Forças de segurança disparam contra manifestantes na Síria

Apesar de reforço da segurança no país, manifestantes voltam às ruas; repressão deixa entre três e sete mortos e vários feridos

iG São Paulo |

Apesar de uma segurança pesada, novos protestos antigoverno ocorreram em várias cidades sírias depois das preces desta sexta-feira. Testemunhas disseram que centenas saíram às ruas gritando "Liberdade!". Segundo a agência de notícias estatal, os manifestantes reivindicaram que reformas sejam aceleradas.

AFP
Manifestantes antigoverno marcham na cidade de Qamishli, no nordeste do país
Há informações de que as forças de segurança abriram fogo contra os manifestantes no subúrbio de Duma, em Damasco, deixando ao menos três mortos e dezenas de feridos, segundo a Associated Press. Já a rede de TV CNN diz que uma testemunha viu ao menos seis manifestantes serem levados para o necrotério de um hospital. Membros das forças de segurança foram espalhados pelo país para dispersar os protestos.

Também segundo a CNN, outra morte ocorreu quando tropas dispararam contra manifestantes na cidade de Al-Sanameen, no sul do país.

Testemunhas na cidade de Deraa, sul do país, contaram que centenas saíram de uma mesquita após as orações de sexta-feira e se juntaram ao protesto. Ativistas prometeram o que chamaram de "Dia dos Mártires", para honrar as dezenas mortas nas duas semanas de protestos no país.

Segundo a correspondente da BBC em Damasco Lina Sinjab, testemunhas contaram que os protestos nas cidades de Qamishli e Hassakeh, no nordeste do país, começaram logo depois das orações em meio à forte presença das forças de segurança. O nordeste do país é a região onde vive a população curda, que vinha se mantendo à distância das manifestações. Mas, de acordo com Sinjab, na quinta-feira os curdos anunciaram que se juntariam aos protestos de sexta-feira.

Na quarta-feira, o presidente sírio, Bashar al-Assad, não conseguiu acalmar os ânimos do país ao afirmar em um discurso que os protestos são resultado de uma conspiração internacional . Segundo analistas, os protestos se tornaram a maior ameaça ao regime de Assad, que substituiu seu pai, Hafez, após sua morte, em 2000.

AP
Sírios assistem discurso do presidente Bashar al-Assad em Damasco (30/03)
A crise começou após a prisão de adolescentes que haviam pintado frases contra o governo em um muro na cidade de Deraa, no sul do país, e se espalhou rapidamente para outras províncias. Ativistas e grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que os choques com as Forças de Segurança deixaram entre 60 e 130 mortos nas últimas semanas, mas o governo estima o número de mortos em cerca de 30.

Comissão para lei de emergência

Em meio às manifestações por maiores liberdades no país, Assad anunciou na quinta-feira o estabelecimento de um comitê para estudar a substituição da lei de emergência, em vigor há décadas, por uma legislação antiterrorismo.

A agência de notícias estatal Sana anunciou que o comitê vai estudar e redigir uma "legislação, incluindo a proteção da segurança da nação e da dignidade dos cidadãos, e o combate ao terrorismo, abrindo o caminho para a revogação da lei de emergência".

A agência disse que o comitê vai concluir seu trabalho até 25 de abril, mas não deu mais detalhes. A revogação da lei de emergência, usada há décadas para sufocar qualquer oposição ao governo monolítico do partido Baath, vem sendo uma reivindicação central dos manifestantes.

Na semana passada, autoridades sírias disseram que foi tomada a decisão de abolir a legislação de emergência. Mas, na quarta-feira, nas primeiras declarações públicas desde o início da onda de protestos , Assad não fez referência à rescisão da lei nem a um cronograma para as reformas sugeridas , incluindo a legislação sobre partidos políticos, liberdade de imprensa e combate à corrupção.

Os EUA disseram que o discurso de Assad não atendeu às expectativas levantadas na semana passada pelos assessores do presidente, quando, no auge dos protestos, disseram que ele anunciaria um programa claro de reformas.

O anúncio desta quinta-feira dificilmente convencerá os céticos. "Em nossa parte do mundo, quando se cria um comitê significa que se quer enterrar uma questão", disse Hilal Khashan, professor de ciência política da Universidade Americana de Beirute. "Ele (Assad) está querendo ganhar tempo."

*Com BBC e Reuters

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