Forças sírias atiram contra joelhos de crianças, diz ONU

Segundo Navi Pillay, crianças são presas em condições desumanas e sem acesso a medicamentos

iG São Paulo |

A alta comissária da Organização das Nações Unidas (ONU), Navi Pillay, disse que as forças sírias estão deliberadamente e sistematicamente alvejando crianças. Em entrevista à BBC, Navi disse que crianças levam tiros no joelho e são presas em condições desumanas pelo governo de Bashar Al-Assad, alvo de uma revolta popular há mais de um ano .

"Esse é um dos desdobramentos mais chocantes da reação do governo sírio aos protestos (antigoverno)", disse Navi. "Eles (forças de segurança) estão indo atrás das crianças. Temos provas, obtidas pela comissão de investigação, após falar com pais e vítimas, de que crianças levaram tiros no joelho, foram presas em condições desumanas, sem acesso a medicamentos, sendo alvo de brutalidade. É horrível."

Leia também: Violência na Síria deixou mais de 9 mil mortos, diz ONU

AP
Hana, 12 anos, faz sinal de vitoria ao lado de sua irmã, Eva, 13 anos, durante recuperação de ataque das forças sírias em Idlib (14/03)

A alta comissária disse que a ONU não está tendo acesso a muitas dessas crianças e que a alegação síria, de que há "terroristas" entre os opositores do governo "não é desculpa para atacar áreas civis densamente povoadas". "Isso é crime sob a lei internacional", afirmou.

A ONU estima que a repressão à revolta antigoverno tenham deixado cerca de 9 mil mortos desde março de 2011.Questionada sobre se o presidente sírio tinha responsabilidade nas matanças, Navi Pillay afirmou ter "provas suficientes apontando para o fato de que muitos desses atos cometidos pelas forças de segurança devem ter recebido a aprovação e a cumplicidade no mais alto nível de governo. Assad poderia simplesmente ordenar o fim das matanças".

Ela afirmou também que o presidente sírio terá de "enfrentar a Justiça" - em referência ao Tribunal Penal Internacional - por conta das denúncias de abusos no país.

Reunião

A denúncia é feita paralelamente a uma reunião da Liga Árabe em Bagdá para debater o plano de paz e à ofensiva das forças sírias contra Qalaat al-Madiq, na província de Hama.

Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, tropas do governo atacaram o bastião rebelde e vilarejos no entorno depois de uma ofensiva de duas semanas contra a província.

Segundo um ativista, milhares fugiram da área, inclusive os rebeldes, que não têm armamento suficiente para lutar contra as forças de Assad.  As denúncias, no entanto, não puderam ser confirmadas de forma independente devido às restrições que o governo sírio impõe à entrada de jornalistas estrangeiros.

Paralelamente, as forças sírias continuam com a ofensiva contra Homs, a terceira maior cidade do país, de onde opositores se retiraram.

Plano de paz

O plano de paz do enviado especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, foi aceito por Damasco, mas o sinal verde ainda é visto com desconfiança pela oposição. 

Nesta quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi, disse que Annan deve visitar Teerã na semana que vem para abordar a situação da Síria.

O plano proposto por Annan prevê um cessar-fogo de todas as partes, supervisionado pela ONU, o fornecimento de assistência humanitária às áreas afetadas pelos confrontos, a liberdade de atuação dos jornalistas na Síria, a liberdade de manifestação dos sírios e o início de um processo político que leve em conta as aspirações do povo sírio.

Para Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas, a aceitação é "um importante passo inicial para trazer o fim da violência". Ele ressaltou que a implementação do plano, na prática, é fundamental para lidar com a situação alarmante no país, que vive intensos confrontos há mais de um ano.

Mas críticos dizem que falta um prazo para que as medidas sejam efetivadas e se queixam da ausência de uma exigência para que Assad renuncie ao poder - a principal demanda dos manifestantes desde março do ano passado.

Ao mesmo tempo, diversos grupos dissidentes se reuniram em Istambul, na Turquia, e concordaram em reconhecer o Conselho Nacional Sírio, de oposição ao governo, como representante do povo sírio.

No encontro, os opositores disseram não acreditar na intenção do governo sírio de cumprir o plano de paz da ONU, e se negaram a aceitar qualquer proposta que permita que Assad permaneça no poder.

Com BBC

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