Em meio a protestos, Síria promete estudar reformas

Porta-voz diz que governo avalia levantar estado de emergência e permitir multipartidarismo; hospital diz ter recebido 37 corpos

iG São Paulo |

Em meio a dias de tumultos em uma cidade no sul do país, o governo da Síria anunciou nesta quinta-feira que considera levantar o estado de emergência em vigor desde 1963 e que agirá para permitir mais liberdades políticas.

A conselheira presidencial Buthaina Shaaban disse que o governo está elaborando uma lei para permitir partidos políticos além do governista Baath. Ela também disse que o governo do presidente Bashar Assad começará a estudar o possível fim das leis emergenciais e estabelecer mecanismos para combater a corrupção.

AFP
Sírios protestam do lado de fora do consulado do país em Dubai, Emirados Árabes Unidos
Além disso, Buthaina prometeu salários mais altos para funcionários públicos. De acordo com a agência oficial Sana, Assad assinou um decreto na quarta-feira concedendo "um aumento salarial" imediato de até 30% para o funcionalismo. Os salários inferiores a US$ 200 dólares terão um reajuste de 30% e os de US$ 200 ou mais, de 20%, diz o decreto.

A pobreza afeta 14% dos 22 milhões de sírios, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O desemprego atinge 20% da população economicamente ativa, de acordo com especialistas independentes.

Segundo a conselheira presidencial, será formada uma comissão para averiguar a violenta repressão aos protestos na cidade de Deraa. Em coletiva em Damasco, ela disse que a comissão tem o objetivo de "estudar as reivindicações dos habitantes de Deraa, determinar responsabilidades e castigar os responsáveis por negligência".

As promessas parecem insuficientes para satisfazer manifestantes na cidade de Daraa depois de uma repressão violenta que deixou, segundo testemunhas, dezenas de mortos.

Protestos

Milhares saíram às ruas da cidade nesta quinta-feira para protestar contra a morte de manifestantes pelas forças de segurança do governo. Segundo testemunhas ouvidas pela agência AP, uma multidão marcha em direção ao cemitério local gritando a palavra "liberdade". No centro de Daraa, a presença militar foi reforçada. Na quarta-feira, forças de segurança sírias abriram fogo contra centenas que protestavam contra as mortes de manifestantes antigoverno em uma ação na madrugada em Deraa.

Segundo informações de quarta-feira, a repressão ao protesto deixou 15 mortos . O número de vítimas, porém, é incerto. O principal hospital da cidade diz ter recebido os corpos de pelo menos 37 manifestantes, elevando para 44 o número de civis mortos desde sexta-feira. Mas alguns grupos dizem que os mortos podem passar de cem. Por causa das restrições dos trabalhos de jornalistas na Síria, a imprensa internacional têm dificuldade para confirmar as informações. 

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu uma "investigação transparente" sobre os responsáveis pelas ações. O Departamento de Estado dos Estados Unidos se disse "profundamente preocupado pelo uso da violência pelo governo sírio, pela intimidação e pelas prisões arbitrárias para conter a habilidade de seu povo de exercer livremente seus direitos universais".

Os protestos contra o governo no sul do país, inspirados nas manifestações pró-democracia que vêm ocorrendo em outros países da região, são o maior desafio ao presidente Assad desde que ele assumiu o poder, sucedendo o próprio pai após sua morte, há 11 anos. A Síria é governada sob leis de emergência desde 1963.

'Massacre'

A violência de quarta-feira começou durante a madrugada, quando centenas se juntaram nas ruas no entorno da mesquita Omari, base das manifestações contra o governo desde a sexta-feira, para evitar que as forças de segurança invadissem o local.

Testemunhas disseram que pouco após a meia-noite o suprimento de energia para o local foi cortado e a polícia começou a disparar tiros e bombas de gás contra os manifestantes. Um ativista de direitos humanos disse ao serviço árabe da BBC que houve "um massacre" de "cidadãos inocentes, sem defesa e pacíficos, que estavam promovendo protestos pacíficos e não tinham nem mesmo pedras para se defender".

A TV estatal da Síria disse que uma quadrilha armada estaria operando de dentro da mesquita e mostrou o que seriam armas e munições guardadas no local. A TV também disse que o grupo estaria sequestrando crianças e as usando como escudos humanos.

Segundo o relato da TV estatal, as forças de segurança mataram quatro membros da quadrilha. À tarde, centenas de jovens dos vilarejos vizinhos de Inkhil, Khirbet, Ghazaleh e al-Harrah, se reuniram ao norte de Deraa e tentaram seguir em passeata ao centro da cidade.

Com BBC, AP EFE e Reuters

    Leia tudo sobre: síriamundo árabeprotestosBashar al-Assad

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG