Egito anuncia 62% de participação popular nas eleições

Número é menor do que o previsto anteriormente pelos militares; presença foi estimulada também por multa aos faltosos

iG São Paulo |

O chefe da comissão eleitorial do Egito afirmou nesta sexta-feira que 62% dos eleitores compareceram à primeira etapa das eleições parlamentares, número menor ao estimado pelos militares anteriormente, em torno de 70%.

Leia também: Para Irmandade, votação em peso justifica controle civil no Egito

Reuters
Abdel Moez Ibrahim anuncia em conferência participação eleitoral no Egito


Abdel-Mooaez Ibrahim qualificou a presença como "a maior desde os tempos dos faraós". Apesar da aclamação dos militares pela massiva participação, muitos dos que foram votar nos dois dias de eleição o fizeram para evitar a multa de 500 libras egípcias (aproximadamente R$ 155) imposta pela junta àqueles que faltassem.

Ibrahim admitiu que houve várias violações das regras eleitorais na votação de segunda e terça-feira, especialmente casos de boca de urna, mas afirmou que isso não afetou o resultado.

"O sangue dos mártires regou a árvore da liberdade da justiça social e do Estado de direito. Agora estamos colhendo seus primeiros frutos," disse Ibrahim, num tributo às mais de 850 pessoas mortas durante a rebelião popular que levou à queda de Hosni Mubarak, há trinta anos no poder.

Na sexta-feira, os manifestantes estiveram de volta à praça Tahrir, epicentro da revolução, para homenagear 42 pessoas que morreram nos protestos do mês passado contra a junta militar que substituiu Mubarak. "Sem a Tahrir, não teríamos tido essas eleições," disse o manifestante Mohamed Gad. "Se Deus quiser, as eleições vão dar certo, e a revolução vai triunfar."

Mas muitos dos jovens que saíram às ruas no começo do ano agora temem que a sua revolução seja apropriada pelos militares ou por bem organizados partidos islâmicos.

Ibrahim anunciou os resultados apenas de alguns poucos distritos onde houve uma votação expressiva em prol de candidatos individuais. No complexo sistema, dois terços das 498 cadeiras parlamentares irão para a lista de partidos, enquanto o resto será concedida a indivíduos. A maioria dessas disputas será decidida em um segundo turno da semana que vem. O chefe da comissão eleitoral não apresentou resultados relativos à votação em listas partidárias, na qual os partidos islâmicos são favoritos.

Das 56 vagas distritais em disputa, só quatro foram decididas em primeiro turno. Em duas delas, o vencedor é do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), ligado à Irmandade Muçulmana, maior organização de massas do Egito, que era proibida de disputar eleições na época de Mubarak.

Mais de 13 milhões de eleitores colocaram suas cédulas nas urnas na segunda e terça-feira, na primeira de três etapas de eleição para a Câmara Baixa. Três outras etapas que deverão ocorrer até março elegerão a Câmara Alta. Nesta primeira fase das eleições parlamentares, apenas um terço dos distritos foram às urnas.

É esperado que os partidos islâmicos dominem os resultados, encabeçados pela Irmandade Muçulmana. Mais cedo, a Irmandade disse que esperava que o seu Partido da Liberdade e Justiça (PLJ) receba 40% dos votos. Mas outro grupo islâmico mais radical também pode se sair bem.

Nesta sexta-feira, o partido islâmico ultraconservador salafista Al-Nour disse que, uma vez no Parlamento, planeja pressionar por um código religioso mais duro no Egito, após alegar que obteve um avanço surpreendente nessa primeira etapa das eleições.

As contas preliminares e não-oficiais, vazadas por alguns juízes e grupos políticos, indicam que o braço político da Irmandade Muçulmana (o PLJ) de fato tem o maior número de votos. Logo em seguida, estão o Al-Nour e a coalizão de partidos liberais, o Bloco Egípcio.

Essa tendência, se confirmada e se estendida para as rodadas seguintes de votação, daria aos partidos religiosos um mandato popular na luta para vencer o controle imposto pela junta militar, que está no poder desde a queda de Hosni Mubarak.

O partido Al-Nour espera obter 30% dos votos, afirmou o porta-coz Yousseri Hamad à Associated Press. Eles esperam ter uma posição boa o suficiente para influenciar todo o quadro político egípcio, no entanto, ainda não está claro quanto poder esse novo parlamento terá  com os generais no comando.

Em entrevista concedida ao jornal americano The New York Times, Essam el-Erian, um líder do Partido da Liberdade e Justiça (PLJ), pertencente à Irmandade Muçulmana, argumentou que a inesperada participação massiva dos egípcios nas eleições indicava uma reivindicação popular por maior controle civil .

Embora um general entre os governantes do país tenha dito no último fim de semana que a junta militar continuaria a escolher o premiê mesmo depois da formação de um Parlamento, Erian disse que a numerosa participação nas eleições de segunda e terça-feira mostra que os egípcios querem que uma maioria parlamentar, e não os generais, tenham esse poder. "Milhões de egípcios votaram, porque querem um forte e democrático Parlamento", disse.

AP
Manifestantes carregam caixões de mentira para lembrar àqueles mortos nos protestos contra a junta militar no Egito

Seu pronunciamento é um sinal de que a Irmandade Muçulmana tem a intenção de usar seus assentos para pressionar os militares, apesar de ter recusado se unir aos protestos que tomaram as ruas do país dias antes das eleições.

A junta militar também impediu que o novo Parlamento tenha poderes para dissolver o atual gabinete - liderado por Kamal Ganzouri desde o final da semana passada.

Com AP, BBC e New York Times

    Leia tudo sobre: egitomundo árabeeleição no egitomubarakparticipação

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG