Intérprete de Mubarak defende renúncia imediata de líder egípcio

Tradutora do presidente há quatro anos, Miriam Makki Hormedo uniu-se aos manifestantes da praça Tahrir por ver que 'país está mal'

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Miriam Makki Hormedo foi nos últimos quatro anos intérprete do presidente do Egito, Hosni Mubarak, e de sua mulher, Suzanne, para o espanhol. Na quarta-feira 2 de fevereiro, dia da batalha entre os grupos contra e pró-regime , porém, Miriam passou a tarde ao lado dos manifestantes que pedem a democracia e a saída de Mubarak na praça Tahrir, que virou epicentro da mobilização popular no Cairo.

“Estava lá, recebendo pedras e coquetéis molotov. Tinha certeza de que não sobreviveríamos, porque estávamos ali como ratos em uma ratoeira, cercados. Embora não me deixassem me aproximar do front, porque sou mulher, foi perigosíssimo, horrível. Fiquei de mãos atadas, sem poder fazer nada. Antes, porém, estava em casa e fui à praça porque não me parecia ético ficar ali, enquanto toda a gente estava na Tahrir”, afirmou ao iG .

AP
Manifestantes penduram charge com o presidente egípcio, Hosni Mubarak, do lado de fora do Parlamento no Cairo
Para Miriam, que é professora universitária e tem também nacionalidade espanhola, “uma coisa é ser tradutora do presidente, uma relação profissional; outra é ter uma opinião política. Analiso e vejo que o país está mal”, disse.

“Não é possível que o governo tenha visto uma situação daquelas (da praça) e não tenha resgatado as pessoas. Apoio os manifestantes que não aceitam diálogo até que Mubarak se vá do poder. Ele e todos os que o cercam. Ontem (terça-feira), o vice-presidente voltou a usar um tom ameaçador, dizendo que os opositores não aguentariam e deveriam sair da praça. Não sei a que se referia”, afirmou.

Pessoalmente, presidente é ‘amável, afável e simples’

Segundo ela, Mubarak fala árabe e inglês e, pessoalmente, “é amável, afável e simples”, como sua mulher – filha de mãe inglesa, Suzanne é considerada “liberal” por Miriam. “O presidente vem do campo, então sabe falar com as pessoas simples. Não é prepotente e arrogante como aqueles que o cercam.”

Miriam foi inicialmente chamada para ser a intérprete da primeira-dama. “Ela queria alguém que não usasse véu, para projetar uma imagem mais moderna, aberta e europeia. Mas, depois, passei a trabalhar com o presidente.”

Na opinião da tradutora de Mubarak, a primeira-dama fez coisas boas para as mulheres em um país machista. “Em 2000, aprovou o direito de as mulheres se divorciarem, o que não era possível antes. É uma figura mais decorativa, mas, ainda assim, cuida de questões relativas à mulher, à família e às crianças. Lançou um programa interessante de bibliotecas móveis. Fez bastantes coisas, mas isso é relativo, porque são 30 anos”, afirmou, referindo ao tempo em que Mubarak está no poder.

De acordo com Miriam, um dos fracassos da gestão do presidente foi justamente a educação. “Estudei em colégio público, mas hoje a educação está destruída. Deixei de lecionar na universidade, muito a contragosto, porque ganhava US$ 260 por mês e preciso comer. Para os jovens, só restam as escolas particulares estrangeiras. Meu filho está no Liceu francês, pelo qual pago 5.500 euros por ano. Meu outro filho está na universidade na Holanda. E conseguimos isso porque meu marido trabalha para uma multinacional de turismo e podemos nos dar ao luxo de viver bem e ainda economizar, mas essa não é a realidade nem de 5% da população egípcia”, explicou.

Uma demonstração do tipo de regime político fechado no Egito é o fato de que Miriam não tem nenhuma foto ao lado do presidente nem com a primeira-dama em eventos oficiais em que atuou. Retratos não eram permitidos.

“Não somos autorizados nem a incluir o trabalho de tradutora no currículo, porque dizem que se trata de um segredo de Estado e questão de segurança nacional,” disse em referência ao fato de que ouvia conversas sobre assuntos estratégicos com líderes estrangeiros.

Miriam defende a saída imediata de Mubarak e a remoção do regime. “Compreendo perfeitamente os jovens. Não acredito em ninguém do governo. São caras antigas. O primeiro-ministro disse que tudo estava sob controle, mas não havia polícia na rua, a população era obrigada a fazer vigília para guardar suas casas, quase nos matam na praça. De que controle estava falando? As pessoas estão fartas.”

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