresas italianas assinaram contratos de valores altos para a construção de estradas, universidades, ferrovias e hotéis, o que tem beneficiado a Itália com uma chuva de "petrodólares".

A antiga potência colonial é o maior parceiro comercial da Líbia: em 2009 a Itália ocupava o primeiro lugar no destino das exportações líbias (20%) e era, ao mesmo tempo, o principal exportador para o país do Norte da África (17,5%). Um total de 180 empresas italianas atuam na Líbia, onde moram 1,5 mil italianos.

Redução do fluxo de gás

O fluxo de gás entre Líbia e a Itália por meio do gasoduto Greenstream foi "fortemente reduzido" pela decisão da companhia titular, a italiana Eni, diante dos graves distúrbios do país.

Como informaram nesta terça-feira fontes do Ministério de Indústria da Itália, Eni decidiu "esvaziar" o gasoduto em um "procedimento" habitual diante da situação conflito na Líbia pela revolta popular contra Kadafi.

Esse procedimento, explicam as mesmas fontes, deve-se a motivos de segurança no controle do gasoduto agora que a Eni está repatriando à Itália alguns de seus trabalhadores e seus familiares. A companhia aérea italiana Alitalia fretou nesta terça-feira dois voos especiais.

O gás que circula entre Líbia e Itália é distribuído pelo Greenstream, um gasoduto de 520 quilômetros de comprimento que cruza o Mar Mediterrâneo em profundidades de até 1.127 metros.

Greenstream, que transporta de 8 bilhões de metros cúbicos de gás natural ao ano, faz parte do projeto Western Libyan Gás e compreende a estação de compressão de Mellitah, no litoral líbio, o gasoduto em si e o terminal de recepção na ilha italiana da Sicília.

*Com AFP e EFE

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