Hospitais improvisados lutam para atender feridos no Cairo

Médicos voluntários trabalham nos arredores da Praça Tahrir em meio aos confrontos entre manifestantes e policiais

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O médico Ahmad Saad largou o emprego para ajudar no pronto-socorro improvisado
Nas ruas ao redor da praça Tahrir, no centro do Cairo, o cheiro de lixo e esgoto é nauseante, mas é entre ruelas e becos que hospitais improvisados funcionam para atender as vítimas do novo levante popular que tomou conta da capital do Egito.

A multidão se aglomera na rua Mohamed Mahmoud, uma das vias que desembocam na Tahrir. Jovens desafiam as forças de segurança e tentam avançar para chegar ao Ministério do Interior, temido nos tempos do ex-presidente Hosni Mubarak por sua repressão e polícia secreta.

Os manifestantes gritam palavras de ordem contra a junta militar que controla o país e exigem sua renúncia. A polícia atira bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha; os jovens revidam com coquetéis molotovs e pedras. A rua parece uma zona de guerra. Nos becos ao lado da rua Mohamed Mahmoud, um dos nove hospitais improvisados funciona em uma mesquita. O som de motocicletas carregando feridos toma conta do lugar. Pessoas correm desesperadas carregando amigos, intoxicados pelo gás ou feridos por balas de borracha.

Seguranças mantêm os mais revoltados longe da entrada da mesquita, enquanto voluntários carregando garrafas com soro fisiológico ficam na porta para atender os casos menos graves, como ardências nos olhos por conta do gás lacrimogêneo.

Dentro da mesquita, o hospital improvisado está movimentado. Médicos, enfermeiras e estudantes correm para ajudar as vítimas. Em cada canto, caixas com medicamentos doados por cidadãos ou ONGs completam o cenário. Feridos que já foram atendidos ficam deitados no chão.

Os tapetes da mesquita, antes usados para receber os fiéis paras as rezas diárias foram retirados. Manchas de sangue podem ser vistas em alguns lugares do piso frio. A maioria dos casos são de inalação do gás lacrimogêneo que, segundo médicos, pode ser fatal se a vítima não for socorrida em tempo.

Faltando aulas

Poucos são médicos; a maioria são estudantes de medicina supervisionados pelos profissionais que, visivelmente nervosos e sobrecarregados, orientam aos gritos onde deve ficar cada tipo de atendimento.

Atuando como enfermeira, a estudante de farmácia Eman Abdel Hade tenta aliviar a dor dos pacientes mais exaltados que tiveram cortes devido às balas de borracha. Ela faz curativos em um dos feridos enquanto fala com a BBC Brasil.

Ela conta que sua função é fazer o primeiro atendimento, cuidar de pequenos ferimentos, pegar os remédios requisitados pelos médicos e auxiliá-los. "Voluntariei-me porque os hospitais já não davam conta de tantos feridos e achei que era uma ótima maneira de fazer minha parte na revolução", diz Eman.

Estudante do terceiro ano de Farmácia na Universidade do Cairo, a egípcia conta que por diversas vezes o hospital ficou ameaçado de ser invadido pela polícia, já que a poucos metros dali fica o campo de batalha entre manifestantes e forças de segurança. "Na segunda, eles (polícia) disparam bombas de gás na entrada do beco, em frente à mesquita, e tivemos que sair pelo outro lado carregando os pacientes", conta.

Ela revela que falta a algumas das aulas para poder ajudar no hospital e fica várias horas trabalhando como enfermeira.  "Só vou às aulas mais importantes e depois vou para casa para descansar por uma ou duas horas. Aí volto para cá e fico até eu cansar ou ter alguma outra aula", relata.

Os pais, segundo Eman, se opuseram no primeiro dia que ela veio voluntariar. "Mas depois ficaram orgulhosos porque estou ajudando", diz.

A conversa é interrompida por gritos de um homem que chega carregado às pressas. A perna esquerda sangra após ser atingida por uma bala de borracha, segundo um dos médicos.

'Criminosos'

O médico Ahmad Saad, que trabalha no hospital Ahmad Mahd, largou emprego para ajudar no pronto-socorro improvisado perto da rua Mohamed Mahmoud.

Com olhar cansado, ele conta à BBC Brasil que desde o dia 19 de novembro, quando os confrontos começaram no Cairo, o hospital tem recebido entre 300 a 400 casos por dia. "O número de feridos é muito maior do que está sendo divulgado", garante.

Em todo o Egito, incluindo a capital, Cairo, e a segunda maior cidade, Alexandria, os confrontos já deixaram ao menos 35 mortos e mais de 2.500 feridos, segundo ativistas e dados do governo.

Saad diz que os casos mais graves são os relacionados ao gás lacrimogêneo, que exige uma ação rápida dos médicos. "Com exceção das balas que atingem os olhos, o mais grave é inalação de gás", diz.

Ele acusa o governo de lançar outros tipos de gás lacrimogêneo, muito mais perigosos que o produto normalmente usado. "Há três tipos de gás. O normal causa irritação na pele, mas o mais perigoso ataca o sistema nervoso central", afirma.

"Já vi casos aqui em que os pacientes tinham suas peles cobertas por pequenas partículas que causam irritação. Esse tipo também ataca as mucosas como nariz e boca e causam muita dor. A outra é ainda mais perigosa, pois é muito tóxica para os pulmões e ataca o sistema nervoso."

Saad salienta que alguns manifestantes que chegaram ao hospital tinham sintomas ligados a este tipo de gás e que podem desenvolver câncer entre 2 a 5 anos. Ele afirma, no entanto, que amostras foram coletadas e ainda estão sendo testadas.

Ativistas acusaram o governo de usar bombas de gás mais contendo elementos químicos nocivos.
O governo negou as acusações e declarou que só usava bombas de gás normais.

Saad se despede quando novos pacientes chegam, vindos dos confrontos com a polícia egípcia. O cheiro de gás pode ser sentido de dentro do hospital.

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