Falta de liderança na oposição frustra 'Dia da Partida' no Egito

Sem nome alternativo a líder egípcio, movimento composto por facções distintas corre risco de ver frustradas suas expectativas

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

O “Dia da Partida” , como foi chamada a manifestação pacífica de dezenas de milhares de egípcios na praça Tahrir, nesta sexta-feira, começou com vigor e congregou diferentes grupos pregando que neste dia ocorreria a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak . Mas, ao longo da tarde, o movimento perdeu força e, uma vez mais ao longo dos 11 dias de protestos, não atingiu seu objetivo - para a decepção de muitos.

O fato de os protestos populares reunirem diferentes grupos e correntes da sociedade egípcia sem liderança e comando específicos representa, paradoxalmente, a força e a fraqueza dessa mobilização. Se, por um lado, eventuais lideranças políticas poderiam causar cisões internas - atualmente atenuadas pela massa -,  a ausência de uma condução mais objetiva dos protestos faz com que corram o risco de terminar no vácuo, sem o resultado final pretendido.

As três décadas de Mubarak à frente do país asfixiaram o surgimento de nomes relevantes na política nacional. Muitos egípcios de fora da praça Tahrir se perguntam, como o estudante Soufy Hussein, 28 anos, um ex-adepto dos protestos que mudou de ideia quando o presidente anunciou que sairá depois das eleições presidenciais de setembro : “Cai Mubarak, e aí? O que vai acontecer? Quem vai manter a estabilidade do país?”

A palavra-chave, repetida à exaustão por quem defende a permanência provisória do presidente, é “estabilidade”. Muitos acreditam que apenas Mubarak seria capaz de a representar. E o presidente joga com essa dúvida no discurso , enquanto alimenta o caos, ao retirar a polícia das ruas e orquestrar reação violenta de grupos armados contra opositores e jornalistas .

Prestigiado internacionalmente, Mohamed El-Baradei, Prêmio Nobel da Paz e ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, não é visto pela população como uma alternativa viável, por ser desconhecido internamente. A Irmandade Muçulmana, que conquistou espaço nas manifestações por ser um dos grupos mais organizados da sociedade civil nacional, é mais religioso que político.

Um nome com força é o ex-chanceler Amr Moussa, secretário-geral da liga Árabe. No entanto, embora se ofereça para comandar o país e tenha sido recebido com festa na praça Tahrir nesta sexta-feira, Moussa ainda não tomou as rédeas. E a massa opositora mostra precisar desse empurrão, apesar de todos dizerem que só sairão do centro quando Mubarak renunciar. “Vá embora, Mubarak! 'Game over' (fim de jogo)! Ninguém deixará a praça até você renunciar”, gritaram, mas no fim do dia a maioria voltou para casa.

Composição

A multidão que nesta sexta reunia famílias de classe média-alta, jovens, idosas, religiosos muçulmanos e representantes de todas as camadas da sociedade não parece disposta a dar um “golpe de Estado” clássico, com a tomada do poder à força.

O Exército, que deve ser decisivo, tem sido ambíguo nas ações, ora sendo passivo ora evitando conflitos. Nesta sexta-feira, cercou a praça com arame farpado e mais tanques e homens, e passou a ser mais rigoroso no toque de recolher, restringindo a circulação de pessoas e veículos das 17h às 7h, o que não vinha acontecendo.

Fisicamente exaustos após 11 dias de vigília – sendo dois de batalhas cruentas , com mortos e feridos –, os manifestantes não demonstram mais a mesma energia dos primeiros dias, quando cantavam em coro sem parar pela saída do presidente. No meio da tarde, depois de uma manhã de otimismo na praça Tahrir, o que se via era uma dispersão do movimento: grupos de cem manifestantes entoando músicas, enquanto outros conversavam e muitos sentavam ou dormiam no chão ou nos jardins.

É certo que Mubarak sentiu o "golpe" das manifestações opositoras. O impacto geral é inegável, com concessões antes impensáveis. Ele cedeu, prometendo deixar o poder com as eleições em setembro, após 30 anos, admitiu mudanças constitucionais, enquanto o Exército reconheceu a legitimidade das reivindicações . Mas, apesar da pressão das ruas e da comunidade internacional para renunciar, o líder egípcio ainda resiste como pode e tenta ganhar tempo, chamando a oposição ao diálogo e culpando-a por não negociar.

Efeitos

Parte da população já começa a reclamar e sentir os efeitos negativos na economia e na rotina. “O Egito está parado. Não temos mais turistas, o comércio está fechado. Por que não deixam o mandato do Mubarak acabar e termos eleições em setembro?”, questionou um taxista. “Essa praça não representa o Egito nem mesmo o Cairo. A agitação está toda ali, mas fora dali não há nada, nem na zona leste nem na oeste da cidade. Nada”, afirmou um major do Exército, que pediu anonimato.

O discurso do presidente egípcio, de que até gostaria de renunciar, mas não o faz com medo do "caos” no país, funciona para muitos, ainda mais alimentado pela violência dos dois dias de batalhas entre grupos anti e pró-regime.

“Mubarak é um herói para nós. Talvez tivesse pessoas ruins ao redor, mas agora ele acordou. Minha mulher está apavorada, meus pais estão sem receber pensão. Está um caos, ninguém trabalha, não recebe dinheiro, não há turistas", disse o garçom Mohamed Ahmed. "Eu quero trabalhar, quero estabilidade.” Para Ahmed, a TV estatal "fala a verdade”, enquanto outras emissoras árabes, como a Al-Jazeera – cujo escritório no Cairo foi atacado – e a El-Arabyia a distorcem.

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