'Estamos testemunhando a história', diz Obama sobre o Egito

No Cairo, milhares mantêm pressões sobre governo enquanto há informações de que presidente egípcio deve renunciar

iG São Paulo |

Em meio a rumores de renúncia do presidente egípcio, Hosni Mubarak, o presidente americano, Barack Obama, disse que os Estados Unidos estão atentos aos protestos e mudanças no Egito. “Estamos testemunhando a história. Uma transformação está acontecendo porque a população do Egito está pedindo mudança”, disse nesta quinta-feira.

AP
Obama falou sobre o Egito durante visita à Universidade do Norte de Michigan, em Marquette
Em sinal de apoio aos manifestantes egípcios, Obama disse que os EUA trabalharão em prol da transição democrática no país africano. “Queremos que esses jovens e todos os egípcios saibam que o governo americano vai continuar trabalhando para ajudar na transição”, garantiu. “O que acontece no globo, afeta a todos nós”. 

O presidente do Egito, Hosni Mubarak, fará um pronunciamento às 22h locais (18h em Brasília), enquanto autoridades do governo indicaram esperar sua renúncia e o Exército anunciou que está intervindo nas questões de Estado em uma tentativa de pôr fim à mobilização popular que nesta quinta-feira completa 17 dias.

O Exército egípcio anunciou em discurso televisionado que tomou medidas para "salvaguardar o país"  também assegurou aos manifestantes que pedem a renúncia de Mubarak que suas demandas serão atendidas. Em Washington, o chefe da CIA (Agência de Inteligência dos EUA), Leon Panetta, disse que há "grande probabilidade" de que Mubarak anunciará sua renúncia.

O ministro da informação do Egito, porém, negou que Mubarak tomará tal medida. O comentário de Anas el-Fiqqi à televisão estatal levantou a possibilidade de que o presidente egípcio poderia anunciar uma "meia-medida", como manter seu título enquanto abre mão de seus poderes executivos.

But the minister's comment raises the possibility that Mubarak could announce a half-measure, such as keeping his title while relinquishing his executive powers.

Milhares inundaram a praça Tahrir, que virou símbolo dos protestos antigoverno iniciados em 25 de janeiro, gritando "Estamos quase lá, estamos quase lá" e balançando suas mãos com os sinais de vitória. Mas a euforia de que eles estão se aproximando de seu objetivo foi atenuada pelas preocupações de que o Exército assuma o poder e distancie a possibilidade de verdadeira democracia no país, com muitos prometendo manter os protestos.

O primeiro-ministro do Egito, Ahmed Shafiq, disse à rede britânica BBC que acreditava que Mubarak pode renunciar e que a situação no país será esclarecida em breve, nesta quinta-feira. Segundo a BBC, um membro sênio do governista Partido Nacional Democrata espera que Mubarak transfira o poder para o vice-presidente Omar Suleiman.

Os rumores sobre a renúncia do presidente ocorrem no 17º dia de manifestações contrárias ao governo de Mubarak, no poder há quase 30 anos.

De acordo com o jornal americano The New York Times, não há confirmação imediata de que o Exército deseja tomar o lugar do governo nomeado por Mubarak, mas manifestantes opositores na praça Tahrir receberam a notícia - e rumores de que os militares tomariam o controle - com alegria.

Redes de televisão como a Al-Jazeera mostraram multidões na praça Tahrir comemorando, balançando bandeiras e cantando: "O Exército e o povo em uma só mão."

Críticas aos EUA

Antes dos rumores sobre a renúncia, o regime de Mubarak cogitou a ameaça de um golpe de Estado e denunciou a ingerência dos EUA, seu principal aliado que também reivindica uma aceleração das reformas no país árabe . As críticas a Washington ocorrem enquanto médicos aderiram às manifestações entrando em greve, unindo-se a vários trabalhadores que pararam suas atividades na véspera .

O ministro do Exterior do Egito, Ahmed Aboul Gheit, rejeitou o que chamou de tentativas do governo americano de impor sua vontade sobre o governo egípcio. Em entrevista à rede de TV americana PBS, Gheit disse ter ficado "atônito" ao saber das declarações do vice-presidente americano Joe Biden, que na noite de terça-feira havia pedido que o governo egípcio suspendesse imediatamente o estado de emergência em vigor há 30 anos no país.

"Fiquei realmente atônito, porque neste momento há 17 mil prisioneiros soltos nas ruas após escapar de prisões que foram destruídas. Como podem me pedir para dissolver o estado de emergência enquanto estou em dificuldades?, indagou.

