Ex-observador da Liga Árabe diz que missão na Síria é uma 'farsa'

Na TV, Anwar Malek afirma ter testemunhado 'cenas de horror' e que regime sírio fabrica a maior parte do que monitores veem

iG São Paulo |

Um ex-membro do grupo de observadores da Liga Árabe na Síria qualificou a missão como uma "farsa" e descreveu a situação no país como um desastre humanitário, durante entrevista à emissora de TV Al Jazeera.

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AP
Mulher síria fala com observador da Liga Árabe que participa de uma horação pelas pessoas e soldados que foram mortos (9/1/2012)

Anwar Malek disse ter se demitido do cargo, por conta do que testemunhou no país, inclusive crimes de guerra cometidos por forças de segurança. Ele acusou o governo do presidente Bashar al-Assad, que enfrenta uma revolta popular desde março, de "fabricar" a maior parte daquilo que os monitores viam para impedir que a Liga Árabe tomasse uma atitude.

Malek, ainda vestindo o colete laranja dos observadores, afirmou que ao permitir que a missão observadora entrasse na Síria, o governo "ganhou muito tempo para ajudar a implementar seu plano" para colocar um fim nas revoltas. "O que eu vi foi um desastre humanitário. O regime não está apenas comprometido com um crime de guerra, mas com uma série de crimes contra o seu povo."

A missão de monitoramento da Liga Árabe, com 165 integrantes, começou a operar em 27 de dezembro. Sua tarefa é verificar se a Síria está cumprindo o acordo de pôr fim à repressão aos protestos que já duram dez meses.

Leia também: Ativistas acusam regime sírio de enganar observadores árabes

Quando lhe perguntaram porque havia deixado a delegação, Malek respondeu: "A coisa mais importante é ter sentimentos humanos, de humanidade. Eu passei mais de 15 dias em Homs... Vi cenas de horror, corpos queimados... Não posso deixar minha humanidade para trás nesse tipo de situação."

"Os francoatiradores estão em todos os lugares, acertando civis. As pessoas estão sendo sequestradas. Prisioneiros são torturados e nenhum foi solto", continuou Malek.

"Alguns da nossa equipe preferiram manter boas relações com o regime e negaram que existam atiradores", acrescentou. Ele disse ter se demitido por conta do que viu, e garantiu que a missão observadora está destruída.

"A missão foi uma farsa e os observadores foram enganados", acrescentou. "O regime orquestrou isso e fabricou a maior parte do que vimos para impedir que a Liga Árabe tome uma atitude."

Ele disse que as forças de segurança não retiraram seus tanques das ruas - como foi ordenado pela iniciativa de paz da Liga Árabe - mas apenas os escondeu e, então, os colocou de volta nas ruas após a saída dos observadores.

Ele também afirmou que os manifestantes presos que foram mostrados pela TV estatal sendo libertados no mês passado como parte de uma anistia eram pessoas detidas indiscriminadamente quatro ou cinco dias antes.

O nome de Malek estava na lista de observadores que foram para a Síria no final de dezembro, segundo a Associated Press. Ele foi identificado como um tunisiano que trabalha para o Comitê Árabe para Direitos Humanos, na França, apesar da al-Jazeera dizer que ele é argelino.

Malek criticou o líder da missão da Liga Árabe, o general sudanês Mohammed al-Dabi, cuja adequação ao cargo vem sendo questionada por entidades de defesa dos direitos humanos preocupadas com seu papel no passado no conflito de Darfur, no Sudão.

"O chefe da missão queria mudar o curso (do trabalho) para não irritar as autoridades sírias ou qualquer outra parte", disse Malek, que já havia chamado a atenção por comentários críticos postados no Facebook enquanto estava na Síria.

Aparição de Assad

Assad saudou milhares de simpatizantes entusiasmados em uma praça da capital, Damasco, apenas um dia após fazer um pronunciamento público rompendo seis meses de silêncio.

A multidão gritava "Shabiha para sempre, para seus olhos, Assad", em referência às milícias leais ao governo que conquistaram reputação por serem temíveis ao reprimir os protestos contra Assad.

A mulher de Assad, Asma, e os dois filhos se juntaram a ele em uma aparição-surpresa na praça central de Umayyad. "Eu pertenço a esta rua", disse Assad, acrescentando que a Síria enfrentava conspiradores estrangeiros. "Daremos um fim a eles e aos seus planos. Venceremos, sem qualquer dúvida."

Em seu pronunciamento de terça, Assad anunciou um referendo sobre a Constituição do país , após culpar uma “conspiração estrangeira” pelos dez meses de protestos. Em discurso transmitido pela TV, ele descartou renunciar e disse que responderá às ameaças com “mão de ferro”.

“A conspiração está clara para todos”, afirmou. “Nossa prioridade é retomar a segurança e isso só pode acontecer se acertarmos os terroristas com mão de ferro. Não vamos ser lenientes com aqueles que trabalham com os estrangeiros."

AP
Presidente da Síria, Bashar al-Assad (C), discursa para partidários em comício na praça central de Damasco

Morte de jornalista

Nesta quarta-feira, um jornalista francês que realizava uma viagem a trabalho na cidade de Homs, na Síria, foi morto . Gilles Jacquier, 43 anos, estava, segundo um repórter, em um grupo de cerca de 15 jornalistas, quando granadas caíram perto dele.

Jacquier, que trabalhava como cinegrafista da emissora France-2 TV, foi morto, e outro colega, um holandês, ficou ferido.

É o primeiro jornalista ocidental a morrer no país desde que começou a revolta contra o governo de Assad em março. Segundo um levantamento realizado pela ONU, mais de 5 mil pessoas foram mortas pela repressão contra os civis.

Com Reuters, AP, BBC

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