EUA e aliados discutem exílio para presidente sírio Assad

Conselho de Segurança vive impasse e busca amenizar resolução, enquanto Rússia afirma que continuará a fornecer armas à Síria

iG São Paulo |

Os Estados Unidos e os governos árabes e europeus começaram a discutir a possibilidade de exílio para o presidente sírio Bashar al-Assad, apesar do ceticismo com a hipótese de que o líder aceite a oferta, informaram nesta quinta-feira autoridades ocidentais à Reuters.

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Reuters
Manifestantes anti-Assad protestam em Qudsaya, perto de Damasco (1/2)

Até o momento, não houve progressos nesses diálogos e não há uma sensação real de que a queda de Assad seja iminente. Apesar disso, uma fonte oficial disse que até três países estariam dispostos a receber o presidente para colocar um fim aos 11 meses de violência na Síria.

Duas fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que nenhum país europeu aceitaria dar asilo a Assad, mas um funcionário afirmou que os Emirados Árabes Unidos estariam abertos a isso. Segundo a AFP, a Turquia pode estudar a possibilidade de oferecer asílio à família de Assad.

Saiba mais: Turquia quer ser resposta para questões do Oriente Médio

O presidente Abdullah Gul, citado pela imprensa turca, disse que não há nenhuma confirmação nesse sentido, mas "se nos fizer o pedido, o estudaremos, evidentemente".

Assad está cada vez mais isolado do cenário internacional devido à repressão violenta aos manifestantes que pedem democracia na Síria. A Liga Árabe - grupo formado por 22 países árabes - solicitou ao Conselho de Segurança da ONU que imponha um ultimato para que Assad se afaste do poder , mas a Rússia e a China se opõem. Em resposta a essa pressão, Assad intensifica os ataques contra a oposição.

As fontes, que falaram sob condição de anonimato, disseram que as discussões sobre o exílio de Assad não foram uma iniciativa nem dos EUA nem da União Europeia. Vários países árabes já vinham falando nisso como uma possibilidade para acabar com a violência na Síria.

"Entendemos que alguns países se ofereceram para recebê-lo caso ele opte por deixar a Síria", disse um alto funcionário do governo norte-americano, sem citar nenhum país.

Antes disso, no entanto, seria preciso esclarecer se Assad ganharia algum tipo de imunidade judicial - algo a que a oposição síria e grupos internacionais de direitos humanos devem se opor. "Há dúvidas significativas sobre a responsabilidade pelos terríveis abusos que foram cometidos contra o povo sírio", disse o funcionário norte-americano.

"Afinal, essas questões serão deliberadas pelo povo sírio em concordância com os parceiros regionais e internacionais. Trata-se do que os sírios precisam para acabar com a crise e iniciar o processo de reconstrução do país."

Enquanto os funcionários dos EUA afirmam que o exílio é uma opção válida, uma fonte europeia manifestou dúvidas sobre sua eficácia, uma vez que Assad não dá sinais de que aceitará sair voluntariamente.

Bruce Reidel, ex-analista da CIA que tem dado assessoria ao presidente dos EUA, Barack Obama, disse que os países árabes aparentemente tentam moldar para a Síria uma solução política inspirada na do Iêmen.

Após meses de conflito político no Iêmen, um acordo político mediado pela Liga Árabe levou ao afastamento do presidente Ali Abdullah Saleh e à convocação de eleições para o próximo dia 21. "Assad e sua esposa recebem um asilo seguro", disse Reidel, que hoje trabalha no Instituto Brookings, de Washington. "Mas quem o receberá? O Irã? A Rússia? O Reino Unido? E ele terá imunidade como Saleh?"

Resolução no Conselho de Segurança

Enquanto paralelamente diplomatas discutem sobre a possibilidade do exílio, os membros do Conselho de Segurança da ONU decidiram amenizar uma resolução contra a Síria em uma aparente tentativa de superar as objeções da Rússia ao relatório anterior.

AP
A secretária de Estado americana Hillary Clinton pisca para o chanceler britânico William Hague durante reunião na ONU (31/1/2012)

Segundo a BBC, que teve contato com o novo documento, no texto revisado, a ONU retira o pedido de renúncia de Bashar al-Assad para que ele entregue o poder ao seu vice - o ponto mais importante do plano de paz proposto pela Liga Árabe.

