Forças de Kadafi atacam rebeldes líbios com tanques e bombardeios

Para impedir o avanço opositor rumo a Trípoli, combatentes pró-Kadafi lançam forte ofensiva nas cidades de Zawiya e Ras Lanuf

iG São Paulo |

Em meio a relatos conflitantes sobre um suposto acordo para o líder Muamar Kadafi, de 68 anos, deixe o poder, a Líbia entrou na quarta semana de choques violentos nesta terça-feira, com poucas dúvidas de que a crise se transformou em uma guerra civil.

Reuters
Kadafi visitou hotel onde estão jornalistas estrangeiros na capital da Líbia nesta terça-feira
Com tanques e aviões, forças pró-Kadafi realizaram forte ataques contra os rebeldes em Zawiya e Ras Lanuf. A ofensiva tem o objetivo de impedir o avanço opositor a partir do leste, que está sob seu controle, em direção à capital do país, Trípoli.

À noite, em demonstração de poder, o líder líbio visitou o hotel Rixos, em Trípoli, onde estão confinados jornalistas estrangeiros que se encontram na capital. Usando uma túnica negra e um turbante de cor ocre, o coronel passou entre os jornalistas reunidos no hall do hotel sem responder a perguntas, mas levantou os braços e cerrou os punhos em sinal de vitória.

Em 22 dias de violência, as estimativas de mortos variam de centenas a milhares. De acordo com a ONU, mais de 215 mil, principalmente trabalhadores imigrantes, fugiram da Líbia e agora há falta de voos para repatriá-los. A situação estimulou grupos de direitos humanos a reiterados apelos aos dois lados para que permitam a entrada de auxílio humanitário.

Depois de manter Zawiya sitiada por cinco dias, as forças de Kadafi conseguiram retomar o controle de boa parte da cidade, a 50 quilômetros a oeste de Trípoli, informou nesta terça-feira a Al-Jazeera. Os rebeldes, porém, ainda controlam a Praça dos Mártires, a principal da cidade, disse uma testemunha.

Com 50 tanques e 120 picapes, as forças de Kadafi lançaram três ataques na cidade. "Não sei quantos morreram, mas eles transformaram Zawiya em cinzas", disse uma fonte à rede britânica BBC.

Zawiya, onde fica uma das mais importantes refinarias do país, foi castigada com fogo de artilharia e morteiros, além das incursões dos carros de combate, que foram rechaçados durante pelo menos três dias. A comunicação com o interior da cidade foi perdida na noite do domingo, depois de a telefonia celular e a energia elétrica terem sido cortadas.

As sucessivas tentativas das forças leais a Kadafi de tomar a Praça dos Mártires, onde os rebeldes empreenderam uma desesperada defesa, causaram uma "carnificina", segundo moradores pró-revolucionários citados pela rede de TV árabe.

Por mais um dia seguido, aviões do regime líbio continuaram bombardeando o deserto ao leste do de Ras Lanuf, base mais avançada da oposição no leste da Líbia. Não foi possível saber se o ataque provocou vítimas ou danos. A cidade, que fica a 300 km ao sudoeste de Benghazi, é controlada desde sexta-feira pelos insurgentes.

Também há relatos de choques em torno da cidade litorânea de Ben Jawad, terminal petrolífero entre Sirte e Ras Lanuf, que também é alvo de bombardeios. Nos últimos dias, os rebeldes reforçaram suas tropas com mais combatentes e sobretudo de artilharia pesada.

Segundo a Al-Jazeera, os opositores apressam o envio de seus reforços, enquanto as brigadas de Kadafi mobilizam mais efetivos para conter o avanço revolucionário a Sirte, cidade natal do ditador líbio, de vital importância por ter armas e constituir o bastião das redes tribais pró-regime.

Os opositores redobraram sua determinação de chegar a Sirte como passo para libertar Misrata, isolada a leste pela terra natal de Kadafi e a oeste por Trípoli.

O porta-voz do comitê revolucionário em Misrata, Hussam al Gherini, apelou por bombardeios seletivos da comunidade internacional para impedir a contraofensiva das brigadas leais ao líder líbio. As forças que apoiam Kadafi fizeram até o momento uma incursão blindada na cidade, repelida pelos rebeldes, deixando ao menos 21 mortos. Gherini exigiu que a comunidade internacional "deixe de fingir que faz algo quando não está fazendo nada".

A queda de Sirte, onde Kadafi estabeleceu a sede de alguns departamentos ministeriais e, sobretudo, montou um gigantesco pavilhão para abrigar cúpulas internacionais pode ser essencial para o desenrolar do conflito.

Supostas negociações

Com mostras de sua divisão interna, membros da oposição da Líbia deram relatos conflitantes nesta terça-feira sobre um suposto acordo para que Kadafi deixe o poder.

Membros do Conselho Nacional de Transição Interino (CNTR), com sede em Benghazi (epicentro dos protestos e reduto da oposição no leste do país), desmentiram que negociações estivessem em curso. O porta-voz do órgão, Abdel Hafez Ghoga, também negou informações de que a oposição prometeu não processar Kadafi criminalmente se ele deixasse o poder nos próximos três dias. "Não há nenhuma iniciativa de Kadafi (para um acordo), e como Conselho Nacional nós não fomos comunicados", afirmou.

Os rumores sobre a possível oferta de diálogo de Kadafi haviam sido antecipados na segunda-feira pelo jornal árabe Asharq Alawsat . Editado em Londres e com grande influência no mundo árabe, o jornal disse que, "segundo fontes líbias da cidade de Benghazi", Kadafi teria pedido a um delegado para que falasse em seu nome anunciando sua disposição em abandonar o poder. O líder líbio teria imposto como condição que o ajudem a dirigir-se ao país de sua escolha e garantam que não seja perseguido no exterior e convocado perante tribunais internacionais.

A oposição líbia não é composta por um único grupo monolítico, mas por vários grupos e indivíduos em todo o país com o objetivo de derrubar o regime de quase 42 anos do líder. O Conselho Nacional é composto de 31 membros representando a maioria das áreas do país, com ênfase na organização de uma estrutura governamental para um eventual período pós-Kadafi. 

*Com EFE, AFP, Reuters e BBC

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