'Espero aflita que meus filhos voltem da escola', diz brasileira

Mulheres do Brasil que vivem na Síria relatam medos e preocupações em meio à revolta contra o presidente Bashar Al-Assad

BBC Brasil |

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A crise na Síria já dura pouco mais de um ano e a capital Damasco sofre com a violência entre rebeldes armados e tropas leais ao governo do presidente Bashar al-Assad. Duas brasileiras falaram com a BBC Brasil sobre suas vidas diárias na capital síria, além de seus medos e preocupações com os filhos e amigos em um país à beira de uma guerra civil.

Todos os dias, a brasileira Raquel, natural de São Carlos (SP), fica aflita até a hora que os três filhos e o marido chegam em casa. "Meus filhos vão à escola e nunca sabemos o que pode acontecer. Eu e meu marido orientamos eles a virem direto para casa", disse ela por telefone.

AP
Sírios fazem protesto contra o presidente Bashar Al-Assad em Damasco (01/04)

Outra brasileira, Fátima, disse que manifestações a favor ou contra o governo podem ocorrer repentinamente, e que a violência entre os dois lados é comum. "E também já aconteceram tiroteios entre rebeldes e tropas do governo. As pessoas têm medo das balas perdidas".

As duas brasileiras pediram para que seus nomes fossem mudados e algumas informações, como as profissões de seus maridos sírios, fossem omitidas.

Subúrbios

Desde o início do levante popular, manifestações contra Bashar al-Assad foram reprimidas com força pelo governo. A ONU estima que mais de 8 mil pessoas já morreram na Síria por causa dos bombardeios indiscriminados das tropas governamentais contra cidades que abrigam ativistas pró-democracia e rebeldes antigoverno.

Desertores do Exército e civis formaram um grupo chamado Exército Livre da Síria (ELS) para combater o Exército regular do país. O governo alega que combate "terroristas e gangues armadas" e que mais de 2 mil membros de suas forças de segurança já morreram nos confrontos.

A capital Damasco, sob forte controle do governo, passou a testemunhar confrontos armados entre o ELS e tropas ao regime sírio nos bairros da cidade. Manifestações eventuais pró e antigoverno também ocorrem em alguns bairros.

O governo sírio restringe a entrada de jornalistas estrangeiros no país, por isso as alegações não podem ser confirmadas de forma independente. "A pressão sobre as pessoas está muito grande e é muito difícil para nós falarmos com a mídia", salientou Fátima.

Mudança de hábitos

Raquel contou que a vida mudou em seu bairro de Yarmouk, no sul da capital. "Como dona de casa, eu ainda faço compras, vou às lojas e converso com amigos nas ruas do meu bairro. Mas dá para sentir a tensão no ar e o comércio fecha agora mais cedo. Qualquer boato de confrontos ou manifestações, as lojas fecham imediatamente", contou ela.

Raquel explicou que a família teve que mudar os hábitos para evitar que seus filhos se envolvessem em ambos os lados na crise do país. "As mulheres não se envolvem tanto como os homens. Sentimos mais medo, especialmente dos tiroteios".

A brasileira contou que de sua casa conseguia escutar os tiros e explosões quando os supostos rebeldes do ELS entravam em combate com o Exército e forças de segurança do governo. "De uma hora para outra combates podem ocorrer. Por isso espero aflita até a hora que meus filhos e marido chegam em casa. Se atrasam, ligo para saber. Proibi meus filhos de pararem no caminho da escola para conversar com amigos", disse.

Segundo ela, em casa os hábitos também mudaram, com os noticiários sendo os programas que mais assistem na televisão. "Antes assistíamos mais às novelas e filmes. Hoje, acompanhamos mais os noticários com ansiedade, esperando que a vida volte ao normal".

'Perdi uma amiga'

Em outro bairro ao norte de Damasco, Harasta, a também dona de casa Fátima contou à BBC Brasil que a maior tristeza que viveu em sua vizinhança foi ter perdido uma amiga síria por conta dos confrontos armados entre oposicionistas e tropas governamentais.

Um dia meu marido chegou e disse que tinha uma notícia ruim para me dar. Disse que uma amiga nossa havia morrido por causa de uma bala perdida. Fiquei muito triste", falou a brasileira, natural de Niterói (RJ).

Seu bairro de Harasta foi palco de intensos combates entre rebeldes e governo em novembro do ano passado, quando desertores do Exército atacaram uma base militar da temida Inteligência da Força Aérea. A operação foi, até então, o maior ataque realizado por opositores contra um alvo do governo.

Apesar do medo, ela tenta manter sua vida normal, indo aos supermercados e lojas, que fecham imediatamente quando ocorrem manifestações para reabrirem logo após. "Mas procuro não ficar até tarde nas ruas porque tudo é imprevisível".

Fátima falou que sempre se preocupa com o filho adolescente. "Há amigos dele se envolvendo em protestos. Eu e meu marido proibimos ele de participar de qualquer protesto, seja pró ou antigoverno. Todos os dias rezo para que ele volte em segurança para casa".

Ela disse que seus irmãos mo Brasil ligam para saber de sua segurança e da situação do país. "Mas não penso em sair de Damasco e voltar ao Brasil. Moro aqui há 30 anos e me sinto bem, apesar da crise".

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