O novo documento também retira uma referência à proibição de venda de armas para a Síria. Os embaixadores na ONU começaram as negociações na quarta-feira, após uma importante reunião na qual representantes árabes pediram que o Conselho apoie o quanto antes o plano de paz da Liga Árabe para colocar um fim na crise.

Fontes da diplomacia afirmam à BBC que os Estados do ocidente devem apoiar o novo texto - elaborado pelo Marrocos - com a condição de que consiga uma aprovação da Rússia, em vez de uma abstenção.

A Rússia confirmou que continuará fornecendo armamento à Síria até que a situação se estabilize e deixou sem resposta a questão sobre se suas armas foram usadas para disparar contra manifestantes. "Não estamos infringindo nenhuma lei internacional. O que não esta proibido é permitido", disse o vice-ministro da Defesa Anatoli Antonov

Antonov garantiu que a venda de armas a Damasco, um dos principais clientes da indústria militar russa, está dentro da lei russa e das legislações internacionais. O vice-ministro ressaltou que Moscou nunca vendeu ao governo sírio um "armamento ofensivo", ou seja, que altere o equilíbrio de forças no Oriente Médio.

"A Síria está satisfeita com a cooperação técnica militar com a Rússia. Não há nenhuma restrição às nossas provisões. Devemos cumprir com nossas obrigações e é o que estamos fazendo", disse.

O vice-ministro respondeu as acusações de que as armas russas como os fuzis Kalashnikov são utilizadas pelas forças de segurança sírias contra os opositores do país árabe. "Eu não diria que os manifestantes estão sendo assassinados com armas russas", afirmou.

O vice-ministro lembrou que 90% dos Kalashnikovs usados no mundo são contrabandeados e não fabricados em território russo. Ele ressaltou que a Rússia faz rastreamento de todas as armas exportadas, incluindo as enviadas a Síria.

"Temos acordo com a Síria sobre o controle do armamento russo que entra em seu território. Está tudo documentado. Podemos comprovar a finalidade de nossas armas", detalhou.

De acordo com a imprensa russa, Moscou vai fornecer à Síria 36 aviões de instrução de combate Yak-130 por meio de um contrato assinado em dezembro. Neste mês, a Rússia confirmou o envio a Damasco de sistemas móveis lança mísseis litorâneos e mísseis de cruzeiro através de um contrato selado em 2007.

Israel e os EUA consideram que esses mísseis supersônicos de até 300 km de alcance representam uma ameaça para seus navios ancorados no Mediterrâneo. A Rússia garantiu na quarta-feira que vai vetar qualquer resolução que contemple a intervenção militar na Síria.

Posição russa: 'Resolução na ONU abrirá caminho para guerra na Síria'

O Kremlin, que acusa os EUA de quererem aplicar o roteiro líbio - sanções internacionais, embargo aéreo, intervenção ocidental e mudança de regime - na Síria, já vetou em outubro junto à China um projeto europeu que condena Damasco pela repressão violenta das manifestações opositoras.

Aniversário de massacre

Grupos de direitos humanos afirmam que mais de 7 mil foram mortos pelas forças de segurança sírias desde o início da revolta, enquanto a ONU tem uma estimativa de 5,4 mil mortos. O governo sírio afirma que 2 mil de seus agentes foram mortos, vítimas de grupos terroristas e gangues.

Somente na quarta-feira, ao menos 43 pessoas foram mortas pelas forças de segurança, segundo um grupo ativista sírio.

Nesta quinta-feira, soldados sírios bloquearam as praças públicas da cidade de Hama, depois que moradores jogaram tinta vermelha simbolizando sangue no chão para marcar o 30º aniversário do massacre ordenado pelo pai de Bashar al-Assad durante um levante contra seu governo.

Ativistas em Hama disseam que caminhões de bombeiro limparam a tinta do chão durante a noite. A matança perpetrada em 1982 pelo pai de Assad na cidade - centro de uma revolta islâmica contra ele - custou mais de 10 mil vidas.

"Eles querem enterrar as memórias e não querem que nos lembremos", afirmou um ativista da cidade, onde os moradores disseram que tanques bloquearam as praças principais para evitar protestos. "Mas não aceitaremos isso."

Com Reuters, AP, AFP, EFE e BBC

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