EUA e general britânico negam que Kadafi seja alvo militar

Declarações foram feitas depois de míssil ter atingido complexo residencial de líder líbio, que pede marcha popular a Benghazi

iG São Paulo |

O chefe do Estado-Maior da defesa britânica, o general David Richards, negou nesta segunda-feira que o líder líbio, Muamar Kadafi, seja alvo militar da coalizão internacional que iniciou no sábado a operação "Odisseia do Amanhecer" para reduzir a força do líder líbio e estabelecer uma zona de exclusão aérea prevista em resolução aprovada na quinta-feira pelo Conselho de Segurança da ONU. A ofensiva, liderada por EUA, Reino Unido e França, conta também com a participação de Canadá, Catar, Espanha e Itália.

Questionado pela emissora "BBC" se os aliados tentaram matar Kadafi após o bombardeio em Trípoli de um edifício do palácio do coronel líbio , Richards contestou: "Não. A resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) não permite e não é algo que queremos falar mais."

AFP
Prédio administrativo do complexo residencial do líder líbio foi atingido por míssil

As declarações do general foram feitas após o ministro da Defesa Liam Fox não ter descartado que Kadafi fosse um alvo legítimo dos bombardeios se previamente ao bombardeio se confirmasse que uma ação desse tipo não é um risco para civis. Por sua parte, o ministro de Relações Exteriores britânico, William Hague, declarou que não "especularia sobre os alvos". "Isso depende das circunstâncias em cada momento", afirmou.

Um oficial americano da coalizão internacional insistiu nesta segunda-feira que nem Kadafi ou sua residência eram alvos intencionais do bombardeio de domingo, que atingiu um prédio administrativo do complexo situado a cerca de 50 metros da tenda onde o líder líbio recebe geralmente seus convidados importantes. Mas o oficial - que falou sob condição de anonimato - disse que o local foi alvo por ser um centro de comando para as forças líbias.

No domingo, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, disse que matar Kadafi no marco da operação seria "insensato". Também no domingo, o diretor do Estado-Maior Conjunto dos EUA, William Gortney, afirmou que a coalizão não tem como alvo Kadafi ou sua residência, mas que sua segurança não pode ser garantida.

Em relação ao andamento da operação para aplicar a resolução 1973 da ONU, o general Richards se declarou "cautelosamente otimista" e informou que vários caças britânicos abortaram nas últimas horas um bombardeio pela presença de civis.

O centro do complexo residencial de Muamar Kadafi no bairro de Bab el Aziziya, em Trípoli, é visto destruído nesta segunda-feira, enquanto os EUA e aliados continuam a operação para reduzir a força do líder líbio. Mas o paradeiro de Kadafi - e seus planos após prometer uma "longa guerra" - permanece desconhecido.

De acordo com a agência oficial Jana, o líder líbio pediu à população de todas as regiões do país que organizem nesta segunda-feira uma "marcha popular estratégica" em direção à cidade de Benghazi (reduto da oposição no leste do país), com ramos de oliveira nas mãos para impedir "a agressão estrangeira". A agência, porém, não informou a localização de Kadafi.

A destruição do prédio aconteceu em meio a fortes explosões na capital da Líbia , Trípoli, enquanto forças aliadas intensificaram suas operações militares para estabelecer uma zona de exclusão aérea prevista em resolução aprovada na quinta-feira pelo Conselho de Segurança da ONU. A ofensiva, liderada por EUA, Reino Unido e França, conta também com a participação de Canadá, Catar, Espanha e Itália.

Nesta segunda-feira, aviões franceses voltaram a decolar de suas bases para retomar pelo terceiro dia consecutivo as operações, informou o Ministério da Defesa. Nem o ministério nem o Estado-Maior do Exército quiseram dar detalhes sobre o programa do dia, afirmando que uma coletiva será concedida às 17h30 do horário local (13h30 de Brasília) para detalhar a intervenção.

O dispositivo francês se reforçou nas últimas horas, em particular com o porta-aviões "Charles de Gaulle", que zarpou no domingo do porto de Tolano, sudeste da França, para se dirigir ao local de operações.

