Egito adota discurso conciliatório, mas amplia repressão nas ruas

Enquanto indica que acatará demandas da oposição, governo culpa estrangeiros, que viram alvo de ataques de governistas

iG São Paulo |

No décimo dia de tumultos, o governo do Egito aumentou a repressão com a prisão de jornalistas e de ativistas, enquanto oferecia concessões à oposição em meio ao crescimento da frustração populacional com a crise econômica e as cenas de caos nas ruas.

No segundo dia consecutivo de choques com opositores do presidente egípcio, Hosni Mubarak, gangues, delinquentes e partidários do líder egípcio atacaram repórteres, estrangeiros e equipes de direitos humanos enquanto o Exército protegia a imprensa estrangeira. Nos EUA, o porta-voz do Departamento de Estado, P.J. Crowley, condenou o que classificou de "uma campanha orquestrada para intimidar jornalistas internacionais no Cairo ".

As ações de violência dos governistas ocorreram enquanto o governo atuava para ganhar tempo, fazendo apelos por paciência e anunciando que aceitava demandas feitas durante os dez dias de protestos. Desde terça-feira, quando Mubarak anunciou que só deixará o poder após as eleições de setembro , aumentaram as pressões internacionais para que a transição de poder comece imediatamente.

Mas, ao mesmo tempo em que reafirmava sua suposta disposição para negociar com os partidos de oposição, em entrevistas e declarações o governo cada vez mais passou uma imagem de que os estrangeiros estavam instigando os tumultos e apoiando as dezenas de milhares na rua que demandam a imediata renúncia de Mubarak, ditador que governa o país há 30 anos.

As sugestões fazem parte de uma campanha da mídia estatal que retratou os manifestantes como arruaceiros e ignorou a abrangência de um levante que cativou o mundo árabe .

"Quando há manifestações desse tamanho, há estrangeiros que vêm para tirar proveito e têm uma agenda para aumentar a energia dos manifestantes", disse o vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, em uma entrevista para a TV estatal.

Em meio aos tumultos das ruas, Mubarak disse à ABC News que estava "cheio" de ser presidente, mas que não poderia renunciar pelo risco de o caos aumentar .

Confrontado com a resistência do protesto opositor na praça Tahrir, o governo tentou atenuar a repressão com mais concessões. Em uma longa entrevista, o vice-presidente do país, Omar Suleiman, anunciou que o filho de Hosni Mubarak, Gamal, não concorrerá à presidência nas eleições de setembro - uma das principais exigências dos opositores. Mais tarde, Suleiman pediu diálogo com a Irmandade Muçulmana , o principal movimento oposicionista egípcio.

O porta-voz da organização, Mohammed Mursi, disse que a Irmandade rejeita categoricamente a oferta. Em comunicado, Mursi considerou que as medidas anunciadas por Mubarak e reiteradas por Suleiman "seguem o caminho incorreto, pois o regime não deve sair agora anunciando reformas, já que perdeu sua legitimidade constitucional e popular".

null A estratégia do governo parece ter o objetivo de virar a opinião do país contra os manifestantes e de fazer eles próprios perderem o entusiasmo com o movimento. Nesta quinta-feira, muitos dos oposicionistas pareciam exaustos com os dois dias de confrontos consecutivos .

Ataques contra jornalistas

Durante o dia, multidões pró-governo bateram em jornalistas com paus nas ruas do lado de fora da praça Tahrir, que desde o início dos protestos, em 25 de janeiro, virou símbolo dos manifestantes antigoverno.

Houve relatos de que dezenas de jornalistas , incluindo alguns do Washington Post e New York Times, estavam sendo detidos por forças de segurança. Um jornalista grego de uma publicação impressa foi esfaqueado na perna, e um fotógrafo foi atingido no rosto por agressores que destruíram parte de seu equipamento. A rede de TV árabe Al-Arabiya pediu uma escolta do Exército para proteger seus escritórios e jornalistas, e a Al-Jazeera relatou que dois de seus correspondentes foram atacados.

Enviados ao Cairo para a cobertura dos protestos no Egito, o repórter Corban Costa, da Rádio Nacional, e o repórter cinematográfico Gilvan Rocha , da TV Brasil, foram detidos, vendados e tiveram passaportes e equipamentos apreendidos na quarta-feira. O ministério das Relações Exteriores divulgou nota em que “ deplora os confrontos violentos ” associados à crise política vivida pelo Egito.

Ativistas de direitos humanos também foram alvo. A polícia militar invadiu os escritórios de grupos de direitos egípcios enquanto os ativistas se reuniam e prenderam ao menos cinco, incluindo um da Anistia Internacional e outro da Human Rights Watch.

Dois tanques do Exército egípcio transportaram nesta quinta-feira 30 jornalistas estrangeiros que estavam hospedados no hotel Ramsés Hilton, muito perto da praça Tahrir, para o Marriott, na ilha de Zamalek, mais afastado dos conflitos. O hotel foi rodeado durante horas por partidários de Mubarak.

O hotel que concentrava a maior quantidade de jornalistas internacionais no Cairo, incluindo a reportagem do iG , proibiu formalmente qualquer filmagem das varandas , de onde são feitas quase todas as imagens vistas pelas principais emissoras de TV mundiais.

Com AP, New York Times, EFE e AFP

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