Exército do Egito reforça segurança para 'Grande Sexta-feira'

Militares reforçaram a presença nas áreas do centro da capital egípcia, próximas à praça Tahrir - ou da Libertação

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Na manhã da "Grande Sexta-feira", como manifestantes têm se referido à mobilização em massa prevista para esta sexta-feira, o Cairo acordou estranhamente calmo, embora a tensão ainda esteja no ar. Tirando os milhares de manifestantes que passaram a noite cantando na praça Tahrir (da Libertação), centro simbólico dos protestos, após uma batalha que durou mais de 27h, as ruas estavam vazias no início do dia na capital egípcia.

Apesar de ser um dia muito aguardado e cujo desfecho é imprevisível, o clima era bem diferente do de quinta-feira, quando a tensão era permanente e ininterrupta, dada a contínua batalha travada entre os grupos antigoverno e pró-Hosni Mubarak, presidente do país há 30 anos.

Depois de mais um dia de confrontos violentos e ataques a jornalistas internacionais, os efetivos do Exército foram reforçados nas redondezas da praça por causa das expectativas para o dia.

Usando capacetes com viseiras, semelhantes aos da polícia de choque, os militares faziam bloqueios a pé em filas, verificando os documentos dos poucos transeuntes e motoristas que passavam. Eles estavam em maior número e em mais lugares do que na quinta.

Aparentemente, trata-se de uma medida para evitar confrontos entre os grupos rivais. Em entrevista na quinta-feira à ABC, o governo pediu a saída dos manifestantes da praça, mas afirmou que não haveria repressão nem retirada à força. O governo diz desconhecer a origem dos manifestantes pró-presidente, que, entretanto, parecem muito organizados e contam com policiais infiltrados, segundo muitos relatos.

Desde a noite de quinta-feira, não é possível ver grupos pró-regime na região. Um capitão do Exército conversou com a reportagem do iG na noite de quinta e informou que a força militar estava mobilizada em “pontos fortes” (lugares estratégicos) para os eventos desta sexta-feira e recomendou cautela a jornalistas. Cético, ele esperava mais confrontos intensos.

Até a quinta-feira, os embates entre manifestantes contra e a favor do governo deixou oficialmente pelo menos oito mortos. Não fosse o Egito um Estado com forte controle sobre a população, e se houvesse mais armas de fogo disponíveis, os números provavelmente chegariam às centenas. Como as batalhas têm como armas pedras e pedaços de pau e barras de ferro, as vítimas são em quantidade muito inferior, resultando mais de linchamentos e agressões físicas.

Após um dia de tensão, em que inúmeros jornalistas foram atacados e intimidados por multidões pró-Mubarak e por autoridades do Estado, quase toda a imprensa internacional deixou a área central dos protestos. Cerca de 200 jornalistas saíram do hotel Ramsés Hilton, incluindo o iG entre o fim da tarde de quinta e a manhã desta sexta-feira, mudando-se para outras áreas da cidade.

À noite, muitos contaram com a ajuda das embaixadas de seus países para deixar o local em segurança, em carros oficiais. Foi assim com equipes de Portugal, Alemanha e Holanda. Grupos de redes americanas usaram sua própria equipe de segurança. Às 22h50 de quinta-feira, a embaixada do Brasil pediu que o iG ligasse novamente às 10h desta sexta-feira para estudar que medida tomar, porque o pessoal estava exausto diante do trabalho dos últimos dias.

Como não havia segurança na região central, ocupada por militantes pró-Mubarak (refratários à mídia internacional),quase todos os jornalistas ali hospedados passaram a quinta no hotel. No fim da tarde, a direção do Hilton proibiu as filmagens a partir das varandas com vista para a praça – de onde vinha sendo filmada a maioria das imagens disponíveis no mundo – o que foi mais um motivo para a retirada da imprensa.

A batalha chegou a cerca de 20 metros do estabelecimento, com jovens lançando pedras de um lado ao outro, quando os manifestantes antigoverno conseguiram expulsá-los da área da praça.

Nesta manhã, o iG deixou a área em um táxi local, assim que acabou o toque de recolher, às 7h. A reportagem passou por três barreiras de militares do Exército, uma situada próxima da outra, em que o repórter e o motorista precisaram se identificar e dizer aonde iam.

Em seguida, a cerca de 500 metros, em um viaduto à beira do rio Nilo, nas cercanias da praça Tahrir, havia uma barreira formada por manifestantes antigovernistas. Cerca de 20 homens seguravam porretes e barras de ferro, mas conheciam o motorista e rapidamente liberaram a passagem pela ponte que leva ao bairro Zamalek, onde fica o novo hotel.

Curiosamente, o Marriot, onde os jornalistas que cobrem os protestos pela saída de Mubarak agora estão hospedados, foi inaugurado com a presença do presidente egípcio, no longínquo ano de 1982. Além de duas placas de bronze – uma escrita em árabe e outra em inglês – na entrada principal, há uma foto colorida do presidente, de cerca de 70 cm por 50 cm, na recepção.

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