Egito não voltará a ser o que era antes, diz Obama

Em entrevista ao canal Fox, presidente americano diz que não pode prever se líder egípcio Hosni Mubarak renunciará

BBC Brasil |

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O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse na noite deste domingo que o Egito não vai voltar a ser igual ao que era antes do início dos protestos populares, que entram no 14º dia nesta segunda-feira.

Em declarações que foram transmitidas pelo canal americano Fox, Obama afirmou porém que não pode prever se o presidente egípcio, Hosni Mubarak, renunciará ou não.

"Somente ele sabe o que vai fazer", disse o presidente americano. "Os Estados Unidos não podem ordenar nada, mas o que podemos fazer é dizer que chegou a hora de começar a promover mudanças em seu país.Mubarak já decidiu que não vai mais concorrer (à Presidência)."

Obama também afirmou não acreditar que a Irmandade Muçulmana, grupo islâmico proibido por Mubarak, terá um papel importante em um eventual novo governo egípcio. "Acho que a Irmandade Muçulmana é apenas uma das facções no Egito", disse Obama. "Eles não têm o apoio da maioria", afirmou.

Apesar disso, ele reconheceu que o grupo é bem organizado e tem "traços de sua ideologia que são anti-americanos". Ainda assim, Obama disse acreditar que haverá um governo com o qual os Estados Unidos possam colaborar "se o Egito passar por um processo de transição ordenado".

As declarações seguem afirmações feitas também neste domingo pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton, de que forçar a saída rápida de Mubarak da Presidência poderia complicar a transformação democrática do Egito.

Para Hillary, a saída imediata de Mubarak poderia afetar as "ações significativas" já tomadas pelo atual presidente para iniciar o processo de reforma.

Ela observou que em caso de renúncia do presidente, a Constituição egípcia prevê a realização de novas eleições em um prazo de 60 dias, o que mesmo a oposição reconhece ser um prazo curto demais para a organização de eleições livres e justas.

Em uma entrevista na semana passada, Mubarak se disse "farto" do poder, mas afirmou que pretende continuar no cargo até o fim de seu atual mandato, em setembro, por temer o "caos" se sair imediatamente.

Manifestações

Apesar das primeiras reuniões de diálogo entre o governo e a oposição no domingo, milhares de manifestantes continuaram a protestar contra o governo na praça Tahrir, no centro do Cairo, para exigir a saída imediata de Mubarak. Nas negociações, o vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, ofereceu a criação de um comitê para estudar reformas constitucionais.

No entanto, os grupos opositores, incluindo a Irmandade Muçulmana, reagiram com cautela à oferta. Alguns líderes disseram à BBC que estão céticos sobre as intenções do governo e que pediram uma série de medidas para restaurar a confiança entre os dois lados.

As exigências incluem o fim imediato das leis de emergência, que vigoram no país há 29 anos, dando grandes poderes de repressão ao Estado, e o fim do que a oposição chama de "incentivo à intimidação" por parte da televisão estatal.

Essa foi a primeira vez que representantes do governo e da Irmandade Muçulmana, uma organização oficialmente declarada ilegal no Egito, sentaram-se à mesa de negociações com o governo.

Segundo o correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne, havia uma ampla gama de representantes da oposição na reunião deste domingo, incluindo nomes dos partidos Wafd e Tagammu, além de importantes figuras no país, como o empresário Naguib Sawiris.

A TV estatal afirmou que ficou acertada a criação de um comitê formado por juristas e figuras políticas incumbidos de sugerir mudanças constitucionais.

AP
Negociações com a oposição não esvaziaram praça Tahrir, epicentro das manifestações opositoras no Egito (06/02)

Os participantes também teriam condenado a interferência externa na resolução da crise no Egito e teriam dito que irão trabalhar por uma transição de poder pacífica. Na semana passada, Suleiman convidou grupos de oposição para discutir reformas políticas antes das eleições em setembro, alertando a Irmandade Muçulmana de que se tratava de uma "oportunidade valiosa".

Anteriormente, o grupo oposicionista condicionava qualquer negociação à renúncia imediata do presidente Mubarak. O grupo disse que as conversas deste domingo serviriam para avaliar se o governo estava preparado para a implementação de reformas políticas imediatas.

Economia

Apesar das quase duas semanas de protestos nas ruas do Cairo e de outras grandes cidades do país, o presidente Hosni Mubarak - no poder desde 1981 - afirmou que não renunciará, mas prometeu não concorrer à reeleição.

Mubarak já responsabilizou a Irmandade Muçulmana pela organização das manifestações e afirma que se ele deixar o cargo, o grupo vai se aproveitar do caos político que se instalará.

O correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne diz que a Irmandade é sem dúvida uma força importante no Egito, mas sofre divisões internas e não apresenta intenções claras, apesar de negar que tenha o objetivo de criar um Estado islâmico no país.

Neste domingo, os bancos reabriram após uma semana fechados e longas filas se formaram. Devido a temores de que a população tente sacar o dinheiro depositado em contas, o Banco Central decidiu liberar parte de suas reservas de US$ 36 bilhões para cobrir as possíveis retiradas, mas o presidente da instituição diz acreditar que todas as transações "serão honradas".

O governo tenta reanimar a economia do país, que, segundo estimativas, está perdendo pelo menos US$ 310 milhões por dia devido à crise.

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