Falta de dinheiro motivou cavaleiro a atacar opositores no Cairo

Ao iG, egípcio visto na linha de frente dos choques de quarta-feira na praça Tahrir diz que teme voltar ao local dos confrontos

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Getty Images
Hamam Molisa (de amarelo), cavaleiro que é guia das pirâmides de Giza, é visto durante choques com opositores de líder egípcio no Cairo, em 02/02/2011
Em um bom mês, com muitos turistas, Hamam Molisa, 24 anos, consegue arrecadar R$ 400 como guia a cavalo do mais famoso cartão postal do Egito: as pirâmides de Giza. Desde 29 de janeiro, quando o ponto turístico foi fechado pelo governo por causa dos protestos pela renúncia do presidente Hosni Mubarak, Hamem não ganha nada.

Na quarta-feira de 2 de fevereiro, ele foi um dos que invadiram a cavalo e a camelo a praça Tahrir , que se tornou epicentro das manifestações antigoverno no centro do Cairo. Foi fotografado e filmado vestindo um casaco amarelo na linha de frente do ataque do grupo pró-Mubarak, ao lado de outros rapazes a pé, exibindo fotos do presidente egípcio.

Em uma das cenas mais divulgadas pela TV e internet, Hamam aparece cavalgando ao lado de um homem de vermelho e batendo seu chicote contra o chão, enquanto invade a defesa rival.

Nesta segunda-feira, o iG localizou Hamam na favela de Abul Haw, na vizinhança das pirâmides, onde ele afirmou que foi à Tahrir manifestar apoio a Mubarak “porque não tem mais dinheiro para comer”.

Conversou com a reportagem do alto do cavalo, diferente do que montou na quarta. Tímido e vestindo roupas simples – um casaco vermelho e calças de moletom –, o rapaz tem um olhar tranquilo e fala baixo.

No embate contra opositores de Mubarak, Hamam não foi derrubado do animal, mas foi atingido por pedras, socos e pauladas na cabeça e nas pernas. Não planeja voltar ao lugar da luta. “Se eu voltar lá eles vão me matar”, disse ao iG .

Hamam contou que se uniu a cerca de 1 mil outros colegas da área – montados em 800 cavalos e 200 camelos – para demonstrar seu apoio ao presidente em outra praça no centro do Cairo, onde uma manifestação estava programada.

A massa percorreu os cerca de 15 quilômetros entre as pirâmides e o centro em pouco mais de uma hora. Após passar algumas horas nessa praça, um grupo a pé e outro em cem cavalos foram até a Tahrir. Pouco depois, começou a batalha que durou mais de 27 horas e terminou com ao menos oito mortos , segundo dados oficiais - ou de 18 a 20, segundo médicos dos manifestantes.

Hamam negou ter recebido dinheiro para participar do ataque. “Lá na praça dizem que as pessoas daqui ganharam para ir lá. Não acredite nisso. Para entender por que fomos, basta olhar como vivemos aqui”, interveio o também guia e cavaleiro Mohamed Nasser, 25.

Nasser ficou no centro até as 22h (18h em Brasília) de quarta-feira, mas disse não ter ido até a praça por medo de ser morto. “As pessoas lá são muito violentas”, afirmou.

Outro cavaleiro que participou do confronto foi Karim Mohamed. Ele usa os mesmos argumentos de Hamam para justificar sua ida à praça. “Mubarak é muito bom. Se ele for embora, quando as pirâmides serão reabertas?”, questiona.

“Se o presidente sair, os egípcios vão se matar, será o caos”, afirmou Nasser, concordando com a afirmação do presidente para a rede de TV americana ABC .

De acordo com o grupo, a batalha resultou no desaparecimento de três cavaleiros moradores da favela e na perda de dez cavalos e dois camelos. Apesar de continuarem a defender a permanência de Mubarak, nenhum dos três pretende retornar ao palco da batalha da praça Tahrir.

Os guias de turismo afirmam que não têm mais dinheiro para alimentar a família. Argumentam que, desde o início dos protestos, o preço da ração dos cavalos para uma semana subiu de R$ 38 para R$ 60, com muitos animais morrendo de inanição.

A reportagem do iG de fato viu três cavalos mortos perto do lixo no caminho das pirâmides, exalando forte cheiro à distância. Segundo Nasser, o motivo foi falta de alimentação.

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