Em meio à crise, Kadafi faz pronunciamento em TV

Líder desmentiu rumores de que teria viajado para a Venezuela e disse estar em Trípoli, capital da Líbia

iG São Paulo |

Em meio à tensão e à pressão de manifestantes e autoridades líbias que pedem sua renúncia, o presidente líbio, Muamar Kadafi , apareceu rapidamente na TV estatal na noite de segunda-feira para anunciar que ainda está no poder.

O líder quis deixar claro que não havia fugido do país e negou rumores. "Estou em Trípoli e não na Venezuela. Não acredite nesses covardes na mídia", falou, dentro de um carro ao lado de um prédio em ruínas, por volta das 2h de terça-feira (horário local).

Mais cedo nesta segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, havia dito que Kadafi estava a caminhho de Caracas, capital da Venezuela.

AP
Kadafi apareceu na TV estatal líbia por volta das 2h de terça-feira (horário local)
A aparição de 40 segundos ocorreu depois de ataques de aviões de guerra e helicópteros em Benghazi, segunda maior cidade do país, dominada pelos manifestantes da oposição . De acordo com testemunhas, as forças de segurança tinham como alvo opositores. O governo líbio, no entanto, nega que os civis tenham sido alvo. O filho de Kadafi, Saif Al-Islam Kadafi, disse que os alvos eram depósitos de armas em áreas remotas.

A emissora de TV árabe Al-Jazeera afirmou que, segundo diversas testemunhas, aviões da Força Aérea líbia bombardearam alguns locais da capital. "O que estamos testemunhando hoje é inimaginável. Aviões de guerra e helicópteros estão bombardeando indiscriminadamente uma área depois da outra. Há muitos, muitos mortos", disse um morador ouvido pela Al-Jazeera.

Mais cedo, dois jatos da Força Aérea da Líbia pousaram em Malta. Segundo a Reuters, os pilotos disseram à autoridades do país que tinham sido ordenados a bombardear manifestantes. Eles teriam se recusado a realizar a tarefa e um deles teria pedido asilo político.

Também há relatos de que militares estariam atirando contra manifestantes em Trípoli. A imprensa internacional tem dificuldade de confirmar as informações dadas por testemunhas por causa de um bloqueio imposto pelo governo líbio: jornalistas do exterior não podem entrar no país e o acesso à internet foi quase totalmente derrubado.

EUA

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, condenou a repressão na Líbia e disse que o governo é responsável pelos direitos dos manifestantes. "O governo da Líbia tem a responsabilidade de respeitar direitos universais do povo, incluindo o diverdo de liberdade de expressão. É hora de parar o inaceitável derramamento de sangue. Estamos trabalhando com amigos e parceiros ao redor do mundo para conduzir essa mensagem ao governo líbio".

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, falou ao telefone com Kadafi e manifestou “profunda profunda preocupação com o aumento crescente da violência” e solicitou o fim “imediato” dos atos violentos e apelou pelo respeito “às liberdades fundamentais e aos direitos humanos, incluindo os de associação pacífica e de informação.”

Países europeus se organizam para trazer de volta seus cidadãos na Líbia. "Estamos extremamente preocupados, coordenamos a evacuação eventual de cidadãos da União Europeia na Líbia, em particular de Benghazi", o centro da revolta, declarou a ministra espanhola das Relações Exteriores, Trinidad Jimenez, paralelamente a uma reunião com representantes europeus em Bruxelas. O primeiro-ministro iltaliano, Silvio Berlusconi, condenou a repressão na Líbia, que chamou de inaceitável.

Itália, Áustria, Portugal, Sérvia e Croácia anunciaram planos de retirada, com o envio de aviões militares para repatriar seus cidadãos na Líbia. Um avião militar decolou com 62 europeus com destino a Malta, segundo o Ministério da Defesa austríaco. O Itamaraty pediu atenção das autoridades da Líbia à retirada dos brasileiros do país e disse que representantes diplomáticos na Líbia estão em contato permanente com a comunidade brasileira no país.

Tensão

O governo da Líbia prometeu investigar episódios violentos registrados durante protestos da oposição, na tentativa de frear a onda de manifestações que atinge o país desde o dia 16 de fevereiro. A tensão aumentou nesta segunda-feira com a renúncia de autoridades do governo, relatos de novos abusos das forças de segurança e rumores de que o presidente Muamar Kadafi teria embarcado para a Venezuela.

