Egito pode ter referendo sobre reforma constitucional em 2 meses

Conselho militar à frente do governo se reuniu com ativistas que protestaram 18 dias pela saída do ex-presidente Hosni Mubarak

iG São Paulo |

O Supremo Conselho Militar que assumiu o governo do Egito espera que emendas à Constituição sejam rapidamente redigidas e levadas a referendo dentro de dois meses, abrindo caminho para a convocação de eleições, segundo jovens ativistas envolvidos nos protestos que derrubaram o presidente Hosni Mubarak na semana passada.

Wael Ghonim, executivo do Google que passou duas semanas detido por causa do seu envolvimento nos protestos, disse pelo Facebook que ele e sete outros ativistas se reuniram no domingo à noite com dois integrantes da junta militar. Foi o primeiro contato entre o Conselho Militar e os ativistas, em um sinal de que os generais compreendem que será impossível ignorar os responsáveis pela revolta.

AFP
Funcionários de empresa de tecelagem saem às ruas em Mansoura, 120 quilômetros ao norte do Cairo
"Um comitê constitucional conhecido por sua integridade, honra e sem ligação com nenhuma tendência política foi formado para concluir as emendas constitucionais no espaço de dez dias, e eles vão tentar fazer um referendo dentro de dois meses", disse a página do Facebook intitulada Somos todos Khaled Said, em homenagem a um ativista de Alexandria morto no ano passado sob custódia policial.

Abdel-Rahman Samir, outro ativista presente na reunião, no entanto, disse acreditar que os dois generais quiseram dizer que os artigos constitucionais merecedores de revisão serão identificados em dez dias, e não que a nova redação já estará pronta até lá.

Uma fonte do Exército disse que a prioridade imediata é restaurar a segurança e retomar a atividade econômica, e que o prazo de dois meses para o referendo é um "cronograma geral".

Parlamento

Os militares anunciaram no domingo que dissolveram o Parlamento e suspenderam a Constituição, e que governarão o país durante seis meses ou até que novas eleições sejam realizadas.

"Eles afirmaram que o Exército não quer assumir o poder no Egito e que o Estado civil é o único caminho para o progresso do Egito", disse Ghonim pelo Facebook. "O Exército defendeu a continuidade do atual gabinete, dizendo estar trabalhando para substituí-lo rapidamente, mas que um (gabinete) interino é necessário para proteger interesses populares."

Ghonim relatou também que os militares prometeram buscar todos os manifestantes que desapareceram durante a rebelião, com base em uma lista a ser preparada pelos ativistas juvenis.

Além disso, o Exército também conclamou os jovens a formar novos partidos políticos, e propôs uma campanha para arrecadar o equivalente a US$ 17 bilhões em donativos para a reconstrução do país, segundo Ghonim. "O papel do Exército será assegurar a transição democrática e proteger a democracia, e ele não irá interferir de forma alguma no processo político."

Protestos

Nesta segunda-feira, grupos de manifestantes egípcios começaram a retornar nesta segunda-feira à praça Tahir , no Cairo, horas após o Exército ter esvaziado o local, que tem sido centro dos protestos no país contra o ex-presidente do país Hosni Mubarak. Mas, agora, os protestos passaram a incluir reivindicações trabalhistas.

Cerca de 2 mil empregados de empresas públicas e privadas, entre policiais, bancários, funcionários da indústria do turismo e do transporte, se dirigiram ao local para exigir melhores condições de trabalho e, ao mesmo tempo, mostrar solidariedade com os protestos antigoverno. Outras manifestações aconteceram em frente à sede da TV estatal e em atrações turísticas da capital.

Diante das novas manifestações, o Exército pediu por meio de um comunicado divulgado pela TV estatal que os trabalhadores egípcios ajudem a recuperar a economia do país, evitando greves. Um porta-voz militar disse que "as greves, neste momento delicado, levam a resultados negativos" e pediu para que os "cidadãos e sindicatos desempenhem suas obrigações". Segundo o governo, o Egito perdeu mais de US$ 6 bilhões durante os 18 dias de protestos, que paralisou o turismo e outros setores da economia.

De acordo com a emissora de TV estatal do país, os militares tiveram que se reunir nesta segunda-feira com outras categorias profissionais para impedir greves que exigem, entre outre outras reivindicações, melhores salários e a remoção de chefes ligados ao partido político de Mubarak, o Partido Nacional Democrático (PND).

O governo já havia anunciado que sua prioridade era restabelecer a segurança no país e reativar a economia. Mas jornais egípcios falaram em novas greves de outras categorias profissionais de servidores públicos, como os de ferroviários, mídia e correios.

Polícia

Perto da praça, policiais fizeram um protesto após uma passeata. Alguns deles carregavam fotos de colegas supostamente mortos nos confrontos com manifestantes, em que dezenas de pessoas morreram e mais de 1,5 mil ficaram feridas. Um cartaz carregava a frase: "Estas também são vítimas do regime".

No domingo, a polícia egípcia também foi às ruas para protestar por melhores salários, benefícios, redução na jornada de trabalho e que houvesse mais respeito à instituição. Centenas de oficiais, policiais de menor patente e pessoal administrativo da polícia marcharam até o Ministério do Interior, onde foram impedidos pelo Exército de entrar no prédio.

Segundo eles, um oficial da polícia ganha cerca de US$ 85 por mês e trabalha entre 12 a 15 horas por dia. Eles disseram que eram ameaçados de prisão caso se recusassem a trabalhar fora do horário, alem de pagar por transporte para ir ao trabalho. Oficiais do Exército também tiveram que intervir para que a polícia encerrasse o protesto.

Em seu protesto nesta segunda, os policiais acusaram oficiais de alto escalão de manchar a corporação. Eles também alegaram que foram obrigados a reprimir as manifestações antigoverno sob pena de prisão.

Praça vazia

Grande parte dos manifestantes tinha deixado a praça no domingo, após o Conselho Militar ter dissolvido o Parlamento e suspendido a Constituição do país. Nesta segunda-feira, o Exército deu um ultimato a centenas de ativistas que continuavam na praça, ameaçando prender aqueles que não deixassem o local. Enquanto os militares retiravam os manifestantes, houve trocas de empurrões e algumas detenções.

Em comunicado transmitido pela TV, o Comando Militar que assumiu o poder no país anunciou que ficará no poder por seis meses ou até a realização de eleições.

No pronunciamento, o Comando Militar declarou ainda que irá formar um comitê para elaborar uma nova Constituição, que será depois submetida a um referendo popular. O presidente Hosni Mubarak, que estava no poder desde 1981, renunciou na sexta-feira após 18 dias de protestos populares.

Os militares declararam feriado bancário nesta segunda-feira em uma tentativa de organizar o retorno do país à normalidade após quase três semanas de protestos e paralisações.

Transição

A Constituição egípcia, suspensa no domingo, proibia muitos grupos e partidos de participar em eleições, deixando o Egito na prática com um Parlamento dominado pelos apoiadores do Partido Nacional Democrata (PND), de Mubarak. Durante a transição, o gabinete de ministros indicado por Mubarak no mês passado, após o início dos protestos, seguirá governando, mas terá que submeter as decisões ao conselho militar para aprovação.

O opositor Ayman Nour, que concorreu contra Mubarak nas eleições presidenciais de 2005, descreveu as medidas anunciadas pelos militares como "uma vitória da revolução". O primeiro-ministro Ahmed Shafiq disse que sua principal prioridade é restaurar a segurança no país.

*Com Reuters

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