Islâmicos do Egito pedem a rivais que aceitem resultados de eleição

Resultados preliminares indicam que Irmandade Muçulmana e partido salafista conquistaram 60% dos votos

iG São Paulo |

A Irmandade Muçulmana do Egito pediu neste sábado aos seus rivais que aceitem a vontade do povo após uma votação no primeiro turno ter colocado o partido a caminho da maioria dos assentos no país no primeiro Parlamento eleito livremente em seis décadas.

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AP
Manifestantes carregam caixões de mentira para lembrar àqueles mortos nos protestos contra a junta militar no Egito (2/12)


Resultados preliminares mostraram que os rivais liberais da Irmandade poderiam ficar em terceiro lugar atrás dos salafistas islâmicos ultra-conservadores, espelhando a tendência em outros países árabes onde os sistemas políticos se abriram depois de revoltas populares.

A apuração dos primeiros resultados das eleições mostra que a soma dos votos conseguidos pelo Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade Muçulmana, e a formação salafista (fundamentalistas islâmicos) Al-Nour chega a 60%.

Saiba mais: Para Irmandade, votação em peso justifica controle civil no Egito

O porta-voz da Comissão Suprema Eleitoral, Ali Hassan, afirmou à Agência Efe que o PLJ conseguiu, até o momento, aproximadamente 40% dos votos, enquanto o Al Nour alcançou cerca de 20% dos sufrágios emitidos nesta primeira fase da eleição, que será completada com outras duas rodadas até o mês de janeiro.

Em terceiro lugar aparece a coalizão Bloco Egípcio, formado por três partidos liberais e esquerdistas, que somaram 15% dos votos, segundo a mesma fonte.

O partido islamita moderado Wasat (uma cisão da Irmandade Muçulmana) ficou com a quarta posição, atingindo 6%. Na sequência, aparece o partido mais antigo do Egito, o liberal Wafd, com 5%; a aliança de movimentos juvenis A Revolução Continua, com 3%, e o centrista partido da Justiça, com apenas 1%.

A Irmandade é o grupo político do Egito melhor organizado e mais popular entre os pobres por seu longo histórico de trabalhos de caridade. Proibido, mas tolerado no governo do ex-presidente Hosni Mubarak, deposto em 11 de fevereiro por uma revolta, a Irmandade agora quer um papel na construção do futuro do país.

Rivais acusaram o PLJ de usar doações de alimentos baratos e medicamentos para influenciar os eleitores e de quebrar regras eleitorais com boca de urna.

A Irmandade disse aos críticos para que recuassem e aceitassem o resultado. "Apelamos a todos, e todos aqueles que se associam com a democracia, a respeitar a vontade do povo e aceitar a sua escolha", disse o grupo em um comunicado após a votação no primeiro turno, que atraiu uma participação oficial de 62 por cento.

"Aqueles que não foram bem sucedidos... devem trabalhar duro para servir as pessoas para ganhar o seu apoio na próxima vez", disse a Irmandade.

O mundo está assistindo a eleição para indicações sobre o futuro no Egito, o país árabe mais populoso e até então visto como um firme aliado dos EUA, comprometido a preservar o seu tratado de paz com Israel e lutar contra a militância islâmica.

Adversários políticos da Irmandade dizem que o grupo visa impor a sharia (lei islâmica) em um país que também tem uma grande minoria cristã.

O movimento insiste que vai perseguir uma agenda moderada se ganhar poder e não fazer nada para prejudicar uma economia dependente dos milhões de turistas ocidentais.

Porém, o partido Al-Nour, salafista e radical que deve garantir o segundo lugar, tem uma interpretação fechada do Islã e acha que a democracia deve estar submetida ao Corão. O porta-voz do partido, Yousseri Hamad, afirmou que seu partido considera a lei de Deus a única lei.

“Na terra do Islã, eu não posso deixar as pessoas decidirem o que é permitido e o que é proibido. É Deus que dá essas respostas em relação ao que é certo e ao que é errado.”

Israel "perturbado"

O ministro da Defesa de Israel afirmou nesse sábado que os primeiros resultados dessa primeira fase das eleições egípcias são "muito, muito perturbadores".

Ehud Barak disse esperar que o primeiro Parlamento egípcio pós-Mubarak respeite os tratados internacionais, incluindo o de paz com Israel estabelecido em 1979 em Camp David.

O principal medo de Israel é que a Irmandade Muçulmana, que tem fortes laços com o Hamas, descarte o acordo de paz.

O porta-voz da chancelaria israelense, Lior Ben Dor, disse que Israel não está surpresa que a Irmandade Muçulmana tenha saído na frente nas eleições e está convencido que o tratado de paz permanecerá intacto. "Nós respeitamos os resultados das eleições no Egito. Essa foi a escolha do povo egípcio."

Em comunicado, a autoridade máxima do Hamas, Moussa Abu Marzouk disse que "o povo egípcio depositaram sua confiança nos islâmicos. Nós acreditamos que o apoio egípcio no futuro será maior para a nossa causa".

As eleições parlamentares no Egito, que tiveram início nesta segunda e terça-feira, terão três etapas para eleger a Câmara Baixa do Parlamento. Essa fase deverá terminar em janeiro, quando então, até março, outras três etapas se encarreguem de escolher os membros da Câmara Alta.

Ainda não se sabe ao certo qual será o grau de autonomia que terá esse novo Parlamento eleito, uma vez que a junta militar, que está no comando desde a renúncia de Mubarak, continua no poder.

Na semana passada, devido aos protestos no país, que deixaram mais de 40 mortos e centenas de feridos em confrontos com a polícia, os militares decidiram trocar o gabinete, aceitando a renúncia de Essam Sharaf e colocando em seu lugar Kamal Ganzouri.

Com AP, EFE e Reuters

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