Filhos de Kadafi fazem declarações contraditórias sobre crise líbia

Enquanto suposto Saif al-Islam reitera luta até a morte e apela à resistência, Saadi diz estar pronto para negociar com rebeldes

iG São Paulo |

EFE
À esq., Saif al-Islam, apontado como sucessor de Muamar Kadafi, e à dir. Saadi, o terceiro filho do líder líbio
Um homem alegando ser Saif al-Islam, filho considerado herdeiro político de Muamar Kadafi, afirmou nesta quarta-feira que está em um subúrbio da capital da Líbia, Trípoli, e fez um apelo à "resistência", em uma mensagem de áudio divulgada pela televisão Al-Rai, com sede em Damasco (Sìria).

Segundo o suposto Saif, que prometeu lutar até a morte e afirmou que ninguém se renderá, Kadafi está bem. "Falo a vocês do subúrbio de Trípoli. A resistência continua e a vitória está próxima", disse enquanto os rebeldes líbios preparam uma ofensiva em Sirte , bastião do líder líbio, após terem consolidado o controle sobre a capital.

De acordo o áudio, Sirte está preparada com 20 mil combatentes para lutar contra as forças rebeldes e seus aliados. "Se (os rebeldes) acreditam que a batalha de Sirte será um passeio, na cidade estão preparados para o combate 20 mil homens armados."

O áudio foi divulgado depois de seu irmão Saadi afirmar, em uma declaração, que está pronto para mediar negociações com os rebeldes para parar o banho de sangue. "O mais importante é parar o banho de sangue", disse à rede de TV Al-Arabiya, à qual afirmou que em nenhum momento interveio no conflito civil na Líbia.

Saadi, o terceiro filho de Kadafi, era empresário e ex-jogador de futebol. Inicialmente foi divulgado que ele teria sido capturado logo depois que Trípoli foi tomada pelos rebeldes, na semana passada. Mas foi esclarecido mais tarde que ele estava desaparecido, assim como o restante da família de Kadafi.

Previamente à Al-Jazeera, o comandante rebelde líbio Abdel Hakim Belhadj, chefe das forças anti-Kadafi em Trípoli, disse que Saadi negociava os termos para sua própria rendição. Quando questionado sobre isso, Saadi confirmou que conversou com Belhadj e vários outros rebeldes, mas houve confusão sobre os detalhes exatos da oferta. Ele disse estar pronto para se entregar apenas para interromper a matança.

"Nós reconhecemos que eles (Conselho Nacional de Transição, órgão político dos rebeldes) representam uma parte legal, mas nós também somos o governo e uma parte legal de negociação", disse Saadi à al-Arabiya.

Prisão de chanceler

Os áudios contraditórios surgiram enquanto as forças rebeldes aumentaram a pressão sobre dois dos principais redutos leais a Kadafi, sua cidade natal de Sirte e a de Bani Walid, e previamente ao anúncio de que o chanceler do regime Kadafi, Abdelati Obeidi, teria sido preso. De acordo com um correspondente da Reuters, a prisão ocorreu na fazenda de Obeidi em Janzour, um subúrbio a oeste de Trípoli.

Forças do CNT gritavam "Allahu Akbar", ou "Deus é o maior", enquanto prendiam o chanceler, que usava roupas tradicionais líbias, de acordo com o correspondente. Abdallah al-Hijazi, um aliado próximo de Kadafi, também foi preso por forças rebeldes em Trípoli, disseram fontes do CNT à Reuters.

Além disso, o CNT disse na segunda-feira acreditar que seus combatentes tinham matado Khamis Kadafi , outro filho do líder deposto, e o chefe de inteligência do antigo regime, Abdullah al-Senussi, em confrontos. Senussi, assim como Kadafi e Saif, é procurado pelo Tribunal Penal Internacional .

O círculo de poder de Kadafi já sofreu várias deserções, prisões e mortes desde o início dos protestos que encerraram seu regime de 42 anos. A mulher de Kadafi e três filhos dele escaparam para a Argélia na segunda-feira, informou o governo argelino.

AFP
Milhares participam de orações na Praça dos Mártires, ex-Praça Verde, a mais importente de Trípoli, capital da Líbia
Celebração do fim do Ramadã

Embora Kadafi continue foragido, líbios satisfeitos com o fim do regime comemoraram em Trípoli e em Benghazi (epicentro dos protestos contra o regime) nesta quarta-feira o fim do mês islâmico sagrado do Ramadã, enquanto forças que ainda lhe são leais desafiem um ultimato imposto pelos rebeldes .

Na recém-rebatizada Praça dos Mártires (ex-praça Verde), centenas se reuniram para as orações matinais que celebram o Eid al Fitr, feriado que marca o fim do mês muçulmano de jejum. "É a prece mais bonita. Estamos cheios de alegria, Kadafi nos fez odiar nossas vidas (...). Viemos aqui expressar nossa alegria pelo fim de 42 anos de repressão e privação", disse o comerciante Hatem Gureish, 31 anos.

A segurança foi reforçada na praça onde Gaddafi pretendia comemorar o 42º aniversário do golpe de Estado que o levou ao poder, na quinta-feira. Cães farejadores circulavam entre os fiéis, e atiradores estavam a postos nos telhados, atentos à presença de seguidores do regime deposto.

"Pode haver alguns bolsões das forças de Kadafi, mas, no geral, a capital está segura", disse à Reuters o ministro interino do Interior, Ahmad Darat. "Criamos uma equipe de segurança para gerenciar a crise e preservar a segurança na capital."

Aviões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) têm bombardeado forças leais a Kadafi nos arredores de Sirte, e a aliança já prometeu a seus aliados líbios que a missão militar será concluída. O CNT diz que a guerra só acabará quando Kadafi for capturado ou morto.

Os novos líderes do país talvez peçam ajuda da ONU para criar uma nova força policial, mas descartam a presença de observadores militares ou forças de paz internacionais , segundo Ian Martin, enviado especial da ONU para a reconstrução pós-conflito na Líbia. "Está muito claro que os líbios querem evitar qualquer tipo de mobilização militar da ONU ou de outros", disse em Nova York.

O CNT, ávido por consolidar seu poder e aliviar as dificuldades após seis meses de guerra civil, recebeu uma injeção de US$ 1,55 bilhão, graças a uma decisão do comitê de sanções da ONU para liberar bens de Kadafi que estavam congelados no Reino Unido . Além disso, os novos líderes disseram que a Líbia deve voltar a extrair petróleo nos próximos dias.

*Com AFP, AP, EFE e Reuters

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