Benghazi, a segunda maior cidade líbia, está desde domingo sobre o controle dos manifestantes. Os protestos chegaram à capital, Trípoli, onde forças de segurança leais a Kadafi protegem locais estratégicos como a sede da TV estatal e o palácio presidencial.

Em Trípoli, escolas, lojas e prédios do governo estão fechados. Pela manhã, era possível ver fumaça em pelo menos dois locais da capital, onde estão localizadas uma delegacia de polícia e uma base das forças de segurança. Os prédios teriam sido incendiados por manifestantes no domingo, durante choques com forças de segurança e partidário de Kadafi próximo à Praça Verde, no centro da cidade.

Em um sinal de ruptura com o governo, a delegação da Líbia na ONU acusou Kadafi de genocídio e fez um apelo por sua renúncia. Diversas autoridades - inclusive o ministro da Justiça, Mustafá Abdel Yalil, e diplomatas em diferentes países - renunciaram em protesto contra o uso excessivo de força na repressão das manifestações. Diplomatas que representavam o governo de Kadafi na China, na Índia e na Liga Árabe deixaram seus cargos em protesto ao governo.

De acordo com a organização americana Human Rights Watch, os protestos na Líbia deixaram pelo menos 233 mortos do dia 17 de fevereiro à noite de domingo. Há relatos de que apenas nesta segunda-feira 160 manifestantes teriam morrido.

Após a renúncia das autoridades, Saif el-Islam Kadafi anunciou a criação de uma comissão para investigar episódios violentos durante os protestos. A comissão será dirigida por um juiz, e incluirá membros de organizações de direitos humanas líbias e estrangeiras.

Líderes muçulmanos

Também nesta segunda-feira, uma coalizão de líderes muçulmanos líbios emitiu uma declaração dizendo que é obrigação de todo muçulmano se rebelar contra o governo líbio.

"Eles demonstraram total impunidade e até mesmo intensificaram seus crimes sangrentos contra a humanidade. Portanto, eles demonstraram total infidelidade à orientação de Deus e Seu amado Profeta (que a paz esteja com ele)", disse o grupo, chamado de Rede dos Ulemas (sábios religiosos) Livres da Líbia. "Isto os torna não merecedores de nenhum apoio ou obediência e faz com que a rebelião contra eles por todos os meios possíveis seja uma obrigação de origem divina", diz o texto.

O clérigo muçulmano Yusuf al-Qaradawi, que nasceu no Egito mas vive no Catar, pediu nesta segunda-feira a morte de Kadafi. "Qualquer pessoa no Exército líbio que puder atirar em Kadhafi deve fazê-lo", disse Qaradawi, 85 anos. Ele apresenta um programa popular na Al-Jazeera e possui ligações com a Irmandade Muçulmana, principal grupo de oposição do Egito.

Início dos protestos

Os protestos na Líbia foram desencadeados pela prisão de Fathi Terbil , advogado e notório crítico de Kadafi preso na semana passada em Benghazi. Terbil representa as famílias de vítimas do suposto massacre realizado por forças de segurança no presídio de Abu Slim, em Trípoli, em 1996.

Mais de mil prisioneiros foram mortos na ação de forças de segurança, em circunstâncias que ainda não foram esclarecidas. O presídio abriga opositores do governo e militantes islâmicos.

Uma multidão que contava com parentes dos presos mortos na ação marchou até a sede do governo local para exigir que Terbil fosse solto. Mesmo após a libertação do ativista, os manifestantes seguiram para a praça Shajara, no que se tranformou em protesto contra o governo.

Manifestações pró-democracia vêm se espalhando por diversos países árabes. Eles tiveram início na Tunísia em dezembro passado e provocaram a deposição do então presidente do país, Zine al-Abidine Ben Ali, no final de janeiro. Em fevereiro, uma série de manifestações provocou a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak.

Nos últimos dias, também ocorreram protestos em países como Bahrein, Argélia, Iêmen, Marrocos e Jordânia.

A capital, Trípoli, e a cidade portuária de Benghazi concentram protestos contra o governo

Arte/iG
A capital, Trípoli, e a cidade portuária de Benghazi concentram protestos contra o governo
*Com BBC

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