França propõe criação de zona humanitária na Síria

Chanceler diz que intervenção militar está fora de cogitação e reconheceu Conselho Nacional Sírio como oposição legítima

iG São Paulo |

A França propôs nesta quarta-feira a criação de uma "zona de segurança para proteger os civis" na Síria, no que marca a primeira vez que uma potência ocidental sugere uma intervenção estrangeira no país, tomado há oito meses por enormes protestos pela renúncia do presidente Bashar al-Assad.

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AP
Chanceler francês Alain Juppé (dir.) e Burhan Ghalioun, líder do Conselho Nacional Sírio concedem coletiva

O ministro das Relações Exteriores francês, Alain Juppé, também descreveu o Conselho Nacional Sírio (CNS), formado pela oposição no exílio, como "o parceiro legítimo com o qual queremos trabalhar". Esse é o mais importante aval dado ao grupo até o momento.

Na entrevista coletiva depois do encontro com o presidente do CNS, Juppé descartou uma intervenção militar para criar uma "zona tampão" no norte da Síria, mas sugeriu que uma "zona segura" poderia ser factível para proteger os civis e enviar ajuda humanitária.

"Se for possível haver uma dimensão humanitária para uma zona segura para a proteção de civis, então essa é uma questão a ser estudada pela União Europeia de um lado e pela Liga Árabe do outro", disse Juppé.

Outros detalhes da proposta não foram imediatamente divulgados. Até agora, os países ocidentais impuseram sanções econômicas à Síria , mas não demonstram a intenção de intervir diretamente no país - ao contrário do que aconteceu na Líbia , onde uma ação militar da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) foi decisiva para que rebeldes locais derrubassem esse ano o antigo regime de Muamar Kadafi.

O líder do CNS, Burhan Ghalioun, interpretou os comentários de Juppé como uma vitória. "Nós não podíamos receber nenhum reconhecimento maior ou mais importante do que o ministro disse. Nós fomos reconhecidos", afirmou.

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"Os franceses tentaram se colocar numa posição de liderança, primeiro na Líbia, e agora aqui", disse Hayat Alvi, conferencista de questões de segurança nacional no Colégio de Guerra Naval dos EUA. "A intervenção militar na Síria é uma perspectiva muito diferente daquela da Líbia, mas bem que poderemos ver um aumento nas ações clandestinas."

A Liga Árabe suspendeu a Síria dos seus quadros devido ao conflito, num dos mais importantes sinais do isolamento de Assad, mas a entidade também demonstra pouco interesse em uma intervenção internacional.

O Reino Unido disse estar aberto a discutir a proposta francesa, e reiterou seu apelo para que a Síria pare de violar os direitos humanos.

Em outra reprimenda vinda de países vizinhos, o presidente da Turquia, Abdullah Gul, disse que a violência na Síria pode lançar o mundo islâmico "nas trevas da Idade Média". Na véspera, o primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, havia criticado a "covardia" de Assad , seu ex-aliado. Erdogan citou o destino de outros ditadores derrotados, de Adolf Hitler e Benito Mussolini a Kadafi, e pediu de forma muito direta a Assad que renuncie.

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Em Bruxelas, um diplomata disse que os governos da União Europeia estão cogitando impor novas sanções à Síria, incluindo a proibição de investimentos em bancos do país, de transações com seus títulos públicos e a venda de apólices de seguros a órgãos estatais.

Violência

As forças sírias mataram nesta quarta dois moradores de uma região agrícola que tem servido como local de abastecimento dos desertores e apertou o cerco em um subúrbio de Damasco, onde tropas legalistas foram atacadas, segundo informaram a Reuters ativistas e moradores.

Um grupo armado entrou na cidade de Hayaleen e rendeu seus moradores. As tropas, armadas com metralhadoras guardadas em tanques e caminhões, e abriram fogo contra várias casas depois de prender cerca de cem pessoas, disseram testemunhas.

"Vinte e cinco veículos entraram no vilarejo de Zor al-Kaada, que só tem 700 habitantes. Treze foram presos", Adnan, um fazendeiro, afirmou por telefone a Reuters.

A região, localizada a noroeste de Hama, tem sido uma rota de tráfego dos desertores que operam na província de Idlib, perto da Turquia, informaram ativistas.

É impossível confirmar os eventos que ocorrem no país de forma independente, porque as autoridades, as quais garantem que as revoltas são fruto de ações de grupos terroristas, barraram a maior parte da mídia na Síria.

Centenas de soldados desertaram do Exército sírio desde o início da repressão. Alguns formaram uma tropa rebelde unidos fracamente pelo Exército da Síria Livre, organizado por militares na Turquia.

Com Reuters e AP

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