Ao ser questionado se os pedidos do governo americano por mudanças imediatas e significativas são um conselho útil de um amigo, o ministro respondeu que "de maneira alguma". "Quando falam de rápido, imediato, agora", disse o ministro, "estão impondo sua vontade (sobre o Egito)." Ele afirmou, no entanto, que acredita que as boas relações entre Estados Unidos e Egito vão continuar.

Manifestações

O "Movimento 6 de Abril", que convocou a primeira manifestação em massa contra o regime egípcio em 25 de janeiro, pediu nesta quinta-feira a renúncia de Suleiman, enquanto milhares continuam com os protestos em todo o país.

Ao mesmo tempo, médicos vestindo jalecos brancos entraram na praça Tahrir para participar dos protestos. Um importante hospital do Cairo teve de fechar enquanto estimados 3 mil membros de sua equipe aderiram à paralisação.

Milhares de manifestantes, em aberto desafio ao toque de recolher, voltaram a passar a noite na praça Tahrir do Cairo, convertida em reduto da rebelião desde 25 de janeiro. Durante a madrugada, os manifestantes gritaram "o povo quer a queda do regime", frase que resume os protestos contra Mubarak, que está no poder há praticamente 30 anos.

Os manifestantes também gritaram frases contra Alaa, filho mais velho do presidente. Muitos exibiam fotos dos "mártires", as vítimas da violência que deixou 300 mortos , segundo a ONU e a ONG Human Rights Watch, desde o início do movimento.

Novas barracas foram instaladas na praça situada no centro do Cairo, que virou o símbolo da revolta iniciada em 25 de janeiro e é ocupada desde o dia 28. Os tanques do Exército permanecem posicionados nas proximidades do Museu Egípcio, perto da praça.

Na quarta-feira, centenas cercaram o Parlamento e a sede do governo, que ficam frente a frente, e passaram a noite na calçada que leva ao Parlamento. Nesta quinta-feira, as duas entradas da avenida que leva ao Parlamento estavam bloqueadas. "Não ao (vice-presidente Omar) Suleiman!", "Não aos agentes americanos!", "Não aos espiões israelenses!", "Abaixo Mubarak!", gritavam os manifestantes.

"Se não morrermos aqui, morreremos na prisão. Prefiro morrer aqui", afirmou Attiya Abu El Ela, um desempregado de 24 anos.

Na terça-feira, adotando um tom mais duro, o ministro das Relações Exteriores egípcio, Ahmed Abul Gheit, advertiu que o Exército atuaria no caso de caos para retomar o controle da situação. O presidente Barack Obama, por sua vez, pediu que o Exército egípcio continue "demonstrando a mesma moderação dos últimos dias", informou a Casa Branca.

O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, criticou a timidez das reformas feitas pelo governo egípcio para aplacar o clamor popular. "Está claro que as medidas promovidas até o momento pelo governo egípcio não alcançaram o limite mínino para o povo egípcio", afirmou.

O porta-voz da Casa Branca disse também que Washington está revisando seu programa de ajuda ao Egito, e a moderação do governo egípcio e a implementação de reformas determinarão o futuro do programa. O Egito recebe dos EUA mais de US$ 1 bilhão por ano em assistência, grande parte destinada ao setor militar.

Segundo o brutânico The Times, a Arábia Saudita se ofereceu para apoiar economicamente Mubarak se Washington tentar forçar uma rápida mudança de regime no Egito.

Reformas

Entre as medidas tomadas pelo Egito para tentar apaziguar a situação, na quarta-feira a comissão encarregada pelo presidente Mubarak de sugerir emendas à Constituição propôs a mudança de seis artigos polêmicos.

Como pede a oposição, as modificações seriam feitas no artigo 76, que exige condições muito restritas às candidaturas políticas; no 77, que não fixa limite ao número de mandatos presidenciais; e no artigo 88, que define as modalidades de supervisão das eleições.

No domingo, Suleiman iniciou um diálogo com as forças de oposição, entre elas a poderosa Irmandade Muçulmana e personalidades políticas independentes para debater as reformas.

A Irmandade Muçulmana , principal força de oposição no Egito, por sua vez, assegurou que não busca o poder, apesar de seus inúmeros pedidos para que Mubarak renuncie de imediato.

"Não queremos participar no momento. Não queremos apresentar um candidato à presidência (nas eleições previstas para setembro)", afirmou Mohamed Mursi, um alto dirigente do movimento.

"Não é uma pessoa, um partido ou um grupo que encabeçam as manifestações. Ninguém pode fingir que dirige a multidão", acrescentou o dirigente da poderosa confraria, oficialmente proibida pelas autoridades egípcias há meio século. "Estamos com a vontade do povo, com a maioria do povo egípcio. Nós não somos a maioria", disse.

*Com AP, AFP, BBC e EFE

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