Após a nova rodada de ataques do domingo, um porta-voz do Exército líbio informou que o regime de Kadafi havia anunciado um novo cessar-fogo. Mas Tom Donilon, conselheiro para Segurança Nacional do presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o anúncio "era uma mentira". O cessar-fogo "era uma mentira e foi imediatamente violado" pelo regime líbio, afirmou Donilon à imprensa no Rio de Janeiro, onde Obama encerrou no domingo sua viagem ao Brasil.

Em uma declaração no Pentágono, Gortney disse que a ofensiva aliada iniciada no sábado "foi muito efetiva", não tendo sido detectada nenhuma atividade aérea da Líbia. Segundo ele, a capacidade de defesa antiaérea líbia foi "fortemente atingida" pelos ataques de aviões e mísseis da coalizão, o que permite a instalação "efetiva" de uma zona de exclusão aérea sobre o país, como determina a resolução da ONU.

"Benghazi (reduto da oposição e epicentro dos protestos no leste do país) não está completamente protegida de ataques das forças de Kadafi, mas certamente está sob menor ameaça do que ontem (sábado)", afirmou. "Acreditamos que as forças de Kadafi estão sob estresse considerável e sofrendo com isolamento e confusão", acrescentou.

Ataques pela manhã

Na manhã de domingo, pelo menos 19 aviões americanos, entre eles três bombardeiros furtivos B2 ("Stealth bomber"), atacaram alvos na Líbia durante o amanhecer. De acordo com a rede de televisão CBS, os bombardeiros lançaram 40 bombas contra uma grande base aérea líbia .

Um dia depois de forças europeias e americanos terem começado a operação, o líder líbio fez um novo discurso desafiador, prometendo retaliação e dizendo que a Líbia está preparada para manter uma "longa guerra". "Prometemos uma guerra longa e extensa sem limites", disse. "Vamos lutar palmo a palmo."

De acordo com correspondentes da AFP e rebeldes, dezenas de veículos militares de Kadafi, entre eles tanques, foram destruídos por bombardeios aéreos no oeste de Benghazi. Tanques destruídos, canhões de artilharia queimados e corpos de membros das forças pró-Kadafi eram visíveis no local bombardeado, situado a cerca de 35 a oeste de Benghazi.

O governo líbio diz que os bombardeios deixaram 64 mortos e mais de 150 feridos, mas a informação não foi verificada de forma independente. Os EUA disseram que não têm registro de mortos. "Não há indícios de vítimas civis", disse neste domingo o almirante americano Gortney.

Reuters
Rebelde observa carro das forças de Kadafi destruído por ataque da coalizão em estrada entre Benghazi e Ajdabiyah
Em um discurso transmitido pela televisão estatal líbia, Kadafi prometeu uma vitória contra o que chamou de "novo nazismo" e disse que está "armando todos os líbios". "Estamos em nossa terra. Os líbios estão unidos atrás de um comando unificado. Lutaremos em uma frente ampla", disse Kadafi, que qualificou os líderes aliados de "selvagens e criminosos".

No sábado à noite, ele acusou as potências ocidentais de "colonialismo" e pediu ao povo que empunhe armas para defender a revolução que ele lidera. "Essa agressão só torna o povo líbio mais forte e consolida sua vontade", disse. Contra os inimigos, disse, o regime abrirá "os depósitos de armas para defender a unidade, soberania e poder da Líbia".

Sucesso inicial

Segundo o chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o almirante Michael Mullen, o início da operação internacional destinada a destruir as defesas aéreas do regime líbio e estabelecer uma zona de exclusão aérea no país "teve êxito" e interrompeu a ofensiva do governo sobre Benghazi.

Ao programa "The Week", Mullen disse as tropas leais a Kadafi "já não estão marchando sobre Benghazi". Os comentários foram feitos depois de barcos de guerra americanos e um submarino britânico dispararem no sábado ao menos 110 mísseis de cruzeiro Tomahawk contra locais de defesa antiaérea do regime líbio.

O Conselho de Segurança da ONU autorizou na quinta-feira o uso da força e a imposição de uma zona de exclusão aérea para proteger a população líbia da contraofensiva lançada por Kadafi contra a rebelião que, desde meados de fevereiro, tomou o controle de várias cidades.

*AP, AFP EFE e New York Times

    Leia tudo sobre: libiakadafiunião europeiazona de exclusão aéreaeua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG