EUA adotarão sanções contra a Líbia

União Europeia também fecha acordo para sanções contra país africano; EUA também estudam sanções multilaterais com Europa

iG São Paulo |

AFP
Porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, anuncia sanções dos EUA à Líbia depois da repressão às manifestações do país
Os EUA anunciaram nesta sexta-feira que imporão sanções à Líbia em resposta à repressão do regime aos opositores que reivindicam a renúncia do líder Muamar Kadafi.

O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, indicou que, entre outras medidas, os EUA devem congelar a venda de armas à Líbia e a "limitada" cooperação militar existente entre os dois países. Além disso, os EUA colocaram bancos para monitorar e notificar movimentações financeiras do país.

Carney afirmou que os EUA finalizarão o processo das punições nesta sexta-feira. Segundo ele, Washington também está trabalhando com os parceiros europeus em sanções adicionais e em outras ações multilaterais.

O porta-voz disse que Obama se reunirá com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em Washington, na segunda-feira, para discutir a situação no país do norte da África.

A decisão de impor sanções unilaterais ao regime foram anunciadas depois de uma autoridade americana ter informado que os EUA fecharam sua embaixada na capital do país, Trípoli, após a retirada de todos os seus funcionários por meio de um navio e um voo fretado. Segundo a autoridade, as operações na embaixada foram suspensas por causa da deterioração da situação de segurança. A retirada da Líbia também inclui um grupo de 148 brasileiros que estavam em Benghazi , segunda maior cidade do país, que embarcaram em um navio para Atenas, na Grécia.

O anúncio foi feito antes de o Conselho de Segurança da ONU discutir nesta sexta-feira um projeto de sanções contra os líderes líbios, em meio a informações de que forças de segurança abriram fogo durante protestos de milhares de manifestantes na capital do país .

Nesta sexta-feira, a União Europeia (UE) fechou um acordo sobre um novo pacote de sanções contra a Líbia, entre as quais se destacam um embargo armamentista e o congelamento dos bens do clã Kadafi em território comunitário, informou a Alemanha. De acordo com o Ministério de Assuntos Exteriores alemão, a medida foi pactuada nesta sexta-feira entre os 27 países do bloco e será sancionada formalmente no início da semana que vem.

Dentre as sanções estipuladas está também a proibição a Kadafi e a seus familiares de entrar em quaiquer dos países da UE. Em outra medida de pressão, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU adotou nesta sexta-feira uma resolução por consenso para enviar uma missão para investigar as violações na Líbia e recomendou que o país seja suspenso da entidade.

A pressão internacional aumentou no mesmo dia em que, em um novo pronunciamento transmitido pela TV estatal, o líder líbio, Muamar Kadafi, ameaçou liberar o arsenal do país "quando necessário" para armar o povo da Líbia contra o "inimigo". Kadafi prometeu triunfar sobre seus inimigos e exortou os partidários reunidos na Praça Verde a proteger a Líbia e os interesses petrolíferos do país .

Vestido com um chapéu de pelo e óculos de sol, Kadafi dirigiu-se à multidão do Castelo Vermelho, um forte histórico, tendo uma visão geral da Praça Verde, onde mais de mil partidários estavam na tarde desta sexta-feira portando fotos do líder líbio e bandeiras verdes. "Preparem-se para lutar pela Líbia, preparem-se para lutar pela dignidade, preparem-se para lutar pelo petróleo."

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Reprodução da TV estatal da Líbia mostra o líder Muamar Kadafi acenando para partidários na Praça Verde, em Trípoli
Confrontos em Trípoli

Em pelo menos três bairros da capital houve registro de tiroteios depois das preces de sexta-feira, com as forças de segurança atuando para dispersar os manifestantes que se reuniam para marchar nas ruas ou para deliberadamente atingi-los.

Líderes rebeldes disseram que estão enviando forças para cidades vizinhas e para outras partes do país para unir-se aos combates. Também há informações não confirmadas de que uma base aérea fora da capital está sob o controle dos opositores.

Algumas testemunhas, em entrevistas por telefone com agências de notícias, disseram que vários foram feridos ou mortos em Trípoli. Com o acesso limitado aos jornalistas, é impossível verificar os relatos de forma independente.

