Saif al Islam Kadafi disse que operação militar da Otan contra a Líbia é resultado de uma "grande conspiração"

Saif al Islam Kadafi, considerado até agora o sucessor de seu pai, o líder líbio Muamar Kadafi, afirma que o regime de Trípoli não cometeu "nenhum crime" contra seus cidadãos e que não está matando civis, mas perseguindo "terroristas".

Em entrevista exclusiva concedida ao jornal "The Washington Post", Saif al Islam Kadafi mantém o tom desafiador que marcou as declarações da família de Muamar Kadafi desde que começaram os protestos na Líbia há mais de dois meses.

Ele indica que a operação militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra a Líbia se baseia em nada mais que "rumores" e é resultado de uma "grande conspiração". Saif al Islam compara as ações que vêm ocorrendo em seu país com a invasão do Iraque em 2003, quando os Estados Unidos acusaram Bagdá de esconder armas de destruição em massa.

"É exatamente o que ocorreu com as armas de destruição em massa (WMD, na sigla em inglês)", contestou. "WMD, WMD, WMD, vá e ataque o Iraque. Agora é civis, civis, civis, vá e ataque a Líbia. É a mesma coisa", declarou.

Perguntado sobre se ocorreram erros e as forças de Trípoli atiraram contra cidadãos líbios, o filho de Kadafi admite que "uma, duas, três, 10, 20, 30 pessoas talvez" morreram, provavelmente por "acidente", mas "nunca houve nenhuma intenção" de matá-las, e que não se pode falar de milhares de civis mortos.

"Há uma grande diferença entre duas ou três e 2 mil ou 3 mil (pessoas mortas)", ressaltou.

O filho de Kadafi, de 38 anos, afirmou também que o assédio contra a cidade de Misrata, alvo de intensos bombardeios nos últimos dias, não tem como objetivo atacar os civis, mas perseguir terroristas.

Ele alega que a Líbia está lutando contra a rede terrorista Al Qaeda, grupos fundamentalistas islâmicos, gângsteres e ex-prisioneiros, sobretudo em Benghazi, principal reduto dos rebeldes. "Os gângsteres serão derrotados e o Ocidente, não Kadafi, está no lado errado da história", acrescentou.

Saif al Islam disse que o que mais doeu foi quando seu melhor amigo, Mahmoud Jibril, desertou o regime de Trípoli e aderiu ao Conselho Nacional de Transição - Governo dos rebeldes em Benghazi -, do qual se tornou responsável de Exteriores.

Ele deixou claro que agora não é o momento de falar sobre reformas e de uma nova Constituição. "Já não é uma prioridade para os líbios porque estamos em guerra", argumentou.

Também comentou o que representa para ele o fato de a Líbia ter deixado de ser aliada dos EUA e virado inimiga. "Para ser sincero, (o presidente americano, Barack) Obama é diferente dos britânicos e franceses. Foi um grande choque no início, quando os americanos atacaram Líbia. Ninguém no Oriente Médio, e menos na Líbia, pensava que um dia Obama atacaria a Líbia ou um país árabe", assinalou.

Saif al Islam disse querer que os americanos e a ONG Human Rights Watch (HRW) enviem uma missão de investigação à Líbia para esclarecer o que ocorreu exatamente nesses meses.

"Não temos medo do Tribunal Penal Internacional (TPI). Temos certeza de que não cometemos nenhum crime contra nossa gente", encerrou.

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