Forças líbias impedem avanço rebelde para reduto de Kadafi

Sirte, onde nasceu o líder líbio, é bombardeada por coalizão e palco de confrontos entre oposição e forças pró-regime

iG São Paulo |

O avanço rebelde em direção a oeste da Líbia foi repelido nesta segunda-feira por uma barreira de tanques e fogo de artilharia de forças que guardam Sirte, um dos mais cruciais bastiões de apoio ao coronel Muamar Kadafi e fundamental para alcançar a capital do país, Trípoli.

Após um rápido avanço no domingo, quando tomaram em um só dia quatro cidades - Ajdabiya, Ras Lanuf, El Aguila e Ben Jawad -, os rebeldes viram seu caminho interrompido por forte resistência em Nafauliya e no Vale Vermelho, apesar de na madrugada desta segunda-feira terem considerado que tomariam o controle de Sirte após intensos bombardeios das forças da coalizão internacional. Com o domínio de Ras Lanuf e Brega, os rebeldes controlam todos os principais terminais de petróleo no leste da Líbia.

“O regime ainda supera muito as forças militares da oposição", disse o general Carter F. Ham, o principal americano na operação da coalizão, em uma mensagem de email enviada nesta segunda-feira. “O regime possui a capacidade de se recuperar rapidamente. O poder aéreo da coalizão é o principal motivo para isso não ter acontecido."

A análise é feita enquanto são levantadas cada vez mais questões sobre os objetivos e a duração da intervenção militar no país do norte da África.

Em Ben Jawad, o ponto mais ocidental sob controle rebelde, um miliciano advertiu nesta segunda-feira aos veículos civis que passavam em direção a Nafauliya, a cerca de 15 quilômetros, que não continuassem porque havia combates.

"Não vai ser fácil controlar Sirte", afirmou o general Hamdi Hassi, um dos líderes rebeldes na cidade de Bin Jawad, em entrevista à agência AP. "Mas com os ataques da ONU aos armamentos pesados do governo, agora estamos lutando com as mesmas armas."

O tráfego de caminhonetes de rebeldes equipadas com lança-foguetes, fuzis "kalashnikov" e peças de artilharia era incessante e levantava uma intensa poeira no caminho situado em meio ao nada, onde no final se vislumbravam as primeiras casas de Ben Jawad.

"As informações são bastante confusas", disse um rebelde que não quis se identificar. "Nesta manhã nos disseram que Sirte estava liberada. Mas parece que em Nafauliya e no Vale Vermelho há combates porque algumas forças leais a Kadafi não querem se render."

Ao longe se escutava o barulho de tiros e se observava uma coluna de fumaça causada pelo impacto da artilharia de Kadafi. Alguns veículos que voltavam de Nafauliya transportavam rebeldes feridos na batalha, um deles com um tiro em uma mão.

Mas também havia famílias que fugiam de Ben Jawad pelo temor de que as forças de Kadafi voltassem ao povoado, como um casal que viajava com seus cinco filhos pequenos após ter retornado no domingo à noite de Ras Lanuf, como relatou o pai visivelmente atemorizado.

Na metade do caminho se encontrava Mahmoud Ez, de 36 anos e natural de Ajdabiya, que afirmou à EFE que seu objetivo era chegar a Sirte porque seu pai, sua esposa, sua filha e três outros membros de sua família haviam sido sequestrados pelos partidários de Kadafi. "Se os levaram a Sirte, vou buscá-los", afirmou.

Um pouco mais adiante de onde estavam os rebeldes está Ben Jawad, um município de 20 mil habitantes com casas baixas e ruas sem asfalto, que nesta segunda-feira parecia uma cidade fantasma.

Na porta de sua casa se encontrava descalço Abdelsalem Saleh Gabaili, técnico de uma companhia petrolífera que explicou que "todos que tinham carro se deslocaram para o deserto porque eram beduínos e tinham medo de que as forças de Kadafi voltassem".

Gabaili, vestido com uma galabiya (túnica), disse que a maior parte dos moradores de Ben Jawad pertence ao clã dos Gabaili, que apoiam os "shabab", jovens rebeldes. "Não fomos também porque não temos carro", disse Gabaili, que lamentou a morte por disparos de cinco membros de sua família e o impacto de foguetes na cidade, palco de violentos combates entre 5 e 6 de março.

Reduto de Kadafi

Sede de prédios do governo e de grandes depósitos de armamento, Sirte está localizada a cerca de 450 quilômetros ao leste da capital, Trípoli. Cidade natal de Kadafi, Sirte era escolhida pelo líder líbio para receber visitantes internacionais em um majestoso centro de convenções.

Além de Sirte, no domingo a coalizão também bombardeou Trípoli. A coalizão deu início aos ataques em 19 de março, dois dias após a ONU aprovar a criação de uma zona de exclusão aérea para proteger os civis do país.

O Estado-Maior do Exército francês anunciou nesta segunda-feira que aviões de combate franceses bombardearam na noite de domingo um "centro de comando" do Exército líbio situado "a 10 quilômetros ao sul" de Trípoli. Os bombardeios foram efetuados por caças do tipo Rafale, que decolaram do porta-aviões Charles de Gaulle, que navega ao sul da Itália, disse o coronel Thierry Burkhard, porta-voz do Estado-Maior.

Também nesta segunda-feira, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, afirmam que "Kadafi deve partir imediatamente" e pedem a seus aliados que "o deixem antes que seja tarde demais", em uma declaração conjunta divulgada na véspera da reunião em Londres do "Grupo de Contato" sobre a Líbia.

Sarkozy e Cameron pedem também que o Conselho Nacional de Transição (CNT) líbio "instaure um diálogo político nacional" com o objetivo de "organizar a transição" na Líbia. "Pedimos a todos os seus aliados que o deixem antes que seja tarde demais. Pedimos a todos os líbios que consideram que Kadafi leva a Líbia à catástrofe que se mobilizem a partir de agora para estabelecer um processo de transição", acrescentam.

No domingo, um porta-voz do regime líbio disse que a coalizão estaria indo longe demais na aplicação da resolução da ONU. "Eles tentam enfraquecer nossos espíritos, não proteger civis. Você não precisa destruir a Líbia, matando de fome a população, para proteger os civis de Benghazi", disse Ibrahim Moussa. "Acreditamos que o prosseguimento dos bombardeios é um plano para colocar o governo líbio em uma posição fraca para negociações", completou.

A Turquia afirmou que continua os esforços para negociar um cessar-fogo com o governo e a oposição. "Somos um dos poucos países que está falando com os dois lados", afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores turco, Selcuk Unal. Ele não confirmou se o país se ofereceu para mediar o conflito.

Os rebeldes conseguiram uma pequena, mas simbólica vitória diplomática ao serem reconhecidos como representares legítimos da Líbia pelo Catar, país árabe que participa da coalizão internacional.

Com New York Times, EFE, AP e BBC

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