Citando uma testemunha não identificada, a Reuters afirmou que a violência deixou pelo menos cinco mortos no distrito de Janzour, no oeste da capital. Outras testemunhas de bairros do leste da capital, como Ben Ashur e Fashloum, também disseram que houve disparos contra opositores de Muamar Kadafi que gritavam slogans contra o líder líbio.

"As forças de segurança dispararam contra os manifestantes sem fazer distinção. Há mortos nas ruas de Sug Al Joma", indicou um habitante desse bairro citado pela agência EFE.

Os desdobramentos da crise líbia já indicavam o que vinha sendo chamada de antemão "a batalha de Trípoli". O leste do país – onde estão cidades como Benghazi, Tobruk e Ajdabiya – permanece sob controle firme da oposição, mas o governo lançou ofensivas para tomar o controle das localidades próximas ou a oeste de Trípoli, como Zuara, Sabratha, Misrata e Al Zawiya.

Até a quinta-feira, os relatos eram de que a cidade de Al Zawiya, a 50 km de Trípoli, era palco de alguns dos mais sangrentos enfrentamentos. Na terceira cidade do país, Misrata, a 200 km da capital, foram registrados combates pelo controle do aeroporto. Mas os relatos são que a cidade também caiu em favor dos rebeldes.

Nesta sexta-feira, centenas de milhares se reuniram em Benghazi, epicentro dos protestos contra o regime de Kadafi, para exigir a renúncia do líder líbio.

Pressão internacional

Após o anúncio de sanções dos EUA e da UE, os olhares estão centrados na reunião desta sexta-feira do Conselho de Segurança da ONU em Nova York, com a expectativa de que sejam aprovadas medidas urgentes para deter o "alarmante" aumento da repressão no país, onde além de milhares de mortos e feridos, há "massacres, detenções arbitrárias e torturas", segundo a ONU.

A criação de uma zona de exclusão aérea, com o objetivo de impedir aviões militares líbios de operar e atacar manifestantes, pode ser uma das medidas, disse nesta sexta-feira uma fonte diplomática durante a reunião de ministros da Defesa da União Europeia.

Além disso, a reunião do Conselho de Segurança analisará uma proposta de resolução franco-britânica, que inclui a imposição de sanções, o embargo total de armas e o recurso ao Tribunal Penal Internacional, afirmou a ministra de Relações Exteriores francesa, Michèle Alliot-Marie.

A decisão de que o principal órgão decisório da ONU se reúna pela segunda vez em três dias foi tomada após Obama conversar por telefone com seu colega francês, Nicolas Sarkozy, e com os primeiros-ministros britânico, David Cameron, e italiano, Silvio Berlusconi.

Na abertura da sessão especial do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, em que foi recomendada a suspensão da Líbia do Organismo, a Alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, expôs com contundência a situação na Líbia. "As forças líbias atacam manifestantes e transeuntes, bloqueiam bairros e disparam a partir dos telhados. Também bloqueiam ambulâncias para que os feridos e mortos sejam abandonados nas ruas", explicou.

Pillay insistiu em que as atrocidades do regime de Kadafi podem constituir crimes contra a Humanidade e pediu a "Tunísia, Egito, Itália e Malta" que mantenham suas fronteiras abertas. O Programa Mundial de Alimentos (PAM) alertou que a rede de distribuição de alimentos na Líbia pode ser paralisada, já que o país é um importador de alimentos e o transporte está bloqueado por causa da revolta e a repressão.

A Líbia foi eleita em maio de 2010 para o Conselho após obter 155 votos em uma votação secreta dos 192 estados da Assembleia Geral. O país pode ser suspenso do órgão se dois terços dos membros dos Estados membros da ONU reunidos na Assembleia Geral aprovarem a medida.

O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, convocou nesta sexta-feira uma reunião urgente da aliança sobre a Líbia, embora esta deva ser orientada a revisar as possíveis medidas de retirada e assistência humanitária na região, onde continua o fluxo incessante de refugiados.

*Com BBC, EFE, AFP, Reuters e New York Times

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