Egito realiza as primeiras eleições pós-Mubarak

Eleitores fazem fila para votar na primeira etapa do processo eleitoral; protestos continuam, mas não há registro de violência

iG São Paulo |

Egípcios formam longas filas nesta segunda-feira para votar nas primeiras eleições parlamentares do país desde a queda do ex-presidente Hosni Mubarak , em fevereiro, um importante passo em direção à democracia após mais de 30 anos de regime autoritário. A Irmandade Muçulmana, considerado o maior e mais organizado grupo político do Egito, deve se sair bem na votação.

Vários partidos denunciaram irregularidades e atrasos foram registrados em diferentes locais de votação. O Supremo Comitê Judicial para Eleições admitiu falhas e afirmou que a votação será estendida até 0h (horário local) para compensar os problemas.

Depois, o conselho militar divulgou que todas as sessões ficariam disponíveis até 21h do horário local, por duas horas a mais do que o previsto inicialmente, encerrando o primeiro dia de eleições às 17h no horário de Brasília.

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Reuters
Egípcios aguardam em fila para votar em colégio eleitoral na capital Cairo

Filas já se formavam antes mesmo de os colégios eleitorais abrirem, às 8h no horário local (4h de Brasília). Mais de 17 milhões de egípcios estão habilitadas para votar em nove províncias, entre elas Cairo e Alexandria, na primeira das três fases do processo eleitoral, que só será concluído em março.

No Cairo, muitos eleitores reclamaram que as urnas demoraram a ser abertas. Autoridades citaram diferentes problemas como demora na chegada das cédulas, falta de tinta e atraso de observadores que se perderam a caminho do local de votação.

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A segurança foi reforçada no Cairo, palco de intensos protestos e confrontos na última semana entre ativistas e policiais. Na manhã desta segunda-feira, manifestantes continuavam na Praça Tahrir, centro da cidade, em protesto contra a junta militar que governa o país. Porém, nenhum incidente violento foi registrado.

No domingo, o chefe da junta militar do Egito, Hussein Tantawi, alertou para consequências " extremamente graves " se o país não superar sua atual crise, afirmando que não permitirá que "encrenqueiros" atrapalhem a votação.

I rregularidades

Diferentes partidos denunciaram casos de compra de votos em todo o país. “Em alguns colégios há gente repartindo comida e bebida entre os eleitores, e em outros estão dando dinheiro mesmo”, disse o diretor de Operações do Partido Egípcios Livres, o mais importante do laico Bloco Egípcio, Walid Daudi Daudi.

Os Egípcios Livres também denunciaram que muitas cédulas não levam o selo da Comissão Eleitoral e parecem ser cédulas falsas. "Além disso, duas ou três escolas fecharam porque os juízes encarregados de supervisionar o pleito disseram que havia muita gente e os centros não tinham capacidade para que pudessem votar", disse Daudi.

Na entrada de um colégio eleitoral em Alexandria, jornalistas da agência EFE viram um homem entregando dinheiro a um eleitor que acabava de depositar suas cédulas em uma urna. Essa mesma pessoa abordou depois outros eleitores na entrada do colégio.

A junta militar reconheceu outras irregularidades, como a propaganda eleitoral de alguns partidos em frente a pontos de votação.

'Votando pela liberdade'

Na capital, os colégios eleitorais estão cheios, sugerindo ampla participação da população. “Estou votando pela liberdade”, disse Iris Nawar, 50 anos, antes de votar pela primeira vez no distrito de Maadi, subúrbio do Cairo. “Nós vivíamos em escravidão e agora queremos justiça e liberdade.”

Na região de Zamalek, cerca de 500 eleitores esperavam na fila do lado de fora de uma escola. Shahira Ahmed, de 45 anos, também nunca havia votado. "Nunca votei porque nunca pensei que fosse de verdade. Desta vez espero que seja, mas não estou otimista. O mais importante é ter um país livre e civilizado, sem fanáticos", afirmou, em alusão à Irmandade Muçulmana.

Em Alexandria, eleitores foram votar apesar da chuva e dos fortes ventos que atingem a cidade. Em um colégio eleitoral do bairro de Raml, seis soldados montavam guarda ao lado das urnas. “Escolham livremente, escolham em quem vocês querem voltar”, dizia um dos militares em um microfone.

A cidade é um dos principais redutos de partidários da Irmandade Muçulmana, grupo que passou décadas na ilegalidade até a queda de Mubarak. “Eles ficaram ao nosso lado quando a situação estava difícil”, afirmou Ragya el-Said, 47 anos, eleitor de Alexandria. “Temos muita confiança neles.”

A votação de hoje é para eleger os 498 integrantes da Assembleia Popular, a câmara baixa do Parlamento, e terá três etapas – em cada uma votarão os eleitores de diferentes regiões do país. Este processo acabará em janeiro.

Depois, o processo recomeça para a eleição da câmara alta, composta por 390 integrantes e também realizada em três etapas, que acabam em março.

Com AP e EFE

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